Verinotio
NOVA FASE
ISSN 1981 - 061X v. 27 n. 1, Lukács: 50 anos depois - jan./jun. 2021
Heidegger Redivivus
*
György Lukács
A primeira manifestação abrangente de
Heidegger após a queda do fascismo é muito
interessante para o público filosófico. Como o
representante mais importante do
existencialismo pré-fascista os problemas da
filosofia contemporânea? O que ele pensa
sobre a relação de sua própria filosofia pré-
fascista com essas questões? Ele encontra algo
que necessita de revisão em suas concepções
anteriores? Se sim, o quê?
Die erste umfassende Äußerung
Heideggers nach dem Sturz des Faschismus
ist für die philosophische Öffentlichkeit sehr
interessant. Wie steht der wichtigste
Vertreter des präfaschistischen
Existentialismus zu den Problemen der
Philosophie der Gegenwart? Wie denkt er
über die Beziehung seiner eigenen
präfaschistischen Philosophie zu diesen
Fragen? Findet er etwas
Revisionsbedürftiges an seiner eigenen
alten Konzeption? Wenn ja: was?
Escolhemos a expressão pré-fascista com
cuidado. Isto não significa necessariamente
uma simples identificação de Heidegger com o
fascismo embora, em uma personalidade
filosófica como Heidegger, o compromisso
pessoal com o regime de Hitler em 1933-34
certamente não foi mera coincidência e
certamente está conexão com sua visão de
mundo. Sua importância diminuiria se
tratássemos essa ocorrência como se fosse um
episódio insignificante, não essencial. A
expressão pré-fascista não significa aqui uma
conexão direta entre a filosofia de Heidegger e
Wir haben den Ausdruck präfaschistisch
mit Bedacht gewählt. Er bedeutet nicht
ohne weiteres eine ein-fache Identifikation
Heideggers mit dem Faschismus obwohl
gerade bei einer philosophischen
Persönlichkeit wie Heidegger das
persönliche Sicheinsetzen für das
Hitlerregime 1933/34 sicher kein bloßer
Zufall war und sicher nicht ohne
Zusammenhang mit seiner Weltanschauung
ist. Man würde seine Bedeutung
herabsetzen, ginge man an diesem
Auftreten wie an einer unwesentlichen,
nichtssagenden Episode vorüber. Der
Ausdruck präfaschistisch bedeutet also hier
*
Tradução: Ronaldo Vielmi Fortes, revisão técnica: Vitor Bartoletti Sartori. Tradução a partir da edição
alemã LUKÁCS, György.
Existentialismus oder Marxismus
. Berlin: Aufbau Verlag, 1951. Para a tradução
das passagens dos livros de Heidegger, foram utilizadas as edições:
Ser e tempo
. São Paulo: Vozes,
2005 e “Sobre o humanismo”. In: SARTRE, Jean-Paul; HEIDEGGER, Martin.
Questão de método.
Conferências e escritos filosóficos
. Coleção “Pensadores”, vol. 45. São Paulo: Abril Cultural, 1973. Para
dar coerência aos termos traduzidos, em alguns momentos foram necessárias algumas modificações. As
notas do revisor técnico são indicadas pela seguinte abreviatura: [N.R.T.].
DOI 10.36638/1981-061X.2021.v27.600
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Hitler ou Rosenberg; nem com os precursores
em um sentido imediato como em Chamberlain.
Contudo, é verdade que Heidegger assim
como Klages ou Jünger, que de outra forma
eram extraordinariamente diferentes dele, e
dos filósofos anteriores, como Nietzsche
contribuiu muito, especialmente por meio dos
pontos nucleares da colocação de suas
perguntas e respostas, para criar aquela
atmosfera espiritual na qual uma parte da
intelectualidade alemã se juntou com
entusiasmo a Hitler, enquanto a outra parte se
tornou quase completamente indefesa em sua
resistência espiritual ao hitlerismo.
nicht einen direkten Zusammen-hang der
Philosophie Heideggers etwa mit Hitler
oder Rosenberg; auch nicht Vorläuferschaft
in jenem unmittelbaren Sinne wie etwa bei
Chamberlain. Wohl aber, daß Heidegger
ebenso wie die von ihm sonst
außerordentlich verschiedenen Klages oder
Jünger, und von den früheren Philosophen:
Nietzsche besonders durch die
Kernpunkte seiner Fragestellungen und
Antworten sehr viel dazu beigetragen hat,
jene geistige Atmosphäre zu schaffen, in
der ein Teil der deutschen Intelligenz sich
mit Begeisterung an Hitler anschloß und ein
anderer Teil in seinem geistigen Widerstand
gegen den Hitlerismus fast völlig wehrlos
wurde.
Considerando-se a aparência externa,
Heidegger não reviu suas concepções
anteriores. Diz ele sobre
Ser e tempo
[na Carta
sobre o humanismo”]:
Opina-se, por toda parte, que a tentativa de
Ser e
tempo
findou num beco sem saída. Deixemos esta
opinião entregue a si mesma. Para além de
Ser e
tempo
, o pensar que procura dar alguns passos
no tratado que vem com este título ainda hoje não
conseguiu avançar. Entretanto, talvez este pensar
se terá aproximado um pouco mais do miolo de
sua questão (p. 362).
Na realidade, objetivamente falando,
muito poucas razões para uma atitude tão
arrogante. Mas, mantendo essa atitude, o novo
escrito de Heidegger é essencialmente uma
autodefesa contra conclusões que tidas como
erradas foram tiradas de sua produção pré-
fascista. A questão central é o humanismo, e
não apenas a motivação de dar uma resposta à
carta de Beaufret. Heidegger reconhece que
seu trabalho principal se dirige contra o
Betrachtet man den äußeren Anschein,
so will Heidegger an seinen alten
Anschauungen nichts revidieren. Er sagt
hier über
„Sein und Zeit":
Man meint allenthalben, der Versuch in
,Sein und Zeit' sei in eine Sackgasse
geraten. Lassen wir diese Meinung auf
sich beruhen. Über ,Sein und Zeit' ist das
Denken, das in der betitelten Abhandlung
einige Schritte versucht, auch heute nicht
hinausgekommen. Vielleicht ist es aber
inzwischen um einiges eher in seine Sache
hineingekommen (94).
In Wirklichkeit ist r solch hochmütige
Abwehr objektiv sehr wenig Grund
vorhanden. Aber dieser Gesinnung
entsprechend, ist auch die neue Schrift
Heideggers im Wesentlichen eine
Selbstverteidigung gegen Folgerungen, die
man angeblich zu Unrecht aus seiner
vorfaschistischen Produktion gezogen hat.
Die Zentralfrage und nicht nur der Anlaß
des Briefes an Beaufret ist der
Humanismus. Heidegger bekennt sich dazu,
daß sein Hauptwerk gegen den
Humanismus gerichtet ist. Aber, fügt er
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humanismo. Mas, acrescenta,
esta oposição não significa que um tal pensar se
bandeie para o lado oposto do humano,
defendendo o inumano e a desumanidade e
degradando a dignidade do homem. Pensa-se
contra o humanismo porque ele não instaura a
humanitas
do homem numa posição
suficientemente alta (p. 356).
E em outro lugar ele se defende
vigorosamente contra as acusações de que tem
algo a ver com irracionalismo, ateísmo e
niilismo (cf. p. 364).
hinzu,
dieser Gegensatz bedeutet nicht, daß sich
solches Denken auf die Gegenseite des
Humanen schlägt und das Inhumane
befürwortet, die Unmenschlichkeit
verteidigt und die Würde des Menschen
herabsetzt. Gegen den Humanismus wird
gedacht, weil er die humanitas des
Menschen nicht hoch genug ansetzt (75).
Und an einer anderen Stelle verteidigt
er sich heftig gegen die Vorwürfe, mit dem
Irrationalismus, dem Atheismus, dem
Nihilismus etwas zu tun zu haben (95-6).
Seria superficial ver a posição atual de
Heidegger sobre o humanismo como um mero
argumento verbal. Os admiradores do Hölderlin
real poderiam facilmente acalmar sua
consciência humanística se o humanismo fosse
rejeitado em seu nome (cf. p. 351), se desse
ponto de vista lderlin fosse colocado acima
de Goethe (cf. p. 360). Pode-se pensar: não faz
diferença se o que representa o trabalho da
vida de Hölderlin se chama humanismo ou não.
O que o Hölderlin real desejou e projetou está,
em todas as circunstâncias, profundamente
imbuído das melhores tradições do
humanismo; o que quer que surja daqui não
poderia colocar o humanismo em perigo.
Es re oberflächlich, in Heideggers
jetziger Stellungnahme zum Humanismus
einen bloßen Wortstreit zu erblicken. Die
Verehrer des wirklichen lderlin nnten
zwar ihr humanistisches Gewissen leicht
beruhigen, wenn der Humanismus in
seinem Namen abgelehnt wird (63), wenn
von diesem Standpunkt Hölderlin über
Goethe gestellt wird (86). Man könnte
meinen: es sei einerlei, ob das, was das
Hölderlinsche Lebenswerk repräsentiert,
Humanismus genannt wird oder nicht. Das,
was der wirkliche lderlin wollte und
gestaltete, ist unter allen Umständen tief
erfüllt von den besten Traditionen des
Humanismus, was immer von hier aus
entstehe, könne den Humanismus
unmöglich gefährden.
Mas isso seria superficial, porque o lderlin
real não é de forma alguma idêntico ao de
Heidegger; portanto, o que se quer dizer aqui
pode muito bem ser um princípio hostil ao
humanismo, ainda que Heidegger estivesse
certo ao dizer que não deseja defender
diretamente o desumano. Este não é o lugar
para discutir a interpretação de Heidegger
sobre Hölderlin. Ela é filosoficamente
Das wäre aber oberflächlich, denn der
wirkliche Hölderlin ist keineswegs identisch
mit dem Heideggerschen; was also hier
gemeint wird, kann an sich sehr wohl ein
dem Humanismus feindliches Prinzip sein,
auch wenn Heidegger recht hätte, daß er
nicht unmittelbar das Inhumane verteidigen
will. Hier ist nicht der Ort, über die
Hölderlin-Interpretation Heideggers zu
diskutieren. Sie ist für uns philosophisch
nur wichtig infolge ihres prinzipiellen
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importante para nós apenas por causa do
princípio que serve de seu ponto de partida
principal: para Heidegger, Hölderlin representa
uma posição mais profunda, uma atitude
ideológica que vai além do humanismo, na
medida em que faz com que Hölderlin isso é
expressamente enfatizado nas duas passagens
onde se faz referência a ele pense mais
primordialmente
1
que Goethe ou outro
humanismo histórico. Caso se queira avaliar
criticamente a posição filosófica atual de
Heidegger, examiná-la por suas perspectivas,
compará-la com
Ser e tempo
, é importante
considerar o significado deste Primordial-
mente
2
um pouco mais de perto. Certo desvio
é absolutamente necessário para isso.
Ausgangspunktes: Hölderlin repräsentiert
für Heidegger eine tiefere Stellungnahme,
eine über den Humanismus hinausgehende
welt-anschauliche Attitüde, indem er dies
ist an beiden Stellen, wo eine Berufung auf
Hölderlin erfolgt, ausdrücklich betont
„anfänglicher" denkt als Goethe oder der
sonstige historische Humanismus. Wenn
man die heutige philosophische Position
Heideggers kritisch rdigen, auf ihre
Perspektiven untersuchen, mit
„Sein und
Zeit"
vergleichen will, kommt es also darauf
an, den Sinn dieses „Anfänglichen" etwas
näher zu betrachten. Dazu ist ein gewisser
Umweg unbedingt notwendig.
Quando Heidegger menciona Hölderlin, usa
uma frase não desprovida de significação. Após
a constatação do além-do-humanismo de
Hölderlin, diz ele:
Por isso, os jovens alemães que sabiam de
Hölderlin pensaram e viveram bem outra coisa, em
face da morte, que aquilo que a opinião pública
apresentava como sendo a posição alemã (p.
360).
Se, por meio dela, quer apenas afirmar que
muitos dos jovens alemães que participaram
das campanhas de Hitler, seja dito de
passagem, não estavam apenas em uma
situação face à morte, mas também, na
melhor das hipóteses, eram testemunhas,
participantes passivas, em atos de roubo e
Bei der Erwähnung Hölderlins llt bei
Heidegger ein nicht unwesentlicher Satz. Er
sagt nach der Feststellung des
„Überhumanismus" Hölderlins:
Darum haben die jungen Deutschen, die
von Hölderlin wußten, angesichts des
Todes Anderes gedacht und gelebt als
das, was die Öffentlichkeit als deutsche
Meinung ausgab (87).
Wenn damit nur gesagt werden sollte,
daß viele der jungen Deutschen, die an
Hitlers Feldzügen teilnahmen aber,
beiläufig gesagt, sich nicht nur in einer
Situation „angesichts des Todes"
befanden, sondern auch in der, daß sie, im
besten Fall, Zeugen, passive Teilnehmer
der Raub- und Mordtaten, der
Vergewaltigungen von Frauen und
1
Poderia ser traduzido igualmente por “originariamente”. No entanto, no caso, ter-se-ia confusão com
o termo “ürsprunglich”, também comum em Heidegger [N.R.T.].
2
Optamos por colocar o termo com letra maiúscula por se tratar de uma substantivação trazida por
Heidegger [N.R.T.].
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assassinato, estupro de mulheres e crianças etc.
pelo exército de Hitler nem todos
compartilhavam da ideologia nazista , tal
afirmação seria um lugar-comum. Embora
também deva ser dito de passagem que a era
Hitler gerou um novo entusiasmo por Hölderlin
(em nossa opinião completamente distorcido),
não apenas em Heidegger, mas também nos
ideólogos oficiais nazistas, como em
Rosenberg, Bäumler e outros. Então, quando,
com essa frase final, se fala em ultrapassar o
humanismo, em ir além do mero
cosmopolitismo de Goethe, essas frases de
Heidegger soam, no mínimo, um tanto
suspeitas. Algo assim: vocês, incapazes de
compreender, condenam a barbárie do
Hitlerismo, a Juventude Hitlerista, o que sabem
vocês que ignoram o essencialmente
primordial, que nunca puderam olhar além de
cada ente da vida interior daqueles jovens (os
seguidores de Heidegger e, portanto, do
próprio Heidegger), vocês que são capazes de
apreender o ser dos entes por meio da vivência
e do pensamento?
Kindern usw. durch die Hitlerarmee waren
nicht alle die Naziideologie teilten, so
re dies ein Gemeinplatz. Obwohl
ebenfalls beiläufig gesagt werden muß,
daß die Hitlerzeit nicht nur bei Heidegger
eine neue (unseres Erachtens ihn völlig
verzerrende) Begeisterung für Hölderlin
entfachte, sondern auch bei den offiziellen
Naziideologen, bei Rosenberg, Bäumler u.
a. Wenn also mit dieser Pointe von einem
übertreffen des Humanismus die Rede ist,
von einem Hinausgehen über das „bloße
Weltbürgertum Goethes", klingen diese
tze Heideggers, gelinde gesagt, etwas
verdächtig. Etwa so: ihr Unverständigen
verurteilt die Barbarei des Hitlertums, der
Hitlerjugend, was wißt ihr, die ihr das
„wesentlich Anfänglichere" nicht kennt, die
ihr über das jeweils Seiende nie
hinausblicken könnt, von dem inneren
Leben jener Jünglinge (der Anhänger
Heideggers und mit ihnen auch von
Heidegger selbst), die das Sein des
Seienden erlebnishaft und gedanklich zu
erfassen imstande sind?
O primordialmente aqui é um incógnito
moral e filosófico a nova filosofia de
Heidegger ecoa a de Kierkegaard tanto quanto
a antiga atrás do qual tudo pode ser
escondido, e que ergue entre os atos
perceptíveis do homem e sua única existência
autêntica uma barreira do irreconhecível. Tal
barreira é por princípio intransponível, como
Dostoiévski tinha visto: quanto mais geral um
princípio da moral (aqui o princípio de
Das Anfänglichere" ist hier ein
moralisches und philosophisches Inkognito
Heideggers neue Philosophie klingt an
dieser Stelle ebenso an Kierkegaard an wie
die alte , hinter dem sich was immer
verbergen kann, das zwischen die
wahrnehmbaren Taten des Menschen und
seine allein wahrhaftige, allein eigentliche
Existenz eine Barriere der Unerkennbarkeit
setzt. Eine solche Barriere ist prinzipiell
unübersteigbar, denn schon Dostojewskij
hat gesehen: daß, je erhaben allgemeiner
Heidegger Redivivus
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existência), menos ele pode ser capaz de
determinar as ações concretas dos homens, seu
comportamento concreto em relação à vida
real. Quanto mais alto esse princípio se eleva
acima da esfera dos entes, mais surge uma
atmosfera de indeterminidade geral, de
irracionalismo livremente visto apenas a partir
desse princípio; não importa se o próprio
princípio significa algo irracionalista em si
mesmo ou não. A autodefesa de Heidegger
contra o irracionalismo, portanto, se sustenta
em pés de barro. Hegel fala com razão de um
vazio sublime e de uma altura pura e
nauseante de abstração em passagens que
são semelhantes a tal metodologia.
ein Prinzip der Moral (hier das Prinzip der
„Existenz") ist, desto weniger kann es
imstande sein, die konkreten Hand-lungen
des Menschen, sein reales Verhalten zum
wirklichen Leben zu bestimmen. Je höher
sich ein solches Prinzip über die Sphäre des
Seienden erhebt, desto mehr entsteht
freilich nur von diesem Prinzip aus gesehen
eine Atmosphäre der generellen Indeter-
miniertheit, des Irrationalismus; gleichviel,
ob mit dem Prinzip selbst etwas an sich
Irrationalistisches gemeint ist oder nicht.
Heideggers Selbstverteidigung gegen den
Irrationalismus steht also auf nernen
Füßen. Mit Recht spricht Hegel in methodo-
logisch ähnlich gelagerten Stellen von einer
„erhabenen Hohlheit" und von einer „reinen
und eklen Höhe" der Abstraktion.
Abordaremos os detalhes das
consequências que emergem daqui mais tarde.
Voltemos à questão do Primordial.
Acreditamos que a atual filosofia de Heidegger,
assim como a anterior, é um sentimento de vida
surgindo de uma vivência do presente, de
uma posição do homem atual diante da vida
com seus semelhantes, em sua própria vida ,
cujo conteúdo é determinado pelos fatos
sociais da vida contemporânea, tal como Marx
analisou cientificamente em suas obras.
Auf die detaillierten Folgen, die sich von
hier aus ergeben, kommen wir später zu
sprechen. Kehren wir zur Frage des
„Anfänglichen" zurück. Wir glauben, daß
der heutigen Philosophie Heideggers,
ebenso wie der früheren, ein Lebensgefühl
entstanden aus einem Erleben der Gegen-
wart, aus einer Stellung des gegenwärtigen
Menschen zum Leben mit seinen Mit-
menschen, zum eigenen Leben zugrunde
liegt, dessen erlebnismäßiger Inhalt von
jenen sozialen Tatsachen des Lebens der
Gegenwart bestimmt ist, die Marx in seinen
Werken wissenschaftlich analysiert hat.
À primeira vista, pode parecer paradoxal
lembrar a teoria da sociedade
3
de Marx ao lidar
com a filosofia de Heidegger. Não esqueçamos,
contudo, que, em primeiro lugar, a
discussão
Es klingt vielleicht im ersten Augenblick
paradox, bei der Behandlung der
Heideggerschen Philosophie an die
Gesellschaftslehre von Marx zu erinnern.
Vergessen wir aber nicht, daß erstens die
3
Aqui, preferimos teoria da sociedade a doutrina da sociedade, que seria a tradução mais literal.
Isto ocorre devido ao caráter professoral ou dogmático que muitas vezes é atribuído, em português, à
noção de doutrina [N.R.T.].
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com Marx desempenhou um papel
extraordinariamente grande no
desenvolvimento do existencialismo francês;
em segundo lugar, que houve pesquisadores
anteriores que apontaram que
Ser e tempo
, em
certo sentido, constitui uma
discussão
importante
do fenômeno do fetichismo, que foi
cientificamente descoberto em sua legalidade
por Marx, e que o ex-aluno de Heidegger,
Löwith, também buscou estabelecer paralelos
entre Kierkegaard e Marx; em terceiro lugar,
que Heidegger, em seu novo escrito, faz pela
primeira vez referência direta a Marx e chega a
resultados extremamente interessantes.
Escreve ele:
O que Marx a partir de Hegel reconheceu, num
sentido essencial e significativo, como o
estranhamento do homem, alcança, com suas
raízes, até a apatridade do homem moderno. Este
estranhamento é provocado e isto, a partir do
destino do ser, na forma da Metafisica, é por ela
consolidada e ao mesmo tempo por ela mesma
encoberta, como apatridade. Pelo fato de Marx,
enquanto experimenta o estranhamento, atingir
uma dimensão essencial da história, a visão
marxista da História é superior a qualquer outro
tipo de historiografia. Mas porque nem Husserl,
nem, quanto eu saiba até agora, Sartre
reconhecem que a essencialidade
4
do elemento da
história reside no ser, por isso, nem a
Fenomenologia, nem o Existencialismo, atingem
aquela dimensão, no seio da qual é, em primeiro
lugar, possível um diálogo produtivo com o
marxismo (p. 360, modificada).
Auseinandersetzung mit Marx eine
außerordentlich große Rolle in der
Entwicklung des französischen
Existentialismus spielt; daß es zweitens
schon früher Forscher gab, die darauf
aufmerksam gemacht haben, daß
„Sein und
Zeit"
in bestimmtem Sinne
eine
große
Auseinandersetzung mit dem von Marx
wissenschaftlich entdeckten und auf seine
Gesetzmäßigkeit gebrachten Phänomen
des Fetischismus bildet, daß auch der
gewesene Heideggerschüler Löwith
zwischen Kierkegaard und Marx Parallelen
sucht; daß drittens Heidegger in seiner
neuen Schrift zum erstenmal direkt auf Marx
Bezug nimmt und dabei zu äußerst
interessanten Ergebnissen kommt. Er
schreibt:
Was Marx in einem wesentlichen und
bedeutenden Sinne von Hegel her als die
Entfremdung des Menschen erkannt hat,
reicht mit seinen Wurzeln in die
Heimatlosigkeit des neuzeitlichen
Menschen zurück ... Weil Marx, indem er
die Entfremdung erfährt, in eine
wesentliche Dimension der Geschichte
hineinreicht, deshalb ist die marxistische
Anschauung von der Geschichte aller
übrigen Historie überlegen. Weil aber
weder Husserl, noch, soweit ich bisher
sehe, Sartre die Wesentlichkeit des
Geschichtlichen im Sein erkennen, deshalb
kommt weder die Phänomenologie, noch
der Existentialismus in diejenige
Dimension, innerhalb der erst ein
produktives Gespräch mit dem Marxismus
möglich wird (87).
Aparentemente, Heidegger está aqui se
aproximando de Marx mais do que Sartre, que
em seus artigos de jornal renova todos os
velhos e banais argumentos professorais contra
o marxismo (seus alunos, especialmente
Scheinbar nähert sich hier Heidegger
mehr Marx als Sartre, der in seinen
Zeitschriftenartikeln alle alten und banalen
Privatdozentenargumente gegen den
Marxismus erneuert (seine Schüler,
besonders zuweilen Merleau Ponty,
4
Aqui, modificamos a tradução da obra heideggeriana utilizada por nós porque o substantivo
Wesenlichkeit
é, de certo modo, uma substantivação própria de Heidegger [N.R.T.].
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Merleau-Ponty, lidam um pouco mais de perto
com Marx). No entanto, isso é apenas uma
aparência. Pois, na medida em que os
existencialistas franceses se esforçam por se
aproximarem pelo pensamento da esfera da
existência social humana, procurando respostas
para a questão de como os homens devem se
comportar no presente social concreto, eles
chegam, intencionalmente ou o, nas
proximidades daquele mundo social concreto,
cuja estrutura, direção do movimento e
legalidade Marx descobriu cientificamente.
Porém, como desejam manter os antigos
postulados do existencialismo inalterados
nesse movimento, seu contato com o marxismo
acabou por ser mais ou menos hostil.
Heidegger, por outro lado, enfraquece
energicamente as relações latentemente
existentes na realidade social em
Ser e tempo
,
enfatizando que a concepção do impessoal
não tem relação com nenhuma sociologia (cf. p.
349); ele também elimina dos conceitos
mundo e ser-no-mundo todas as referências
sociais que antes estavam latentes ou
ressonantes (cf. p. 365). E, polemizando com
Sartre, rejeita expressamente para o ser
intencionado qualquer conexão com a
realidade histórico-social real. ele fala de um
pensamento que respeita a
dimensão da verdade do ser. Todavia, também
isso poderia acontecer a favor da dignidade
do ser e em benefício do ser-aí, que o homem,
ecsistindo, sustenta, e não por causa do homem,
para que através da sua obra se afirmem a
civilização e a cultura (p. 355).
beschäftigen sich etwas eingehender mit
Marx). Dies ist jedoch nur ein Schein. Denn,
indem die französischen Existentialisten
bestrebt sind, sich der Sphäre der sozialen
Existenz des Menschen gedanklich zu
nähern, indem sie auf die Frage, wie der
Mensch sich in der konkreten
gesellschaftlichen Gegenwart zu verhalten
hat, Antworten suchen, kommen sie,
gewollt oder ungewollt, in die Nähe jener
konkreten sozialen Welt, deren Struktur,
Bewegungsrichtung, Gesetzmäßigkeit Marx
wissenschaftlich aufgedeckt hat. Da sie
jedoch gerade in dieser Bewegung die alten
Grundsätze des Existentialismus
unverändert aufrechterhalten wollen, muß
ihr Kontakt mit dem Marxismus mehr oder
weniger feindlich sein. Heidegger dagegen
schwächt gerade hier die latent
vorhandenen Beziehungen auf die
gesellschaftliche Wirklichkeit aus
„Sein und
Zeit"
energisch ab. Er betont, daß die
Konzeption des „das Man" keine Beziehung
zu irgendeiner Soziologie habe (59); er
streicht auch aus den Begriffen „Welt" und
„In-der-Welt-Sein" alle früher latent
mitgedachten oder mitklingenden sozialen
Bezüge (100). Und mit Sartre
polemisierend, lehnt er r das von ihm
intentionierte Sein ausdrücklich jede
Verbindung mit der realen gesellschaftlich-
geschichtlichen Wirklichkeit ab. Er spricht
dort vom Denken, das die
Dimension der Wahrheit des Seins achtet.
Doch auch dies könnte jeweils nur dem
Sein zur Würde und dem Da-Sein
zugunsten geschehen, das der Mensch
eksistierend aussteht, nicht aber des
Menschen wegen, damit sich durch sein
Schaffen Zivilisation und Kultur geltend
machen (74).
Entretanto, permanece de maneira muito
Trotzdem bleibt und zwar sehr
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consciente, muito enfática como ponto de
partida o estado atual do mundo, o estado
atual do homem na vida. Heidegger fala,
novamente partindo de Hölderlin, da
apatridade do homem no mundo, do uso da
palavra pátria em Hölderlin:
Esta palavra é pensada aqui num sentido mais
essencial
5
, não com acento patriótico, nem
nacionalista, mas de acordo com a história do ser.
Mas a essência da pátria é, ao mesmo tempo,
nomeada com a intenção de pensar a apatridade
do homem moderno a partir da história do ser. O
último a experimentar esta apatridade foi
Nietzsche (p. 359, modificada).
Após lembrar de Nietzsche aqui vale dizer,
a combinação de Nietzsche e Hölderlin forma
um paralelo notável com as construções
históricas do pré-fascismo e do fascismo , ele
começa sua observação sobre Marx, citada
anteriormente, com as palavras:
A apatridade torna-se um destino do mundo. É
por isto que se torna necessário pensar este
destino sob o ponto de vista ontológico-historial
(p. 360).
bewußt, sehr betont als Ausgangspunkt
der gegenwärtige Weltzustand, der
gegenwärtige Stand des Menschen im
Leben, zum Leben bestehen. Heidegger
spricht, wieder von Hölderlin ausgehend,
von der Heimatlosigkeit des Menschen in
der Welt, von dem Gebrauch des Wortes
Heimat bei Hölderlin:
Dieses Wort wird hier in einem
wesentlichen Sinne gedacht, nicht
patriotisch, nicht nationalistisch, sondern
seinsgeschichtlich. Das Wesen der Heimat
ist aber zugleich in der Absicht genannt,
die Heimatlosigkeit des neuzeitlichen
Menschen aus dem Wesen der Geschichte
des Seins her zu denken. Zuletzt hat
Nietzsche diese Heimatlosigkeit erfahren
(84/85).
Wie er hier an Nietzsche erinnert
beiläufig gesagt, bildet die Zusammen-
stellung Nietzsches und Hölderlins eine
auffallende Parallele zu den Geschichts-
konstruktionen des Präfaschismus und des
Faschismus-, so beginnt seine früher zitier-
te Bemerkung über Marx mit den Worten:
Die Heimatlosigkeit wird ein Weltschicksal.
Deshalb ist es nötig, dieses Geschick
seinsgeschichtlich zu denken (87).
O problema da primordialidade está,
portanto, intimamente ligado ao da apatridade
do homem. Compreensivelmente. Pois esta é
uma vivência basilar do homem (burguês) do
capitalismo, especialmente do capitalismo
monopolista. A objetividade histórica universal
generosa de Marx consiste precisamente no
fato de ter analisado cientificamente as
legalidades sociais e econômicas objetivas do
ser dos homens no capitalismo, as tendências
históricas que o fizeram surgir, a estrutura que
Das Problem der „Anfänglichkeit" ist
also mit dem der Heimatlosigkeit des
Menschen aufs innigste verknüpft.
Verständlicherweise. Denn dies ist ein
Grunderlebnis des (bürgerlichen) Menschen
des Kapitalismus, besonders des Monopol-
kapitalismus. Die großzügige, welthis-
torische Objektivität von Marx besteht
gerade darin, daß er die objektiven
gesellschaftlichen und ökonomischen
Gesetzmäßigkeiten des Seins der Menschen
im Kapitalismus, die historischen
Tendenzen, die dieses Sein her vorgebracht
haben, die Struktur, die das reale Leben in
5
Modificamos a tradução utilizada da obra heideggeriana para explicitar o sentido de
wesenlichen
, que
remete à essência na filosofia alemã [N.R.T.].
Heidegger Redivivus
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a vida real mantém nessa formação social. Para
Marx, as categorias econômicas são:
“determinações da existência, formas do ser
(talvez seja supérfluo dizer que essas palavras
não devem ser interpretadas de forma
existencialista). Tudo o que essas vivências
basilares das pessoas da sociedade capitalista
intencionam é assim revelado em sua
objetividade real e objetiva. Evidentemente, o
caminho aqui não vai da intenção ao objeto,
mas o conhecimento real, objetivo do objeto
historicamente caracterizado, quando
necessário, fornece uma explicação da intenção.
E, naturalmente, apenas essa ordem e
hierarquia metodológica pode nos proteger da
arbitrariedade e do misticismo na análise. Pois
as vivências intencionais dos fenomenólogos,
como todas as vivências subjetivas, presas no
horizonte da burguesia na era imperialista,
ocorrem necessariamente com uma falsa
consciência (Marx também descobriu essa
necessidade da falsa consciência e suas leis).
dieser Gesellschaftsformation erhält,
wissenschaftlich analysiert hat. Die ökono-
mischen Kategorien sind für Marx:
„Daseins-formen, Existenzbestimmungen"
(es ist vielleicht überflüssig zu sagen, daß
diese Worte nicht existentialistisch
interpretiert werden dürfen). Alles, wohin
solche Grunderlebnisse" der Menschen der
kapitalistischen Gesellschaft „intentionie-
ren", wird dadurch in seiner wirklichen,
objektiven Gegenständlichkeit aufgedeckt.
Selbstverständlich geht hier der Weg nicht
von der Intention zum Gegenstand, sondern
die objektive Erkenntnis des historisch
charakterisierten Gegenstandes bringt, wo
es nötig ist, eine Erklärung der Intention.
Und naturgemäß kann nur diese metho-
dologische Hierarchie und Reihenfolge uns
vor Willkür und Mystik in der Analyse
schützen. Denn die „intentionalen" Erleb-
nisse der Phänomenologen vollziehen sich,
wie alle subjektiven Erlebnisse, befangen
im Horizont der Bürgerlichkeit im imperia-
listischen Zeitalter, notwendig mit einem
falschen Bewußtsein. (Diese Notwendigkeit
des falschen Bewußtseins und ihre Gesetze
hat ebenfalls Marx aufgedeckt.)
Ou seja, procedem de sintomas vivenciais e,
portanto, necessariamente intencionam um
objeto que é determinado pela vivência ou
tornado consciente ao pensamento com base
na vivência. O que está oculto na fetichização
capitalista, a saber, é que todos os objetos
mortos no ambiente social de cada homem na
realidade são relações entre homens (classes),
e o fato de que a objetividade social resultante
é colocada sobre a cabeça, como consequência
necessária da estrutura específica das relações
capitalistas entre os homens, essas somente
Das heißt, sie gehen von erlebnis-
mäßigen Symptomen aus und „intendieren"
darum notwendig auf einen nur erlebnishaft
bestimmten oder auf erlebnishafter Grund-
lage denkerisch bewußt gemachten Gegen-
stand. Was sich jedoch in der kapitalisti-
schen Fetischisierung verbirgt, daß nämlich
alle „toten" Gegenstände der gesellschaft-
lichen Umwelt eines jeden Menschen in
Wirklichkeit Beziehungen zwischen Men-
schen (Klassen) sind, daß das daraus ent-
springende Auf-den-Kopf-Gestelltsein der
gesellschaftlichen Gegenständlichkeit eine
notwendige Folge der spezifischen Struktur
der kapitalistischen Beziehungen zwischen
György Lukács
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são elucidadas por uma análise econômica
objetiva, mas nunca com o auxílio do método
reverso, aquele que parte do sujeito.
den Menschen ist, wird nur durch eine
objektive ökonomische Analyse erhellt,
niemals aber mit Hilfe der umgekehrten, der
vom Subjekt ausgehenden Methode.
Em relação íntima a isso eso fato de que
Marx apreende de maneira real o capitalismo
historicamente, como um progresso frente ao
feudalismo, como um estágio preliminar ao
socialismo. Todas as contradições do sistema
capitalista são trazidas à luz, mas não importa
quão terríveis, não importa quão desumanas,
não importa quão combativas sejam, essas
propriedades do capitalismo são sempre
entendidas apenas como elementos de sua
existência objetiva na totalidade da história
universal, e o problema de sua progressividade
precedente pode ser esclarecido neste
contexto geral. (A análise da prática social que
surge para o marxismo es, naturalmente, fora
do quadro destas considerações.)
Damit steht im engen Zusammenhang,
daß Marx den Kapitalismus wirklich
geschichtlich faßt, als Fortschritt
gegenüber dem Feudalismus, als Vorstufe
zum Sozialismus. Alle Widersprüche des
kapitalistischen Systems werden dabei ans
Licht gebracht, aber mag das so Erhellte
noch so fürchterlich, noch so antihuman,
noch so bekämpfenswert sein, diese
Eigenschaften des Kapitalismus sind doch
immer nur als Momente seiner objektiven
Existenz in der Totalität der Weltgeschichte
gefaßt, und das Problem seiner einstigen
Fortschrittlichkeit kann nur in diesem
Gesamtzusammenhang geklärt werden.
(Die Analyse der gesellschaftlichen Praxis,
die sich für den Marxismus ergibt, liegt
naturgemäß außerhalb des Rahmens dieser
Betrachtungen.)
Entretanto, todo idealismo também o de
Heidegger, é claro segue o caminho oposto.
Diz Heidegger:
A apatridade que assim deve ser pensada reside
no abandono do ser
6
do ente. Ela é o sinal do
esquecimento do ser. Em consequência dele a
verdade do ser permanece impensada (p. 360,
modificada).
Aqui, como em
Ser e tempo
, Heidegger faz
malabarismos entre um subjetivismo extremo e
uma pseudo-objetividade. Dizemos pseudo-
objetividade, porque objetivamente o
abandono do ser do ente é um absurdo do
pensamento. Uma explicação para isso pode
Aber jeder Idealismus natürlich auch
der Heideggersche geht einen
entgegengesetzten Weg. Heidegger sagt:
Die so zu denkende Heimat losigkeit beruht
in der Seinsverlassenheit des Seienden. Sie
ist ein Zeichen der Seinsvergessenheit.
Dieser zufolge bleibt die Wahrheit des Seins
ungedacht (86).
Heidegger jongliert hier wie in
„Sein
und Zeit"
zwischen einem extremen
Subjektivismus und einer Pseudo-
objektivität. Wir sagen Pseudoobjektivität,
denn objektiv ist eine Seinsverlassenheit
des Seienden ein gedankliches Unding. Eine
Erklärung dafür bietet nur der folgende
Satz mit dem Ausdruck der rein
6
Neste ponto, modificamos a tradução utilizada porque, em Heidegger, a noção de ser [
Sein
] vem a ser
central [N.R.T.].
Heidegger Redivivus
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ser encontrada na frase seguinte, com a
expressão do puramente subjetivo
esquecimento do ser. Se essa consideração tem
um sentido, então este é apenas que o
esquecimento do ser pelo sujeito produz o
abandono do ser. Com esse método, a
objetividade assim encontrada deve
necessariamente permanecer presa no domínio
do vivido subjetivamente, a consideração deve
contornar a estrutura objetiva da época, e, se é
feita a tentativa para estatuir uma objetividade,
ela deve ser irracional, mística, uma pseudo-
objetividade, assim como qualquer crítica da
era capitalista não importa o quão
abertamente sociológica ela seja, como em
alguns pensadores pode ser mitologizada
ontologicamente, como em Heidegger, mas
sempre permanece a crítica de meros sintomas
e nunca chega perto dos problemas decisivos,
da direção do movimento da história universal.
Portanto, os elogios que endereça ao marxismo
possuem filosoficamente pouca importância.
No máximo, são interessantes como sintomas:
como pressão da realidade social objetiva até
mesmo sobre intelectos que se opõem a ela.
Essa era a situação na filosofia e na sociologia
pré-fascistas. Naquela época, a Escola de Freyer
tendia a um reconhecimento de Marx bem
semelhante a esse. Hugo Fischer, por exemplo,
admitia todos os méritos de Marx com a
ressalva de que Marx fez de um fenômeno
secundário o desenvolvimento econômico e a
legalidade do capitalismo o principal,
enquanto o verdadeiro filósofo, Nietzsche, viu
subjektiven Seinsvergessenheit. Wenn
diese Betrachtung einen Sinn hat, dann nur
den, daß die Seinsvergessenheit des
Subjekts die Seinsverlassenheit des
Seienden hervorbringt. Bei dieser Methode
muß die so gefundene Gegenständlichkeit
notwendig im Bereich des subjektiv
Erlebten befangen bleiben, muß die
Betrachtung an der objektiven Struktur des
Zeitalters vorbeigehen, und soweit der
Versuch gemacht wird, eine Objektivität zu
statuieren, muß diese eine
irrationalistische, eine mystische, eine
Pseudoobjektivität sein, wie auch jede
solche Kritik des kapitalistischen Zeitalters,
mag sie sich, wie bei einigen Denkern, noch
so offen „soziologisch" gebärden, mag sie,
wie bei Heidegger, mythologisiert
ontologisch sein, stets die Kritik von bloßen
Symptomen bleibt und an die
entscheidenden Probleme der
Bewegungsrichtung der Weltgeschichte nie
heranreicht. Die Komplimente an die
Adresse des Marxismus haben also
philosophisch wenig zu bedeuten. Sie sind
höchstens als Symptome interessant: als
Druck der objektiven gesellschaftlichen
Wirklichkeit sogar auf an und r sich
widerstrebende Intellekte. So war die Lage
bereits in der präfaschistischen Philosophie
und Soziologie. Die Freyerschule neigte
damals zu einer ähnlichen „Anerkennung"
von Marx. Hugo Fischer z. B. gab alle
Verdienste von Marx zu mit dem Vorbehalt,
daß Marx ein Neben-phänomen, die
ökonomische Entwicklung und die
Gesetzmäßigkeit des Kapita-lismus zur
Hauptsache machte, während der wirkliche
Philosoph, Nietzsche, klarer sah, daß das
Grundphänomen, dem alles, was Marx
analysierte, philosophisch unterzuordnen
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mais claramente que o fenômeno basilar de
tudo o que Marx analisou deve ser
filosoficamente subordinado à e inserido na
decadência. Apesar de todas as divergências
metodológicas da Escola Freyer, a posição de
Heidegger sobre esse complexo de problemas
é metodologicamente muito semelhante. Em
todos esses casos, se o reconhecimento
ignora todos os problemas decisivos, nem a
decadência, segundo Fischer, nem a dimensão
do ser”, de Heidegger, tocam nos problemas
essenciais do marxismo.
und einzufügen wäre, die Dekadenz sei. Bei
aller methodologischen Divergenz zur
Freyerschule ist die Lage Heideggers zu
diesem Problemkomplex gerade
methodologisch eine sehr ähnliche. In allen
solchen Fällen geht die „Anerkennung" an
allen entscheidenden Problemen vorbei,
weder die Fischersehe Dekadenz, noch die
Heideggersche „Dimension des Seins"
berühren die wesentlichen Probleme des
Marxismus.
Sabemos que Heidegger e seus epígonos
protestariam violentamente contra o termo
idealismo. Heidegger afirma, agora como antes,
não ser nem idealista nem materialista, mas ter
encontrado aquela relação com o ser que está
além desse alegado falso dilema. Aquilo que
Engels estabelece como uma contraposição
clara, nítida e correta: um materialista é alguém
que afirma o ponto de vista da prioridade do
ser em relação à consciência é idealista quem
pensa que o ser foi produzido pela consciência.
O
tertium
[terceiro termo] que aparece aqui é,
no entanto, muito menos original na filosofia da
era imperialista do que pensa Heidegger.
Desde Nietzsche e Mach, tais terceiras vias
filosóficas surgiram em toda parte, e a
fenomenologia da qual Heidegger partiu é
apenas um caso especial dessas terceiras
vias. A peculiaridade em Heidegger,
principalmente em sua obra mais recente, é
que, por um lado, ele o colapso do idealismo
anterior com mais clareza do que a maioria de
Wir wissen: Heidegger und seine
Anhänger würden hier vor allem gegen die
Bezeichnung Idealismus heftig protestieren.
Behauptet doch Heidegger, jetzt wie früher,
weder Idealist noch Materialist zu sein,
sondern eben jene Beziehung zum Sein
aufgefunden zu haben, die jenseits dieses
angeblichen falschen Dilemmas steht.
Gemeint ist stets die Engels sehe klare,
scharfe und richtige Gegenüberstellung:
Materialist ist, wer auf dem Standpunkt der
Priorität des Seins dem Bewußtsein
gegenüber steht Idealist, wer das Sein als
vom Bewußtsein hervorgebracht denkt.
Das hier auftauchende Tertium dafür ist
aber in der Philosophie des
imperialistischen Zeitalters weitaus weniger
originell, als Heidegger meint. Seit
Nietzsche und Mach tauchen solche
philosophischen „dritten Wege" überall auf,
und die Phänomenologie, von welcher
Heidegger ausging, ist nur ein besonderer
Fall dieses „dritten Weges". Das Eigenartige
bei Heidegger und vor allem in seiner
letzten Schrift besteht nur darin, daß er
einerseits den Zusammenbruch des
bisherigen Idealismus klarer sieht als die
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seus contemporâneos (compare sua crítica
aguda e correta à filosofia dos valores) (cf. p.
365). Por outro lado, ele sente mais claramente
do que a maioria de seus predecessores (mas
não mais decididamente do que Spengler, por
exemplo) que o que ele percebe como o destino
do homem não é criado por ele mesmo, mas é
o resultado de poderes independentes do
homem. Explica ele, por exemplo:
O ser se manifesta ao homem no projeto ecstático.
Mas este projeto não instaura o ser. E, além disso,
o projeto é essencialmente um projeto derrelito.
7
Aquele que joga no projetar não é o homem, mas
o próprio ser que destina o homem para a
ecsistência do ser-aí como sua essência (p. 359,
modificada).
Do mesmo modo, diz ele em outro lugar:
o homem é derrelito pelo ser mesmo na verdade
do ser, para que, ecsistindo, desta maneira,
guarde a verdade do ser, para que na luz do ser o
ente se manifeste como o ente que efetivamente
é. Se e como o ente aparece, se e como o Deus e
os deuses, a história e natureza penetram na
clareira do ser, como se presentam e ausentam,
não decide o homem (p. 356).
meisten seiner Zeitgenossen (vergleiche
seine scharfe und richtige Kritik der
Wertphilosophie) (99). Andererseits
empfindet er deutlicher als die meisten
seiner Vorgänger (aber nicht entschiedener
als etwa Spengler), daß das, was er als
Schicksal des Menschen empfindet, nicht
von diesem selber geschaffen wird, sondern
Ergebnis vom Menschen unabhängiger
Mächte ist. Er führt z. B. aus:
Sein lichtet sich dem Menschen im
ekstatischen Entwurf. Doch dieser Entwurf
schafft nicht das Sein. überdies aber ist
der Entwurf wesenhaft ein geworfener.
Das Werfende im Entwerfen ist nicht der
Mensch, sondern das Sein selbst, das den
Menschen in die Eksistenz des Da-Seins
als sein Wesen schickt (84).
Dementsprechend sagt er an anderer
Stelle:
Der
Mensch ist vielmehr vom Sein selbst
in die Wahrheit des Seins ,geworfen', daß
er, dergestalt ek-sistierend, die Wahrheit
des Seins hüte, damit im Lichte des Seins
das Seiende als das Seiende, das es ist,
erscheine. Ob und wie es erscheint, ob
und wie der Gott und die Götter, die
Geschichte und die Natur in die Lichtung
des Seins hereinkommen, an- und
abwesen, entscheidet nicht der Mensch
(75).
No entanto, tal reconhecimento da
objetividade do destino, como mostra o
exemplo de Spengler, nada diz em relação a um
reconhecimento real do ser independente da
consciência, em relação a uma suplantação real
do idealismo. Pelo contrário. Sempre que
Heidegger fala sobre materialismo, ele chega a
uma proximidade extraordinária com os
primeiros modelos de representação da
terceira via filosófica. Seguindo suas
citadas observações sobre Marx, diz Heidegger:
A essência do materialismo não consiste na
Jedoch eine solche Anerkennung der
Objektivität des Schicksals, wie schon das
Beispiel Spenglers zeigt, besagt nichts in
bezug auf eine wirkliche Anerkennung des
vom Bewußtsein unabhängigen Seins, in
bezug auf eine wirkliche Überwindung des
Idealismus. Im Gegenteil. Wo Heidegger auf
den Materialismus zu sprechen kommt,
gerät er in eine außerordentliche Nähe zu
den ersten Modellvorstellungen des
philosophischen „dritten Weges".
Anknüpfend an seine zitierten
Bemerkungen über Marx sagt Heidegger:
Das Wesen des Materialismus besteht
7
Modificamos a tradução neste ponto devido à importância da noção de derrelição [
Geworfenheit
] em
Heidegger [N.R.T.].
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afirmação de que tudo apenas é matéria; ela
consiste, ao contrário, numa determinação
metafísica, segundo a qual todo o ente aparece
como material para o trabalho. [...] A essência do
materialismo esconde-se na essência da técnica (p.
360-1).
Essa é mais ou menos a ideia daqueles
discípulos de Mach do início do século XX, que
se esforçaram para unir o pensamento de Mach
ao marxismo (Bogdanov). E essa relação com o
pensamento de Mach se torna ainda mais clara
quando consideramos as opiniões de
Heidegger sobre a conhecimento da natureza.
O fato de a fisiologia e a química fisiológica
poderem examinar o homem como organismo,
sob o ponto de vista das Ciências da Natureza,
não é prova de que neste elemento "orgânico",
isto é, de que no corpo explicado cientificamente,
resida a essência do homem. Isto vale tão pouco
como a opinião de que, na energia atómica, esteja
encerrada a essência da natureza. Pois, poderia
mesmo acontecer que a natureza esconde
precisamente sua essência naquela face que volta
para o domínio técnico pelo homem (p. 353).
Duhem, por exemplo, mais de trinta
anos, usou argumentos desse tipo para
defender o ponto de vista do Cardeal
Belarmino como filosoficamente superior
frente a Galileu e Kepler; ou seja, com base no
fato de que o conhecimento científico de um
fenômeno natural, por mais exato que seja,
o oferece a menor garantia de que a
verdadeira essência da natureza tenha sido
realmente conhecida. E, de fato, tal ponto de
vista de Belarmino é historicamente
compreensível, uma vez que ele considera a
filosofia natural contida na Bíblia como a
verdadeira essência da natureza
independentemente de quais resultados a
ciência, como conhecimento do mero mundo
nicht in der Behauptung, alles sei nur
Stoff, vielmehr in einer metaphysischen
Bestimmung, der gemäß alles Seiende als
das Material der Arbeit erscheint ... Das
Wesen des Materialismus verbirgt sich im
Wesen der Technik .. . Die Technik ist in
ihrem Wesen ein seins-geschichtliches
Geschick der in der Vergessenheit
ruhenden Wahrheit des Seins (87/88),
Dies ist ungefähr die Vorstellung jener
Machisten vom Anfang des 20.
Jahrhunderts, die den Machismus mit dem
Marxismus zu vereinigen strebten (Bog-
danow). Und noch deutlicher wird diese
Verwandtschaft zum Machismus, wenn wir
Heideggers Ansichten über die
Erkennbarkeit der Natur betrachten.
Daß die Physiologie und die
physiologische Chemie den Menschen als
Organismus natur-wissenschaftlich
untersuchen kann, ist kein Beweis dafür,
daß in diesem ,Organischen', das heißt in
dem wissenschaftlich erklärten Leib das
Wesen des Menschen beruht. Dies gilt so
wenig wie die Meinung, in der
Atomenergie sei das Wesen der Natur
beschlossen. Es könnte doch sein, daß die
Natur in der Seite, die sie der technischen
Bemächtigung durch den Menschen
zukehrt, ihr Wesen gerade verbirgt
(67/68).
Mit Argumenten dieser Art hat vor mehr
als dreißig Jahren etwa Duhem den
Standpunkt des Kardinals Bellarmin, als den
philosophisch überlegenen, gegen Galilei
und Kepler verteidigt; nämlich davon
ausgehend, daß die wissen-schaftliche
Erkenntnis eines Natur-phänomens, mag
sie noch so exakt sein, noch nicht die
geringste Garantie dafür bietet, daß das
wahre Wesen der Natur auch wirklich
erkannt wurde. Und in der Tat ist ein solcher
Standpunkt bei Bellarmin historisch
verständlich, da er die in der Bibel
enthaltene Naturphilosophie für das wahre
Wesen der Natur hält unabhängig davon,
zu welchen Ergebnissen die Wissenschaft,
als Erkenntnis der bloßen
Heidegger Redivivus
Verinotio
NOVA FASE
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das aparências, alcança em seu terreno
estreitamente delimitado. E para um seguidor
de Mach que considera o mundo aparente
como a única realidade, tal linha de
pensamento pode parecer muito espirituosa.
Se Heidegger se encaixa nesse contexto, é
porque ele mostra hoje que, como fez
oportunamente em
Ser e tempo
, mantém a
estrutura teológica basilar da filosofia de
Kierkegaard, mesmo que o Deus revelado não
desempenhe nele nenhum papel. É uma
teologia sem Deus.
Erscheinungswelt, auf ihrem
engbegrenzten Terrain gelangt. Und für
einen Machisten, der die Erscheinungswelt
als alleinige Wirklichkeit betrachtet, kann
ein solcher Gedankengang als sehr
geistreich erscheinen. Wenn Heidegger sich
in diesem Zusammenhang einfügt, so zeigt
er auch heute, daß er, wie seinerzeit in
„Sein und Zeit",
die theologische
Grundstruktur im Aufbau der Philosophie
von Kierkegaard beibehält, auch wenn bei
ihm der geoffenbarte Gott keine Rolle
spielt. Es ist eine Theologie ohne Gott.
Do ponto de vista filosófico, porém, trata-se
de saber o que Hegel diz claramente em sua
crítica a Kant: se uma transição entre
aparência e essência na realidade objetiva e,
portanto, também no conhecimento; isto é,
onde e como a objetividade pode ser
apreendida no mundo aparente. Se isso for
negado, então um idealismo agnóstico e
subjetivo deve surgir. E se um acesso direto à
essência é, não obstante, forçado pelo sujeito,
o método dessa saída deve se perder no
misticismo, de modo que o objeto assim
encontrado deve se tornar algo abstrato e
irracional ao mesmo tempo. (Hegel contra a
intuição intelectual de Schelling.) Essa era a
posição da filosofia de Heidegger em
Ser e
tempo
, e é sobre isso que trata na nova Carta
sobre o humanismo. O que distingue
Heidegger de seus predecessores é apenas
que, para ele, a oposição não é entre fenômeno
e nômeno (
Phänomenon
e
Noumenon
), mas
entre ente e ser. A seguinte passagem mostra
Philosophisch handelt es sich aber
darum, was Hegel in seiner Kantkritik
deutlich sagt: ob es einen Übergang
zwischen Erscheinung und Wesen in der
objektiven Wirklichkeit und darum auch in
der Erkenntnis gibt, d. h. wo und wie in der
Erscheinungswelt die Objektivität erfaßbar
ist. Wenn dies geleugnet wird, so muß ein
agnostizistischer subjektiver Idealismus
entstehen. Und wenn vom Subjekt aus
dennoch ein direkter Zugang zum Wesen
forciert wird, so muß sich die Methode
dieses Auswegs in Mystik verlieren, so
muß der so aufgefundene Gegenstand
etwas zugleich Abstraktes und Irrationales
werden. (Hegel gegen Schellings
„intellektuelle Anschauung".) So stand es
um die Philosophie Heideggers in
„Sein
und Zeit",
so steht es um sie im neuen
Brief über den Humanismus. Was
Heidegger von seinen Vorgängern
unterscheidet, ist nur, daß der Gegensatz
bei ihm nicht Erscheinung und Wesen
(Phänomenon und Noumenon) heißt,
sondern das Seiende und das Sein. Wie
scharf diese Trennung bei Heidegger ist,
György Lukács
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quão nítida é essa separação em Heidegger:
Mas o ser que é o ser? Ele é ele mesmo. [...] O
ser isto não é Deus, nem um fundamento do
mundo. O ser é mais amplo que todo ente e é,
contudo, mais próximo do homem que qualquer
ente, seja isto uma rocha, um animal, uma obra de
arte, uma máquina, seja isto um anjo ou Deus. O
ser é o mais próximo. E, contudo, a proximidade
permanece, para o homem, a mais distante. O
homem se atém primeiro sempre apenas ao
ente. Quando, porém, o pensar representa o ente
enquanto ente, refere-se, certamente, ao ser;
todavia, pensa, na verdade, constantemente,
apenas o ente como tal e precisamente não e
jamais o ser como tal. A questão do ser
permanece sempre a questão do ente. A questão
do ser não é ainda aquilo que designa esta
capciosa expressão: a pergunta pelo ser (p. 356).
Sobre as questões que aqui se colocam,
nomeadamente sobre a questão do caminho do
ser para o ente e sobre a relação de Heidegger
com os filósofos anteriores que tomaram os
entes como ponto de partida, falaremos mais
tarde.
zeigt die folgende Stelle:
Doch das Sein was ist das Sein? Es ist
Es selbst. Das ,Sein'-das ist nicht Gott
und nicht ein Weltgrund. Das Sein ist
weiter denn alles Seiende und ist
gleichwohl dem Menschen näher als
jedes Seiende, sei dies ein Fels, ein Tier,
ein Kunstwerk, eine Maschine, sei es ein
Engel oder Gott. Das Sein ist das
Nächste. Doch die Nähe bleibt dem
Menschen am weitesten. Der Mensch hält
sich zunächst immer schon und nur an
das Seiende. Wenn aber das Denken das
Seiende als das Seiende vorstellt, bezieht
es sich zwar auf das Sein. Doch es denkt
in Wahrheit stets nur das Seiende als
solches und gerade nicht und nie das
Sein als solches. Die ,Seinsfrage' bleibt
immer die Frage nach dem Seienden. Die
Seinsfrage ist noch gar nicht das, was
dieser verfängliche Ti tel bezeichnet : die
Frage nach dem Sein (76).
Über die Fragen, die sich hier eröffnen,
mlich über die Frage des Weges vom
Sein zum Seienden und über Heideggers
Beziehung zu den früheren Philosophen,
die vom Seienden ausgingen, sprechen wir
später.
Mas se alguém pensa que um ser objetivo
é efetivamente delineado pela determinão
referida ainda que seja em uma forma
stica está enganado. Heidegger tenta
enfraquecer um pouco o misticismo extremo
de sua determinação. Em nossa última
citação, omitimos uma frase que diz:
Experimentar isto (ou seja, o que o ser é,
G.L.) e di-lo é a aprendizagem pela qual
deve passar o pensar futuro (p. 356);
portanto, o pensamento é aquele órgão,
atras do qual esse ser é apreendido, ainda
que enquanto um pensamento muito
sui
generis
, como veremos mais tarde. Se agora
queremos nos ater ao próprio ser, à sua
determinação mais precisa, tudo se esvai. Já
ouvimos que Heidegger quando questionado
Wenn man aber meint, daß durch die
jetzt angeführte Bestimmung wirklich ein
objektives Sein gedanklich umrissen sei
und mag dies in noch so mythischer Form
geschehen-, so täuscht man sich. Zwar
versucht Heidegger, die äußerste Mystik
seiner Bestimmung gleich etwas
abzuschwächen. In unserem letzten Zitat
haben wir einen Satz ausgelassen, der
lautet: „Dies (nämlich, was das Sein ist, G.
L.) zu erfahren und zu sagen, muß das
künftige Denken lernen" (76); also ist doch
das Denken jenes Organ, durch welches
dieses Sein erfaßt wird, wenn auch ein
Denken sehr
sui generis
, wie wir ebenfalls
später sehen werden. Wenn wir uns nun an
das Sein selbst, an seine genauere
Bestimmung halten wollen, entschlüpft,
zerrinnt alles. Wir haben bereits
vernommen, daß Heidegger auf die Frage,