A crise em níveis: o todo artístico dos três volumes de O capital de Karl Marx
No Livro I, a crise aparece associada às contradições entre a produção e a
valorização do valor, articuladas à extração de mais-valor e à dinâmica da acumulação;
no Livro II, ela passa a advir do desequilíbrio sistêmico na circulação do capital
enquanto capital, ligado à dificuldade de realização do mais-valor; já no Livro III, o foco
se desloca para figuras derivadas do capital – como o capital portador de juros e o
capital fictício – em que a contradição assume um nível mais complexo, marcado pela
autonomização das figuras e pelo distanciamento em relação ao valor produzido no
processo de trabalho.
A análise aqui empreendida parte do pressuposto de que essa aparente
descontinuidade entre os três momentos da obra de Marx revela, na verdade, a
coerência interna da sua lógica dialética1. O que se observa é uma passagem da
contradição imanente à produção de mais-valor para a contradição entre as figuras
desenvolvidas do capital e os limites materiais da produção de valor.
No esforço de sistematizar logicamente a categoria de crise em O capital, Jorge
Grespan propõe uma leitura que distingue quatro níveis conceituais nos quais a crise
se manifesta, cada um correspondente a um momento específico da exposição
marxiana. Trata-se, como ele próprio assinala, de uma periodização conceitual e não
empírica, voltada à reconstrução da lógica interna da crítica da economia política2. Essa
periodização reforça a tese central do presente artigo: a crise é imanente ao capital e
se desenvolve dialeticamente à medida que essa forma se complexifica.
O primeiro nível da crise aparece na própria circulação simples de mercadorias,
onde Marx já identifica a cisão potencial entre compra e venda3. A possibilidade de
1
Marx via O capital como um “todo artístico” no qual cada obra cumpria uma função muito bem
delineada, em que o Livro I investiga o processo de produção capitalista em si mesmo, apresentado
como processo direto de produção, ainda abstraídos os efeitos causados por circunstâncias alheias; o
Livro II complementa a biografia do capital ao apresentar o seu processo de circulação no mundo real,
e ao final, na seção III, ao modo com que o processo de produção capitalista é a unidade dos processos
de produção e circulação; por fim, no Livro III, completa a arquitetura da obra ao desenvolver reflexões
gerais sobre a mencionada “unidade”, expondo as formas concretas advindas do processo de
movimento do capital considerado como um todo (MARX, 2017, p. 53).
2 Grespan ainda vai além ao afirmar que o estudo das crises é fundamental para compreender a própria
noção de capitalismo dentro da obra marxiana, bem como a sua crítica: “Neste sentido, um estudo
completo da concepção marxiana do capitalismo deve sempre levar em conta a dimensão em que a
negatividade do capital aparece enquanto crise e também a forma com que esta última se combina para
compor movimentos em direções determinadas e em períodos de tempo circunscritos. Além disso, em
segundo lugar, apreendida como expressão da negatividade imanente ao capital, a crise está na base
da crítica ao capitalismo, conforme um significado especificamente marxiano de crítica: não se trata de
uma reflexão exterior que aponta os limites deste sistema, e sim dos limites alcançados por ele mesmo
com o desenvolvimento de suas potencialidades e com a exposição de suas contradições fundamentais
nos processos que ele realiza.” (GRESPAN, 2012, p. 23)
3
Marx se opôs à Lei de Say, que propunha um equilíbrio necessário entre oferta e demanda. A Lei de
Say pressupõe uma economia de trocas diretas de produtos, mas Marx argumenta que, em uma
economia monetária, o dinheiro pode ser retido fora da circulação, interrompendo o ciclo de reprodução
do capital. Quando o dinheiro é acumulado sem ser reinvestido, surge a possibilidade de crise, já que
o fluxo econômico é interrompido (MARX, 2017, pp. 208-9; GANDER, 2019, p. 10). Como Heinrich
(2014, p. 179) observa, os economistas clássicos e neoclássicos, ao usar a Lei de Say, pressupõem uma
Verinotio
ISSN 1981 - 061X, v. 30, n. 2, pp. 34-61 – jul.-dez., 2025 | 35
nova fase