DOI 10.36638/1981-061X.2025.30.2.765  
A crise em níveis: o todo artístico dos três  
volumes de O capital de Karl Marx  
Crisis in levels: the artistic whole of the three volumes  
of Capital by Karl Marx  
Ana Clara Passos Presciliano*  
Resumo: O presente artigo investiga como a  
crise econômica é concebida nos Livros I, II e III  
de O capital, de Karl Marx, buscando reconstruir  
Abstract: This article investigates how economic  
crisis is conceived in Marx’s Capital, Volumes I,  
II, and III, aiming to reconstruct the unity  
a
unidade entre produção, circulação  
e
between  
production,  
circulation,  
and  
reprodução do capital. Parte-se da hipótese de  
que a crise é imanente ao modo de produção  
capitalista e se desenvolve à medida que o  
reproduction of capital. It starts from the  
hypothesis that crisis is immanent to the  
capitalist mode of production and develops as  
the concept of capital becomes more complex,  
manifesting itself in four interconnected levels:  
the split between buying and selling (Volume I),  
the limit of surplus-value production (Volume I),  
the disequilibrium among productive sectors in  
the movement of capital (Volume II), and the  
“violent eruption” of autonomized forms with  
the interruption of the valorization cycle  
(Volume III). These dimensions are argued to  
reveal different moments of the same  
foundational contradiction, running through the  
logic of capital from its simplest appearance to  
its global manifestation.  
conceito  
de  
capital  
se  
complexifica,  
manifestando-se em quatro níveis interligados: a  
cisão entre compra e venda (Livro I), o limite da  
produção de mais-valor (Livro I), o desequilíbrio  
entre setores produtivos no movimento do  
capital (Livro II) e a “erupção violenta” das figuras  
autonomizadas com a interrupção do ciclo de  
valorização (Livro III). Sustenta-se que essas  
dimensões revelam diferentes momentos de uma  
mesma contradição fundante, que percorre a  
lógica do capital desde sua aparência mais  
simples até sua manifestação global.  
Palavras-chave: Crise econômica; capital;  
circulação; Karl Marx; mais-valor.  
Keywords: Economic crisis; capital; Karl Marx;  
circulation; surplus value.  
Introdução  
O estudo das crises constitui um dos núcleos fundamentais da crítica da  
economia política de Karl Marx. Nos três volumes de O capital, a crise não aparece  
como um acidente externo ao modo de produção capitalista, mas como expressão de  
suas próprias contradições internas. No entanto, a forma como a crise é tematizada  
varia substancialmente entre os Livros I, II e III, o que levanta uma questão central:  
como essas formulações distintas se articulam no interior da totalidade teórica da  
obra? Para responder a essa pergunta, tomamos como base interpretativa central os  
próprios textos de Marx, e contamos também com o auxílio da leitura desenvolvida  
por intérpretes de sua obra.  
*
Mestre  
e
doutoranda pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). E-mail:  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2 jul.-dez., 2025  
Verinotio  
nova fase  
 
A crise em níveis: o todo artístico dos três volumes de O capital de Karl Marx  
No Livro I, a crise aparece associada às contradições entre a produção e a  
valorização do valor, articuladas à extração de mais-valor e à dinâmica da acumulação;  
no Livro II, ela passa a advir do desequilíbrio sistêmico na circulação do capital  
enquanto capital, ligado à dificuldade de realização do mais-valor; já no Livro III, o foco  
se desloca para figuras derivadas do capital como o capital portador de juros e o  
capital fictício em que a contradição assume um nível mais complexo, marcado pela  
autonomização das figuras e pelo distanciamento em relação ao valor produzido no  
processo de trabalho.  
A análise aqui empreendida parte do pressuposto de que essa aparente  
descontinuidade entre os três momentos da obra de Marx revela, na verdade, a  
coerência interna da sua lógica dialética1. O que se observa é uma passagem da  
contradição imanente à produção de mais-valor para a contradição entre as figuras  
desenvolvidas do capital e os limites materiais da produção de valor.  
No esforço de sistematizar logicamente a categoria de crise em O capital, Jorge  
Grespan propõe uma leitura que distingue quatro níveis conceituais nos quais a crise  
se manifesta, cada um correspondente a um momento específico da exposição  
marxiana. Trata-se, como ele próprio assinala, de uma periodização conceitual e não  
empírica, voltada à reconstrução da lógica interna da crítica da economia política2. Essa  
periodização reforça a tese central do presente artigo: a crise é imanente ao capital e  
se desenvolve dialeticamente à medida que essa forma se complexifica.  
O primeiro nível da crise aparece na própria circulação simples de mercadorias,  
onde Marx já identifica a cisão potencial entre compra e venda3. A possibilidade de  
1
Marx via O capital como um “todo artístico” no qual cada obra cumpria uma função muito bem  
delineada, em que o Livro I investiga o processo de produção capitalista em si mesmo, apresentado  
como processo direto de produção, ainda abstraídos os efeitos causados por circunstâncias alheias; o  
Livro II complementa a biografia do capital ao apresentar o seu processo de circulação no mundo real,  
e ao final, na seção III, ao modo com que o processo de produção capitalista é a unidade dos processos  
de produção e circulação; por fim, no Livro III, completa a arquitetura da obra ao desenvolver reflexões  
gerais sobre a mencionada “unidade”, expondo as formas concretas advindas do processo de  
movimento do capital considerado como um todo (MARX, 2017, p. 53).  
2 Grespan ainda vai além ao afirmar que o estudo das crises é fundamental para compreender a própria  
noção de capitalismo dentro da obra marxiana, bem como a sua crítica: “Neste sentido, um estudo  
completo da concepção marxiana do capitalismo deve sempre levar em conta a dimensão em que a  
negatividade do capital aparece enquanto crise e também a forma com que esta última se combina para  
compor movimentos em direções determinadas e em períodos de tempo circunscritos. Além disso, em  
segundo lugar, apreendida como expressão da negatividade imanente ao capital, a crise está na base  
da crítica ao capitalismo, conforme um significado especificamente marxiano de crítica: não se trata de  
uma reflexão exterior que aponta os limites deste sistema, e sim dos limites alcançados por ele mesmo  
com o desenvolvimento de suas potencialidades e com a exposição de suas contradições fundamentais  
nos processos que ele realiza.” (GRESPAN, 2012, p. 23)  
3
Marx se opôs à Lei de Say, que propunha um equilíbrio necessário entre oferta e demanda. A Lei de  
Say pressupõe uma economia de trocas diretas de produtos, mas Marx argumenta que, em uma  
economia monetária, o dinheiro pode ser retido fora da circulação, interrompendo o ciclo de reprodução  
do capital. Quando o dinheiro é acumulado sem ser reinvestido, surge a possibilidade de crise, já que  
o fluxo econômico é interrompido (MARX, 2017, pp. 208-9; GANDER, 2019, p. 10). Como Heinrich  
(2014, p. 179) observa, os economistas clássicos e neoclássicos, ao usar a Lei de Say, pressupõem uma  
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uma interrupção no circuito mercantil isto é, de que uma mercadoria seja vendida  
sem que o valor correspondente seja imediatamente realizado em nova compra –  
introduz a possibilidade formal da crise. Ainda que não haja capital propriamente dito  
neste estágio da exposição, mesmo que esteja pressuposto4, a não-identidade entre  
os momentos da troca inaugura o espaço lógico da ruptura.  
O segundo nível é o da produção imediata de mais-valor, momento central do  
Livro I. Aqui, a crise se expressa na contradição entre o capital e o trabalho,  
especialmente na tendência à substituição do trabalho vivo por trabalho objetivado.  
Essa contradição conduz à possibilidade de uma produção de mais-valor que, no  
entanto, pode não encontrar condições de realização. A produção do mais-valor  
contém, assim, seu próprio limite.  
No terceiro nível, a crise surge na circulação do capital enquanto capital, tal  
como desenvolvido no Livro II. O processo de metamorfoses do capital de capital-  
dinheiro a capital produtivo e, por fim, capital-mercadoria envolve um encadeamento  
complexo de etapas cujo descompasso pode interromper a reprodução. A separação  
entre os diversos ciclos dos capitais individuais expõe o sistema a rupturas internas.  
Aqui, a crise não é mais só potencial ou localizada, mas pode se difundir no sistema  
como um todo.  
Por fim, no quarto nível, Marx analisa a crise no contexto do processo global  
de reprodução do capital social, tratado no Livro III. É nesse ponto que a crise assume  
sua forma mais desenvolvida: como resultado da autonomização das figuras do capital  
e da desproporcionalidade entre os diversos ramos da produção e entre capital e  
consumo social. Trata-se do momento em que a contradição total do capital se  
manifesta abertamente, revelando a negatividade que o estrutura.  
Essa periodização, ao mesmo tempo lógica e conceitual, demonstra como a  
economia sem dinheiro, ignorando as dinâmicas que podem levar à crise.  
4
A título de esclarecimento, conforme mencionado anteriormente, busca-se realizar aqui uma  
periodização conceitual e não empírica dos momentos de crise aqui tratados. Sendo assim, não há que  
se falar em uma espécie de cronologia histórica entre os níveis de crise, o que levaria à interpretação  
equivocada de que se estaria tratando de uma espécie de circulação simples antes do próprio  
surgimento do capital e do modo de produção capitalista, mas sim, que no momento da exposição em  
que é abordada a circulação simples, o capital ainda está apenas pressuposto na exposição, sendo  
desenvolvido em momento posterior da obra. Outra interpretação não seria possível, já que como o  
próprio Marx elucida, ele não aborda as categorias econômicas conforme o seu desenvolvimento  
histórico, mas sim, da sua articulação dentro da sociedade burguesa moderna: “Seria impraticável e  
falso, portanto, deixar as categorias econômicas sucederem-se umas às outras na sequência em que  
foram determinantes historicamente. A sua ordem é determinada, ao contrário, pela relação que têm  
entre si na moderna sociedade burguesa, e que é exatamente o inverso do que aparece como sua ordem  
natural ou da ordem que corresponde ao desenvolvimento histórico. Não se trata da relação que as  
relações econômicas assumem historicamente na sucessão de diferentes formas de sociedade. Muito  
menos de sua ordem na ideia([como em] Proudhon) (uma representação obscura do movimento  
histórico). Trata-se, ao contrário, de sua estruturação no interior da moderna sociedade burguesa.”  
(MARX, 2011, p. 51).  
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crise percorre toda a exposição de O capital, desde suas categorias mais simples até  
sua forma mais complexa. Longe de ser um fenômeno marginal, ela é a expressão da  
própria totalidade contraditória do capital: “A crise é elemento básico da dinâmica  
global capitalista.” (GRESPAN, 2012, p. 24) Dessa forma, crise e capital estão  
profundamente interligados: à medida que o capital assume níveis mais concretos e  
complexos de definição, o conteúdo do conceito de crise também se torna mais  
abrangente, refletindo essas mesmas passagens de nível no processo de exposição.  
A metodologia adotada combina análise imanente e reconstrução teórica. O  
objetivo não é apenas identificar diferenças entre os livros, mas compreender como  
elas se articulam no interior de uma totalidade lógica. A conclusão busca sugerir que  
a unidade entre os tratamentos da crise permite aprofundar a crítica do capitalismo  
como forma social historicamente determinada e radicalmente contraditória.  
A crise no Livro I: a contradição entre produção e valorização  
No Livro I de O capital, Marx estabelece os fundamentos da lógica do capital,  
com foco na sua reprodução ampliada e na produção do mais-valor. A crise, nesse  
contexto, não é ainda tematizada em seus desdobramentos empíricos ou institucionais,  
mas aparece como um resultado necessário das contradições internas do processo de  
valorização.  
Nesse sentido, a concorrência entre capitais individuais faz com que o  
crescimento da produção não corresponda à expansão da demanda necessária à  
realização do capital. A sua reprodução ampliada exige a constante transformação do  
mais-valor em capital, chamada acumulação de capital (MARX, 2013, p. 429), mas essa  
acumulação depende de condições que ele não pode garantir sistematicamente: o  
consumo dos trabalhadores é limitado, e a expansão dos mercados não acompanha a  
capacidade produtiva5.  
Por isso, mesmo antes da tematização do capital fictício ou da financeirização,  
o Livro I já apresenta a crise como o momento em que a contradição entre forças  
produtivas e relações de produção se manifesta de forma aguda. Essa contradição se  
expressa na superprodução de mercadorias que não conseguem ser realizadas no  
5
A tradição do subconsumo remonta a Rosa Luxemburgo, que em A acumulação do capital (1970)  
defende que o capitalismo depende da existência de mercados não capitalistas para realizar o mais-  
valor e expandir-se, através do imperialismo, já que o consumo dos trabalhadores seria insuficiente para  
absorver toda a produção. Essa leitura é retomada e desenvolvida por autores vinculados à revista  
Monthly Review, como Paul Sweezy (Teoria do desenvolvimento capitalista, 1986), que combina o  
subconsumo com a questão da lei tendencial da taxa de lucro, e por Robert W. McChesney e John  
Bellamy Foster, que em The endless crisis (2012) atualizam a análise sob a forma de subinvestimento  
crônico e demanda insuficiente, interpretando as crises contemporâneas como expressão da saturação  
dos mercados e do esgotamento da capacidade de absorção do sistema.  
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mercado, ou seja, vendidas com lucro, e na expulsão de trabalhadores, que intensifica  
o desequilíbrio entre produção e consumo.  
Como veremos, a leitura da crise como forma do limite interno da valorização  
permite compreender a função destrutiva-criadora das crises, que reaparecerá com  
maior complexidade no Livro III. No Livro I, a crise já aparece como imanente ao capital:  
não como catástrofe vinda de fora, mas como expressão de sua estrutura contraditória.  
Mais especificamente, serão analisadas nesta seção as modalidades de crise na  
circulação simples e no processo de produção de mais-valor, como se passa a expor.  
A crise na circulação simples: a cisão entre compra e venda  
O primeiro nível conceitual da crise aparece já na forma mercantil mais simples,  
anterior mesmo à exposição do capital propriamente dito dentro d’O capital, ainda  
que ele esteja pressuposto. Na circulação simples o circuito M-D-M (mercadoria-  
dinheiro-mercadoria) Marx demonstra que há uma separação lógica entre os atos de  
venda (M-D) e de compra (D-M), o que cria a possibilidade de interrupção do processo  
de troca. Essa cisão, longe de ser um mero acidente técnico, revela uma contradição  
interna enraizada na própria constituição da mercadoria enquanto unidade de valor de  
uso e valor, o que será explicado em detalhe adiante.  
De início, temos que a mercadoria visa satisfazer necessidades humanas por  
meio de suas propriedades – sejam essas necessidades “do estômago ou da  
imaginação” – e, nesse sentido, cada mercadoria possui um caráter qualitativo singular,  
seu valor de uso (MARX, 2013, p. 113). Mas, ao mesmo tempo, para ser  
intercambiável, deve conter algo em comum com outras: o valor, que expressa o  
trabalho humano abstrato nela objetivado.  
Assim sendo, ao entrar na esfera da troca, a mercadoria já não é mais  
reconhecida por sua utilidade, mas por sua capacidade de ser trocada por outras  
mercadorias. Essa relação é mediada pelo valor de troca, que exprime uma proporção  
quantitativa na qual valores de uso distintos podem ser intercambiados. Isso só é  
possível justamente porque as mercadorias são produtos do trabalho humano, mas  
não qualquer trabalho trata-se do trabalho humano abstrato, ou seja, o trabalho  
reduzido a uma mesma medida homogênea, mensurável em tempo socialmente  
necessário para a produção (MARX, 2013, pp. 116-7).  
Essa qualidade do trabalho abstrato de justamente abstrair a especificidade  
concreta do trabalho individual em favor de uma mediação social indireta é o que  
permite que as mercadorias se tornem comparáveis na troca. É justamente a oposição  
entre valor de uso e valor que dá forma à expressão de equivalência entre mercadorias,  
pois a troca só pode ocorrer quando duas mercadorias se confrontam enquanto  
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portadoras de valor, apagando suas utilidades particulares. Nessa operação, o trabalho  
abstrato aparece como o fundamento real do valor e, ao mesmo tempo, como a  
condição de possibilidade da crise: ao unificar socialmente os trabalhos privados pela  
via da equivalência, ele institui uma forma de mediação que carrega desde o início uma  
contradição entre a particularidade dos produtores e a generalidade da forma social  
do valor. Essa contradição estrutural, própria da forma de sociabilidade fundada na  
mercadoria, antecipa logicamente o potencial de ruptura da troca, conferindo ao  
trabalho abstrato não apenas a função de constituir o valor, mas também de  
fundamentar a possibilidade da crise (GRESPAN, 2012, p. 56).  
Portanto, a distinção entre valor de uso e valor de troca já introduz uma tensão  
estrutural entre a materialidade e a forma social do produto do trabalho. Também a  
forma social do trabalho sua submissão à lógica do valor se sobrepõe à sua função  
material, criando um descompasso entre o que é produzido e o que pode efetivamente  
circular e realizar-se como valor. Tal contradição se manifesta com intensidade  
particular nas crises: há abundância de mercadorias, mas impossibilidade de vendê-  
las; há capacidade produtiva, mas não de consumo. Em outras palavras, o que é útil  
deixa de ter valor, revelando que o conteúdo material do trabalho só importa enquanto  
veículo da forma-valor. Nesse momento, a cisão entre forma e conteúdo, entre valor  
de uso e valor de troca, deixa de ser apenas lógica e torna-se socialmente explosiva.  
Pois bem, cada mercadoria, em si, é unidade de valor de uso e valor, mas, ao  
entrar em relação com outra na troca, essa duplicidade se desdobra de maneira  
assimétrica. Uma delas aparece como a mercadoria cujo valor precisa ser expressado  
ou seja, assume a forma-valor relativa , enquanto a outra figura como aquela na  
qual o valor da primeira é expresso, ocupando a forma de equivalente. Essa relação  
torna visível a cisão interna da mercadoria, pois aquilo que antes estava contido nela  
a oposição entre valor de uso e valor agora se manifesta no espaço social como  
uma oposição entre duas mercadorias distintas.  
O valor de uso, nesses termos, não exerce a mesma função em ambas as  
posições. Na mercadoria equivalente, seu valor de uso serve não apenas como suporte  
do seu próprio valor, mas também como suporte da expressão de valor da outra  
mercadoria. Essa duplicidade faz com que o valor de uso da mercadoria equivalente  
se converta na forma fenomênica do valor, ou seja, em aparência sensível de algo que  
lhe é oposto por definição. Como Marx afirma, “o valor de uso se torna forma de  
aparecimento de seu contrário, do valor” (MARX, 2013, p. 111). É por isso que a troca  
social de mercadorias revela, através de uma oposição externa, a contradição interna  
que define a forma-mercadoria.  
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A distinção entre forma-valor relativa e forma-equivalente constitui, portanto,  
o par conceitual fundamental para a dedução da forma-dinheiro. No primeiro momento  
dessa dedução (forma simples de valor), qualquer mercadoria pode ocupar qualquer  
um dos polos da relação. Já na forma desenvolvida (forma II), essa relação se  
complexifica: uma mercadoria em posição relativa pode ser expressa em múltiplas  
outras, que funcionam como seus equivalentes. É nesse estágio que o sistema de  
trocas generalizadas se configura: a equivalência já não é limitada a pares isolados,  
mas abrange toda a rede mercantil (MARX, 2013, p. 119).  
No terceiro momento, há uma inversão dos polos: em vez de cada mercadoria  
ter muitas equivalentes, todas as mercadorias passam a expressar seu valor em uma  
única mercadoria, que passa a exercer a função de equivalente universal esta é a  
forma III. Essa inversão, contudo, não é apenas uma reorganização formal. À medida  
que se desenvolve a forma-valor em geral, desenvolve-se também a oposição entre os  
seus dois polos. A forma III estabelece, então, um salto qualitativo: o mundo das  
mercadorias como um todo assume a forma-valor relativa, enquanto apenas uma  
mercadoria específica como o ouro é excluída dessa posição e elevada à função  
de expressar o valor de todas as demais (MARX, 2013, p. 120).  
Assim, manifesta-se o aspecto de exclusão mútua entre o equivalente universal  
e as demais mercadorias. Todas renunciam à função de equivalente e designam uma  
única mercadoria para ocupá-la; por sua vez, essa mercadoria agora socialmente  
reconhecida como equivalente universal é excluída da forma-valor relativa. É essa  
relação de dupla exclusão que institui, de um lado, o valor social imediato do  
equivalente universal (sua permutabilidade direta com todas as outras mercadorias), e,  
de outro, a autonomização da forma-valor como forma social cristalizada,  
prenunciando o fetichismo e, mais adiante, as modalidades de crise.  
Com isso surge uma mercadoria especial que passa a funcionar como  
equivalente universal: o dinheiro. Historicamente encarnado no ouro, mas também em  
outras formas, ele cristaliza o valor das demais mercadorias em uma forma geral,  
socialmente válida, de equivalência, colocando-se como o valor autonomizado das  
mercadorias (MARX, 2013, p. 121).  
É nesse ponto que se insere a forma “visível” do fetichismo da mercadoria6, na  
6 Em sua análise da forma mercadoria Marx revela que, sob o modo de produção capitalista, as relações  
sociais entre os indivíduos assumem a forma de relações entre coisas. Esse fenômeno, que ele denomina  
fetichismo da mercadoria, consiste na naturalização das formas sociais próprias do capitalismo: o valor  
aparece como uma propriedade imanente aos objetos, e não como expressão de uma relação social  
mediada pelo trabalho. Assim, as mercadorias parecem possuir valor por si mesmas, como se o trabalho  
humano nelas incorporado não fosse o fundamento real dessa valorização. Como observa Marx, “é  
apenas uma relação social determinada entre os próprios homens que aqui assume, para eles, a forma  
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forma do fetichismo do dinheiro: ao condensar em si a função de equivalente universal,  
o dinheiro deixa de ser apenas uma mercadoria entre outras e passa a representar  
diretamente o valor em sua forma mais abstrata e socialmente validada. Esse processo  
intensifica o apagamento da mediação social do trabalho: já não é a troca entre  
mercadorias que revela o valor, mas o próprio dinheiro que parece criar valor por si  
mesmo. O fetichismo do dinheiro, portanto, não é uma mera ilusão subjetiva, mas a  
objetivação social de uma aparência necessária: ele expressa uma forma de dominação  
impessoal em que a mediação social efetiva (o trabalho abstrato) permanece encoberta  
por uma forma autonomizada e aparente (o dinheiro). O valor aparece como se  
emanasse do dinheiro, e não do trabalho, consolidando assim a forma invertida da  
realidade social própria do capitalismo (GRESPAN, 2012, p. 66).  
Quando o dinheiro passa a ser percebido como portador de um poder próprio  
de alocar valores como se essa capacidade fosse uma propriedade inerente a ele ,  
consolida-se o fetichismo da forma monetária. Esse processo se intensifica nas crises,  
quando a ideia de uma distribuição racional e funcional mediada pelo dinheiro é  
abalada. Nessas circunstâncias, o dinheiro mantém seu caráter fetichizado,  
apresentando-se como algo externo e incontrolável, enquanto a crise, por sua vez,  
assume a aparência de um evento transcendental, misterioso e inevitável, cuja solução  
escapa às ações individuais dos agentes econômicos. Assim, tanto o dinheiro quanto  
a própria crise compartilham um mesmo traço enigmático, típico das formas sociais  
fetichizadas. Ao desvendar essas formas, Marx busca justamente elucidar o mistério  
da crise, revelando-o como expressão objetiva das contradições internas do capital  
(GRESPAN, 2012, p. 67).  
É possível afirmar, então, que ao se colocar como equivalente universal o  
dinheiro já se torna um germe de crise. Ocorre que ele não funciona apenas como  
meio de circulação de mercadorias, mas também como meio de pagamento. Sendo  
assim, se A pode usar um crédito que possui com B, a fim de pagar o que deve a C, e  
este a D, o que pode culminar em uma infinidade de obrigações com o mesmo  
montante de dinheiro, uma interrupção em um desses pagamentos pode gerar um  
grande efeito em cadeia, donde também podem surgir crises ainda mais graves  
(GRESPAN, 2012, p. 70)7.  
Ao redor dele se consolida a forma social da permutabilidade geral, e com isso  
fantasmagórica de uma relação entre coisas” (MARX, 2013, p. 122). O fetichismo, portanto, não é um  
erro de percepção individual, mas uma forma objetiva de aparência social, produzida pela própria  
estrutura do capital, que oculta a exploração do trabalho e torna opaca a origem social das categorias  
econômicas.  
7 Isso tomará concretude no último nível da crise, ao se tratar da autonomização dos títulos jurídicos e  
a acumulação de reivindicações.  
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a crise assume um novo nível de complexidade: ela pode agora se expressar como  
ruptura na função do dinheiro como meio de circulação e medida de valor. Temos  
então, no nível da circulação dois momentos de crise: a primeira forma determina a  
crise a partir da mera impossibilidade eventual de vender as mercadorias, com a  
interrupção da circulação; a segunda forma é mais complexa porque supõe a primeira,  
pois a “não realização de toda uma sequência de pagamentos” é originada por não se  
poder vender a “mercadoria determinada neste prazo determinado”, simultaneamente  
potencializando a gravidade da primeira forma:  
O fundamento das crises na esfera da circulação simples de  
mercadorias, assim, está na dificuldade de vendê-las, o que aponta  
para o caráter distintivo do dinheiro como expressão universal do  
valor que sempre pode ser retido ou deslocado para outro lugar,  
interrompendo as transações correntes e, com isso, o fluxo de  
pagamentos. Daí que Marx diga, analisando a crise de 1857-1858:  
[...] em tais momentos em que todas as mercadorias são invendáveis,  
há [...] de fato mais compradores do que vendedores de uma  
mercadoria, o dinheiro, e mais vendedores do que compradores de  
todo outro dinheiro, as mercadorias. Em uma crise, todos querem  
obter dinheiro para ter acesso aos valores de uso que lhes satisfaçam  
necessidades, e todos querem se desfazer das mercadorias que  
produziram, pois não as produziram para o seu próprio consumo e  
sim para vender e obter dinheiro. Se, no percurso normal da  
circulação, o dinheiro aparece como uma mercadoria e as mercadorias  
como formas do dinheiro, ou seja, imediatamente conversíveis nele,  
na crise a distinção das duas formas-valor opostas se evidencia e  
abisma.” (GRESPAN, 2012, p. 72)  
Consequentemente, essa abertura à interrupção temporal introduz um princípio  
formal de crise. O valor, enquanto promessa de equivalência futura, passa a depender  
de condições externas para se efetivar. Surge aqui uma tensão entre forma e conteúdo:  
o dinheiro aparece como meio universal da troca, mas sua eficácia depende de um  
contínuo fluxo social de confiança e circulação. Se este fluxo é rompido por retração  
da demanda, escassez de moeda, ou expectativa de crise o sistema entra em colapso.  
A crise neste ponto da exposição é o momento em que a separação entre os  
momentos da circulação simples vender e comprar deixa de ser apenas uma  
possibilidade formal e se manifesta como ruptura efetiva, isto é, como autonomização  
concreta desses polos. Essa autonomização, porém, não é sustentável: ela revela  
justamente a impossibilidade de sua manutenção, pois os momentos separados só  
existem como partes de uma unidade contraditória. Assim, a crise torna-se a forma  
pela qual essa unidade essencialmente mediada e interdependente se restabelece  
de maneira destrutiva. Tanto a circulação ininterrupta quanto a irrupção da crise  
afirmam, por vias distintas, a necessidade da determinação recíproca entre os dois  
momentos do circuito mercantil. A separação, levada ao extremo, denuncia sua própria  
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A crise em níveis: o todo artístico dos três volumes de O capital de Karl Marx  
falácia estrutural: a crise é o momento em que a unidade se impõe, não como síntese  
harmônica, mas como colapso da mediação que sustenta a forma social da troca  
(GRESPAN, 2012, p. 80).  
Consequentemente, a crise, nesse nível, é uma possibilidade8 um sintoma da  
não-identidade entre valor e realização. A mercadoria contém valor apenas na medida  
em que pode ser vendida, mas sua realização depende de um processo social que está  
fora de seu controle imediato. Ademais, nesse ponto da exposição ainda não há o  
desenvolvimento da possibilidade até a efetividade, considerando que para tal seria  
necessário elucidar um conjunto de relações que no estágio da circulação simples de  
mercadorias sequer foram abordadas (GRESPAN, 2012, p. 81).  
Ainda, a crítica da economia política de Marx revela que já a circulação simples  
de mercadorias, ainda no início do Livro I d’O capital, contém em si uma possibilidade  
latente de ruptura. Essa possibilidade ganhará concretude nos próximos níveis da  
exposição, mas sua estrutura lógica está desde o início presente na forma-mercadoria.  
A cisão entre compra e venda inaugura a negatividade que atravessará todo o  
desenvolvimento da economia capitalista e a crise é sua expressão recorrente.  
A crise na produção de mais-valor: o limite interno da valorização  
O segundo nível da crise situa-se no cerne do Livro I de O capital, no momento  
em que Marx analisa a produção imediata do mais-valor. Aqui, a crise não é mais  
apenas uma virtualidade da troca de mercadorias, mas uma estrutura interna ao  
processo de valorização. Depois de tratar na exposição do processo de obtenção do  
dinheiro através da venda da mercadoria (M-D-M’), neste ponto se analisa o processo  
de transformação do dinheiro em capital, que se define como valor que se valoriza,  
como processo em que o valor antecedente (capital-dinheiro) se transforma em mais-  
valor por meio da exploração do trabalho vivo. No entanto, essa dinâmica contém uma  
contradição fundamental, que será melhor tratada adiante.  
8
A relação entre crise e necessidade no pensamento de Marx não deve ser confundida com uma  
oposição simples entre o acaso e a determinação. Como aponta Grespan, embora Marx rejeite a ideia  
de que as crises sejam meras contingências externas ao capitalismo buscando fundamentá-las como  
resultantes de suas próprias contradições internas , ele não as trata como absolutamente inevitáveis.  
O conceito de necessidade empregado por Marx se aproxima da noção hegeliana de necessidade  
relativa: uma forma de necessidade que depende de um encadeamento de condições contingentes para  
se efetivar. Ou seja, as crises são necessárias no interior da totalidade contraditória do capital, mas não  
no sentido de uma necessidade absoluta, que excluiria toda possibilidade de resultado diverso. Essa  
ambivalência reside no fato de que o capital comporta, simultaneamente, disposições opostas e  
igualmente necessárias, cuja tensão estrutura a dinâmica do sistema. Nesse contexto, a realização efetiva  
de uma crise depende da relação entre essas determinações contraditórias e das condições concretas  
de sua reprodução. Como observa o autor, esse entendimento permite a Marx evitar tanto o fatalismo  
econômico quanto a redução das crises a fenômenos meramente acidentais ou externos ao sistema  
(GRESPAN, 2012, pp. 39-40).  
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De antemão, temos que a especificidade da crise na produção capitalista está  
enraizada na lógica da autovalorização do valor, que constitui a essência do capital.  
Diferentemente dos meios de produção que apenas transferem seu valor às  
mercadorias , a força de trabalho é a única mercadoria capaz de gerar mais valor do  
que ela mesma representa. Isso significa que, ao adquirir força de trabalho e meios de  
produção, o capitalista realiza um adiantamento de valor que, ao passar pela esfera  
da produção, se transforma em capital acrescido de mais-valor (MARX, 2013, p. 227).  
Esse excedente, expresso na fórmula DMD, é a condição lógica e histórica da  
acumulação capitalista. O capital, portanto, só se sustenta enquanto processo de  
valorização: é a própria dinâmica de expansão de valor pela mediação do trabalho  
humano. Marx é enfático ao afirmar que “o motivo que impulsiona e a finalidade que  
determina o processo de produção capitalista é a maior autovalorização possível do  
capital” (MARX, 2013, p. 553). Trata-se de uma definição tanto lógica quanto social:  
o capital é, ao mesmo tempo, uma relação social fundada na compra e venda da força  
de trabalho e um movimento incessante de valorização.  
Nessa relação, a força de trabalho é convertida em capital variável, justamente  
porque sua aplicação modifica a grandeza de valor do capital total. Já os meios de  
produção compõem o capital constante, pois seu valor se conserva apenas se  
transfere para o produto final. Essa distinção é fundamental para compreender como  
o capital busca, incessantemente, extrair o máximo de mais-trabalho possível, seja por  
meio do prolongamento da jornada laboral (gerando mais-valor absoluto) ou pela  
elevação da produtividade com base em inovações tecnológicas e organizacionais, e  
pelo barateamento dos meios de subsistência dos trabalhadores, entre outras  
maneiras descritas por Marx no Capítulo 10 em diante do Livro I (gerando mais-valor  
relativo) (MARX, 2013, pp. 390-4; 578).  
Ambas respondem a uma única exigência: a produção de mais-valor como  
fundamento da acumulação capitalista. Isso revela a lógica autodestrutiva do capital.  
Para ampliar o mais-valor, o capital tende a reduzir a base sobre a qual ele se apoia –  
o trabalho vivo. A crise, nesse nível, emerge da contradição entre a necessidade de  
ampliar indefinidamente a produção de mais-valor e os limites materiais e sociais do  
processo de trabalho.  
Essa contradição não é externa ao capital, mas sua forma de ser: o capital  
depende da exploração do trabalho, mas tende a reduzir o tempo de trabalho  
necessário por meio de melhorias nas forças produtivas. Quanto mais o capital se  
autonomiza, mais estreita se torna sua relação com o trabalho, que é, paradoxalmente,  
a única fonte real de valor. Esse movimento contraditório prepara o terreno para a  
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irrupção da crise, pois o mais-valor produzido não encontra sempre condições de  
realização, seja pela limitação da demanda, seja pelo encurtamento da base  
trabalhadora ou pela superprodução de mercadorias.  
Por sua vez, a reconversão do mais-valor em capital isto é, sua acumulação –  
inaugura o ciclo da reprodução ampliada9, que exige a compra de mais força de  
trabalho, matérias-primas e meios de produção. Esse processo não é meramente  
técnico, mas reproduz continuamente a separação entre trabalhadores e meios de  
produção, constituindo o trabalhador como força de trabalho abstrata, vendida no  
mercado como mercadoria. Como afirma Marx, o trabalhador “produz constantemente  
o capital como poder estranho que o domina” (MARX, 2013, p. 646), e sua reprodução  
como assalariado é condição necessária da reprodução do capital.  
Ocorre que a dinâmica do capital não se limita à produção de mercadorias: ela  
visa, essencialmente, à produção de mais-valor como fim em si mesma. Nesse sentido,  
o valor de uso da mercadoria, inclusive da força de trabalho, importa ao capital apenas  
na medida em que permite sua valorização. A mercadoria só interessa enquanto  
portadora de valor ou seja, enquanto suporte da reprodução ampliada do capital.  
Isso introduz a cisão estrutural mencionada anteriormente entre o valor de uso e o  
valor de troca no interior do próprio processo produtivo.  
Essa cisão atinge seu limite quando o capital, pressionado pela concorrência,  
busca incessantemente aumentar a composição orgânica substituindo trabalho vivo  
por máquinas e técnicas mais avançadas a fim reduzir o tempo de trabalho necessário  
à produção das mercadorias, generalizando a produtividade e intensificando a extração  
de mais-valor relativo. O resultado é uma contradição que Marx formulou de modo  
lapidar: “O capital é a contradição em processo: tende a reduzir o tempo de trabalho  
a um mínimo, ao mesmo tempo em que põe o trabalho como única fonte de valor.”  
(MARX, 2011, p. 222) Ou seja, quanto mais o capital se torna produtivo, mais destrói  
a base que o sustenta10.  
Grespan retoma essa formulação a partir da ideia de negatividade: a crise revela  
9
Em Marx, a reprodução ampliada do capital ocorre quando o mais-valor produzido não é consumido  
pelo capitalista, mas reinvestido no processo produtivo, seja na forma de mais meios de produção, seja  
na contratação de mais força de trabalho. Diferente da reprodução simples, na qual o capital apenas se  
recompõe no mesmo volume, a reprodução ampliada pressupõe a acumulação de capital, ou seja, a  
expansão do processo produtivo e do próprio capital. Esse movimento caracteriza a dinâmica do  
capitalismo como modo de produção orientado à valorização contínua e crescente do valor (MARX,  
2013, p. 452).  
10 Temos aqui a questão do fetichismo do capital, no qual o capital total aparenta ser a fonte do lucro,  
e não o trabalho vivo. Isso, apesar da aparência de mera ilusão, se baseia efetivamente no movimento  
real do capital de nivelamento da taxa de lucro nos diversos ramos através da concorrência (GRESPAN,  
2012, p. 181). Em outras palavras, esse fetichismo cria uma inversão: o capital parece produtivo por si  
só, mascarando o papel essencial do trabalho e a exploração envolvida no processo de acumulação.  
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o ponto em que a valorização do capital entra em choque com as próprias condições  
materiais e sociais da produção. O capital não pode abrir mão do trabalho vivo, mas  
tende a reduzi-lo a um mínimo para aumentar sua taxa de lucro. Com isso, acentua a  
contradição entre produção e valorização, abrindo espaço para a crise como forma de  
“reajuste violento” da reprodução capitalista (GRESPAN, 2012, p. 23).  
Portanto, neste segundo nível, a crise revela-se como limite interno à  
valorização, não por razões técnicas ou de má alocação, mas pela própria estrutura do  
capital enquanto relação social. A negatividade aqui é objetiva e necessária: a  
produção que não pode se realizar como capital mostra que o capital encontra em si  
mesmo os elementos de sua desestabilização. Aqui se encontra o cerne da diferença  
entre a crise na circulação simples, exposta no tópico anterior, com a crise na esfera  
da produção imediata de mercadorias: não é mais a satisfação das necessidades dos  
produtores individuais de mercadorias que está em perigo devido à dificuldade em  
realizar as trocas, e sim a própria valorização do capital. E como este se define  
justamente pela autovalorização, trata-se da negação do capital pelas tendências  
desenvolvidas por ele mesmo (GRESPAN, 2012, p. 131).  
Por isso, como sujeito que tem em si próprio seu fim e forças para adequar suas  
formas de existência à realização dele, o capital é o “conteúdo fundado”, o interior a  
partir do qual se exteriorizam as determinações contraditórias, inclusive a crise. Ou  
seja, não é possível “explicar” a ocorrência de crises no quadro categorial da circulação  
simples, que fornece apenas a forma geral delas, mas não a “causa” que as faz  
irromper; elas aí permanecem enquanto “possibilidade formal”. Quando o conteúdo  
não se define mais do exterior e sim do interior da esfera do valor, porém, ele é  
“conteúdo fundado” na subjetividade do capital e fundante, por sua vez, da  
manifestação das tendências opostas que dele resultam. Por isso, como afirma  
Grespan, a crise não é uma anomalia passageira ou um erro de gestão, mas  
a expressão histórica e concreta da negatividade constitutiva do capital. A produção  
de mais-valor, ao mesmo tempo em que funda o capital, também o desestabiliza. A  
crise, nesse nível, é a manifestação periódica da incompatibilidade entre a reprodução  
social do trabalho e a reprodução ampliada do valor (GRESPAN, 2012, p. 23).  
Assim, a produção imediata de mais-valor revela não apenas a origem da  
acumulação capitalista, mas também o gérmen interno da sua instabilidade crônica. A  
crise surge quando a valorização já não encontra espaço para se realizar, quando o  
capital não consegue mais expandir seu circuito sem enfrentar os limites sociais e  
naturais que ele próprio criou. A forma social da produção capitalista, portanto, carrega  
desde sua origem a negatividade que a ameaça periodicamente com colapso.  
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A crise em níveis: o todo artístico dos três volumes de O capital de Karl Marx  
A crise na circulação do capital como capital: o desequilíbrio  
sistêmico na produção  
O terceiro nível da crise se desloca para a totalidade do processo cíclico do  
capital, conforme analisado no Livro II de O capital. Aqui, o capital não é apenas  
produção, mas um circuito que envolve múltiplos momentos: a compra de meios de  
produção e força de trabalho (D–M), a produção de mercadorias (P), a venda (M’) e a  
realização do valor (D’). Esse ciclo – DMP–M’–D’ – pressupõe a contínua  
transformação do valor e sua realização final como capital acrescido.  
Contudo, esse processo não ocorre de forma harmônica. A cisão entre os  
momentos do ciclo gera descompassos estruturais. A circulação do capital como  
totalidade exige a sincronização entre produção e circulação, mas essa sincronização  
é constantemente rompida pela imprevisibilidade da produção capitalista, que pode  
dificultar a realização do mais-valor. O capital total só pode se reproduzir se houver  
articulação entre os diferentes capitais individuais, mas essa articulação não é  
garantida por nenhuma racionalidade superior: ela depende de decisões isoladas,  
expectativas de lucro e dinâmicas de mercado imprevisíveis.  
A crise, neste nível, manifesta-se como desequilíbrio sistêmico. A defasagem  
entre produção e realização, entre investimento e retorno, entre oferta e demanda,  
produz interrupções no ciclo. Um capital que não realiza seu valor não pode ser  
reinvestido, o que compromete outros ramos interligados e desorganiza toda a  
circulação. É premente a quebra de continuidade do processo de valorização global,  
levando à paralisação parcial ou geral de ramos produtivos.  
Embora Marx afirme categoricamente que “o mais-valor não pode ter origem  
na circulação” (MARX, 2013, p. 240), isso não significa que essa esfera seja secundária  
ou meramente formal no conjunto da crítica da economia política. Ao contrário, a  
circulação é condição indispensável da valorização. O capital só se realiza enquanto  
tal se completar seu circuito por meio do mercado: é ali que ele se reconhece, se  
transforma e se reproduz. Não se trata de contrapor produção e circulação como  
esferas excludentes, mas de compreendê-las enquanto momentos de uma unidade  
contraditória (MARX, 2014, p. 28).  
Para que o capital exista, como já repisado, é necessário que o possuidor de  
dinheiro encontre no mercado uma mercadoria peculiar aquela cujo valor de uso é  
fonte de valor: a força de trabalho (MARX, 2013, p. 242). A possibilidade de comprar  
essa mercadoria depende, por sua vez, de duas condições históricas: que o trabalhador  
seja livre e proprietário de sua própria força de trabalho, e que não disponha de outros  
meios de vida senão sua capacidade de vender essa força. A reprodução do capital  
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depende, portanto, de determinadas condições sociais e jurídicas, que se manifestam  
na forma da troca “livre” e “igualitária”, mas que ocultam relações econômicas de  
fundo.  
Essa entrada no mercado é o ponto de partida da circulação do capital como  
capital, e Marx dedica o Livro II de O capital a esse momento. O capital, agora  
compreendido como unidade de produção e circulação, aparece não apenas como uma  
relação social, mas como movimento cíclico e processo de metamorfoses. O dinheiro  
é convertido em mercadorias (meios de produção + força de trabalho), essas são  
transformadas em mercadorias valorizadas (M), e por fim reconvertidas em dinheiro  
(D). O processo DMPMDnão é linear nem garantido: ele está sujeito a  
interrupções, descompassos e contradições internas.  
Como destaca Marx no início do Livro III, o capital só pode ser investigado em  
sua totalidade com base na unidade entre produção e circulação (MARX, 2017, p. 28).  
O objetivo já não é apenas descrever categorias isoladas, mas identificar e expor as  
formas concretas que emergem do processo total do capital. Essa totalidade não é  
uma simples soma de partes, mas uma estrutura em movimento, cujos diferentes  
momentos se interpenetram, se condicionam e se contradizem.  
Do ponto de vista metodológico, essa abordagem é fundamental. A crítica da  
economia política de Marx não se contenta em tratar a produção como causa e a  
circulação como efeito. Ao contrário, ela busca compreender como a valorização só se  
efetiva pela mediação da circulação, e como a própria circulação é atravessada por  
determinações sociais provenientes da produção. Como diz Marx, o capital não é uma  
coisa imóvel, mas um movimento que percorre diversas formas (MARX, 2014, p. 33).  
Esse movimento envolve diferentes níveis de análise: desde o capital individual,  
que gira entre compra, produção e venda, até o capital social total, no qual se  
entrelaçam múltiplos capitais individuais e formas de reprodução ampliada. O Livro II  
já antecipa essas dimensões, ao estudar tanto o tempo de rotação do capital quanto  
as condições de equilíbrio entre os departamentos da reprodução. Mas é no Livro III  
que Marx busca compreender como as formas desenvolvidas do capital derivam do  
processo total, incluindo suas tensões, suas autonomizações e suas figuras  
fetichizadas, como será observado no tópico seguinte.  
A análise do capital como processo cíclico exige que compreendamos  
suas formas funcionais: capital monetário, capital produtivo e capital-mercadoria. Elas  
não são compartimentos autônomos nem esferas separadas por natureza,  
mas momentos interdependentes de um único movimento total o capital industrial.  
Cada uma expressa formas transitórias que o capital assume no percurso do valor em  
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A crise em níveis: o todo artístico dos três volumes de O capital de Karl Marx  
sua valorização: o capital monetário é o ponto de partida; o capital produtivo, o  
momento da criação do mais-valor; e o capital-mercadoria, o veículo para a realização  
desse mais-valor no mercado.  
Segundo Marx, o capital assume essas formas de modo sequencial, retornando  
sempre à sua forma inicial: o dinheiro. Contudo, ele não retorna como o mesmo  
dinheiro mas como valor valorizado (D). Essa circulação não é simples como no  
circuito MDM da troca mercantil mas um movimento orientado pela  
autovalorização (MARX, 2014, p. 132). O dinheiro, ao comprar força de trabalho e  
meios de produção (DM), torna-se capital produtivo (P), e ao gerar uma mercadoria  
portadora de mais-valor (M), retorna à forma dinheiro aumentada (D). Todo o circuito  
se constitui como movimento de expansão do valor, sob a condição de que suas fases  
se realizem sem interrupção, ou seja, a cada etapa, ele cumpre uma função distinta, e  
só pode progredir para a próxima após realizar plenamente essa função.  
Contudo, essa dinâmica é estruturalmente marcada pela possibilidade de  
interrupções e bloqueios. Como destaca Marx, o ciclo do capital só se completa se as  
fases se sucedem sem descontinuidade; do contrário, o capital “enrijece-se como  
tesouro”, os meios de produção permanecem inativos, e a força de trabalho fica sem  
função (MARX, 2014, p. 132). Em outras palavras, se o capital estaciona em qualquer  
das fases do circuito como dinheiro que não se converte em meios de produção,  
como força de trabalho ociosa, como mercadoria que não encontra comprador , o  
processo de valorização se estanca. A crise se manifesta, então, como rigidez temporal  
e espacial do capital: o valor se acumula numa forma específica, impedindo a circulação  
e a reprodução global.  
Essa análise permite também compreender o capital como totalidade social em  
movimento. Ele não existe de forma homogênea, mas sim “simultaneamente e em  
justaposição espacial em suas diferentes fases” (MARX, 2014, p. 132). A circulação do  
capital não é apenas um percurso, mas uma estrutura dinâmica que interliga produção,  
mercado, classe trabalhadora e tempo histórico. A forma valor se autonomiza nesse  
processo, mas sua própria mobilidade revela a possibilidade de colapso.  
Outro ponto a se esclarecer é que no movimento real do capital não há uma  
sucessão linear entre as formas D, M, P, Me D. Em vez disso, o capital se  
apresenta simultaneamente em suas diversas formas. Enquanto um capital individual  
está na fase da produção, outro está vendendo sua mercadoria e outro ainda  
reinvestindo o capital-dinheiro. Como observa Marx, trata-se de uma totalidade  
articulada de processos interdependentes, cujos momentos se realizam ao mesmo  
tempo, embora com funções distintas (MARX, 2014, p. 132).  
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Ainda, a própria rotação do capital impõe limites temporais à valorização. Marx  
destaca que o tempo de circulação é tempo perdido para o capital (MARX, 2013, p.  
337), pois ele não está produzindo valor nesse intervalo. O capital busca, então,  
acelerar continuamente sua rotação, o que implica pressão sobre os trabalhadores,  
sobre a tecnologia, sobre a natureza. Mas essa aceleração é contraditória: quanto mais  
se acelera a rotação, mais vulnerável se torna o circuito a interrupções, gargalos  
logísticos e crises de liquidez.  
Nesse sentido, a unidade entre produção e circulação, embora necessária à  
reprodução do capital, é marcada por um profundo descompasso. A anarquia da  
produção capitalista impede que os diversos capitais individuais se articulem  
harmonicamente. Cada capitalista atua isoladamente, guiado pela concorrência e pela  
busca de lucro máximo, sem qualquer planejamento coordenado da economia como  
um todo. Com isso, o processo de valorização, embora dependa da realização no  
mercado, não assegura por si só as condições para essa realização.  
Esse é o fundamento da crise como desproporcionalidade sistêmica: quando há  
excesso de oferta em um setor e escassez em outro, quando o capital circulante não  
retorna no tempo necessário, quando o capital fixo11 imobiliza valor por períodos  
longos demais o circuito DMPMDse interrompe, e a reprodução do capital  
como totalidade entra em colapso parcial ou geral. A negatividade aqui se expressa  
como falha na mediação entre as figuras do capital, como ruptura na continuidade do  
processo de valorização.  
A crise, nesse nível, revela-se como expressão de uma forma social que não  
consegue sustentar a reprodução contínua do trabalho e do valor, justamente porque  
os separa, culminando na desorganização das múltiplas esferas da circulação, que  
deveriam operar articuladamente para garantir a valorização. A forma-valor se  
manifesta, aqui, como instância que exige coerência sistêmica, mas cuja própria lógica  
impede o equilíbrio. O capital, ao se multiplicar em circuitos autônomos e concorrentes,  
se torna incapaz de se autorregular sem rupturas periódicas, ou, nas palavras de Marx,  
estas [as crises] são sempre apenas violentas soluções momentâneas das  
contradições existentes, erupções violentas que restabelecem por um momento o  
11  
Em Marx, o capital fixo é a parte do capital constante investida em meios de produção duráveis,  
como máquinas, ferramentas e instalações. Ele transfere seu valor gradualmente para o produto final  
ao longo de vários ciclos de produção. Já o capital circulante compreende os elementos do capital que  
são consumidos integralmente em cada ciclo produtivo, como matérias-primas, força de trabalho (capital  
variável) e energia. Enquanto o capital fixo permanece no processo por um tempo prolongado e se  
deprecia lentamente, o capital circulante completa seu ciclo de rotação mais rapidamente, sendo  
convertido em mercadoria e depois em dinheiro, retornando à forma inicial para reinício do processo  
de valorização (cf. MARX, 2014).  
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A crise em níveis: o todo artístico dos três volumes de O capital de Karl Marx  
equilíbrio perturbado” (MARX, 2017, p. 248).  
A simultaneidade espacial das formas do capital exige, portanto, uma leitura  
crítica da reprodução como totalidade contraditória. A crise é o momento em que a  
unidade funcional do capital se desfaz e suas partes aparecem como fragmentos  
disfuncionais. O ciclo, que parecia automático, revela sua dependência da coesão entre  
produção e circulação uma coesão que é permanentemente ameaçada pela própria  
dinâmica expansiva do capital (GRESPAN, 2012, p. 239).  
Dessa forma, a circulação do capital como capital não é apenas um percurso  
funcional, mas uma condição sempre instável de possibilidade da valorização. A crise,  
ao interromper esse movimento, deixa de ser meramente econômica e assume um  
caráter social ampliado, como será melhor descrito no tópico seguinte: o desemprego,  
a falência de empresas, a quebra de bancos e o empobrecimento de populações não  
são efeitos colaterais, mas expressões concretas da lógica contraditória do capital em  
sua forma circulatória.  
A crise no Livro III como crise na reprodução do capital social: o  
colapso da forma autonomizada  
No Livro III de O capital, Marx retoma o trato da crise em um nível mais concreto,  
centrado nas formas mediadas e derivadas do capital. Aqui, a crise deixa de ser a  
explosão da contradição entre capital e trabalho, entre produção e valorização, ou uma  
ruptura do seu ciclo, como descrito nos tópicos anteriores, para se configurar como  
resultado da autonomização das formas do valor, que passam a operar de maneira  
relativamente independente da produção de valor real. Essa autonomização atinge seu  
ponto máximo na figura do capital fictício, isto é, o capital “como um autômato que se  
valoriza por si mesmo” (MARX, 2017, p. 524), na forma de títulos que prometem  
participar do mais-valor futuro, mas adquirem uma existência puramente formal,  
baseados em expectativas futuras, projeções de rendimento e lógicas financeiras  
dissociadas do processo de geração real de mais-valor.  
A crise passa a ser então a expressão da dissociação entre forma e substância.  
Enquanto no Livro I o capital entra em crise pelo fato de o crescimento da produção  
não corresponder à expansão da demanda necessária à sua realização, no Livro III essa  
não realização ocorre em um sistema de mediações que encobrem o fundamento real  
do valor: o trabalho abstrato. O capital monetário, o capital portador de juros e o  
capital fictício operam como “metamorfoses” do capital produtivo, mas adquirem uma  
aparência de autonomia que mascara suas determinações materiais. A valorização  
fictícia, baseada em expectativas futuras, pode crescer indefinidamente, até colapsar  
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Ana Clara Passos Presciliano  
com violência.  
A forma capital portador de juros é particularmente reveladora dessa lógica.  
Marx destaca o seu alto nível de fetichização, na medida em que ele aparece como  
uma coisa capaz de gerar valor por si mesma, independente do trabalho. Nas palavras  
de Marx, “no capital portador de juros, porém, tanto a devolução como a cessão do  
capital são mero resultado de uma transação jurídica entre o proprietário do capital e  
uma segunda pessoa. O que vemos é apenas cessão e devolução. Tudo o que se  
encontra entre esses dois polos se esfuma” (MARX, 2017, p. 396). Ele seria, pois, uma  
espécie de figura fantástica do capital, o que não retira a sua efetividade, já que as  
repercussões na sociabilidade capitalista são várias (MARX, 2011, p. 68). Desse modo,  
apaga-se a determinação de fundo da oposição capital-trabalho, e não resta vestígios  
de todo o processo de exploração do trabalho e extração de mais-valor (cf. SARTORI,  
2019a; 2019b). Essa aparência dá suporte à expansão do crédito, das finanças e das  
bolhas especulativas. No entanto, essa lógica se torna instável à medida que a  
diferença entre valor real e expectativa de valorização se aprofunda.  
Ligado à essa forma, temos o que Marx chama de capital fictício: capital que  
aparenta advir do próprio capital (D-D’), sem passar pelo processo de valorização (D-  
M-D’), e o que sobra aparentemente é apenas o título jurídico que dá direito aos juros  
gerados. Nesse processo, temos que “o capital portador de juros (‘ilusório’) torna-se  
fictício quando o direito a tal remuneração ou aos rendimentos dos juros ou dívida  
contratada é representado por um título negociável, com a possibilidade de ser  
vendido a terceiros. Ou seja, quando um capital que é dívida começa a ser  
comercializado e que, na realidade, não existe (esta é a base de sua ficção, que depois  
as finanças tornarão muito mais complexas)” (DIERCKXSENS et al., 2018, p. 39). A  
valorização ou desvalorização desses títulos está mais relacionada às dinâmicas  
especulativas e financeiras do mercado do que à produção de mercadorias ou serviços  
na economia real.  
O capital fictício apresenta uma natureza ambígua: ele é real do ponto de vista  
dos atos mercantis individuais, que se realizam diariamente no mercado, mas é fictício  
quando considerado sob a ótica da totalidade da economia. Essa contradição expressa  
sua dialética ele é e não é fictício; é e não é real. Por essa razão, pode-se afirmar  
que ele é simultaneamente fictício e real: fictício por não possuir substância material  
própria, mas real por carregar uma determinação efetiva do capital, qual seja, o direito  
de participar do mais-valor (CARCANHOLO, 2013, p. 147).  
Carcanholo (2012, p. 148), ainda, exemplifica que, na prática, essa duplicação  
significa que tanto a empresa quanto os acionistas podem dispor de seu patrimônio  
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real como garantia para operações de crédito, como se a riqueza tivesse sido  
multiplicada. Quando o valor total das ações corresponde ao valor efetivo do  
patrimônio, tem-se um primeiro tipo de capital fictício (tipo 1), em que há riqueza  
substantiva subjacente, ainda que duplicada. Já quando o valor das ações supera o  
patrimônio efetivo da empresa, estamos diante de um segundo tipo de capital fictício  
(tipo 2), em que a valorização nominal não possui qualquer correspondência com  
riqueza real. A distinção é fundamental: enquanto o tipo 1 se ancora em capital  
produtivo e, em alguma medida, relaciona-se com a produção de mais-valor, o tipo 2  
carece totalmente de substância e não contribui em nada para a criação de excedente  
econômico.  
Isso intensifica o fetichismo do capital explicado anteriormente, fazendo parecer  
que o dinheiro gera mais dinheiro, obscurecendo o papel do trabalho humano na  
criação de valor: o capital produtivo, investido diretamente na produção, está ligado  
ao trabalho humano, mas ainda assim é percebido como uma força autônoma, e o  
capital comercial e o capital financeiro especialmente o capital fictício, como ações e  
títulos intensificam essa ilusão. Por exemplo, o dinheiro investido em uma ação  
parece gerar lucro sem conexão com a produção real ou o trabalho envolvido, criando  
a ideia de que o capital "trabalha" ou "dá frutos" por conta própria: a sua forma  
fantástica faz com que os rendimentos regulares dele advindos sejam vistos como  
juros, seja ele proveniente de um capital ou não, como se fosse propriedade do  
dinheiro criar valor e gerar juros, assim como a de uma pereira é dar peras (MARX,  
2017, p. 382).  
Marx explora, nesse sentido, como os títulos jurídicos, tais quais as referidas  
ações e outros instrumentos financeiros, desempenham um papel na dinâmica da  
acumulação de capital, representando reivindicações sobre ele, mas não constituem  
diretamente o capital produtivo (MARX, 2017, p. 450). Eles não deixam de ser, no  
entanto, fundamentais para o funcionamento do modo de produção capitalista, pois  
permitem a mobilização e redistribuição de riqueza, ao mesmo tempo que introduzem  
uma camada de abstração e fetichismo no entendimento do capital, como mencionado  
anteriormente. Assim, ao mesmo tempo em que os títulos jurídicos se colocam como  
uma ferramenta essencial na acumulação de capital, permitindo, por um lado a  
expansão do sistema capitalista, por outro, sua potencial desconexão da produção real  
contribui para crises econômicas e para a perpetuação da ilusão de que o capital é  
uma entidade autônoma. Dessa forma, os títulos jurídicos são tanto um meio de  
acumulação quanto um reflexo das contradições fundamentais do capitalismo.  
Em síntese, a crise no Livro III aparece como o ajuste brutal entre forma e  
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substância, como quando os títulos e ativos financeiros se desvalorizam por não  
corresponderem à produção real de valor. Aqui vemos o desdobramento concreto  
daquilo que foi mencionado na Seção 2.1 (páginas 9 e 10) quando analisávamos o  
fato de que uma série de obrigações podem advir de um mesmo montante de dinheiro  
(A pode usar um crédito que possui com B, a fim de pagar o que deve a C, e este a  
D): uma interrupção nos pagamentos pode culminar em uma crise sem precedentes,  
como na crise do subprime em 2008, na qual títulos altamente alavancados serviam  
como garantia de outros títulos e o estouro da bolha revelou a sua ausência de lastro,  
causando efeitos devastadores na economia mundial12. Rompeu-se então o fluxo social  
de confiança e a circulação de dinheiro também mencionados na Seção 2.1, e quando  
esse fluxo é rompido o sistema entra em colapso. Tal momento assume o caráter de  
uma desvalorização em massa”, que atinge capitais fictícios, força de trabalho e meios  
de produção. Diferente do Livro I, onde o capital entrava em crise por não conseguir  
realizar sua própria lógica, aqui ele entra em crise por ter se afastado excessivamente  
dela.  
Outro elemento importante é que o Livro III mostra como as crises não são  
apenas destrutivas, mas também funcionais à reprodução do capital. A destruição de  
capitais durante a crise prepara as condições para um novo ciclo de valorização. Assim,  
a crise se torna o meio necessário de restauração das condições de acumulação, ainda  
que isso implique desemprego em massa, falências, concentração de riqueza e  
retrocessos sociais profundos.  
A forma como Marx descreve o capital fictício antecipa, de maneira  
surpreendente, dinâmicas do capitalismo contemporâneo: a financeirização da  
economia, a especulação sistêmica, a dissociação entre indicadores financeiros e  
condições materiais de produção e reprodução da vida. O Livro III, nesse sentido,  
complementa e radicaliza o trato das crises formulado no Livro I. Ele mostra que a  
crise não é apenas um momento de parada do ciclo, mas uma manifestação da  
totalidade contraditória do capital em sua forma desenvolvida.  
12  
Os empréstimos subprime eram aqueles feitos com famílias sem uma fonte regular de renda e sem  
um histórico favorável de pagamentos e eram diferenciados dos empréstimos prime. Os primeiros  
receberam notas de avaliação de risco alto e os demais de risco pequeno ou zero, com a classificação  
mais alta. Os dois tipos de contratos eram empacotadosem derivativos CDO. Esses derivativos  
chamados Collateralized Debt Obligations (CDO) ou Obrigação de Dívida com Garantia, mais inteligível  
se explicarmos como um título de dívida garantido por algum ativo, surgiram na década de 1980 e  
eram títulos garantidos por empréstimos hipotecários, cartões de crédito e até a dívida de pagamentos  
às universidades. Como esses derivativos incluíam dívidas subprime, eles eram associados a contratos  
de swap, os Credit Default Swap (CDS), por meio do qual os compradores de CDO buscavam um seguro  
pagando parte de sua receita. Naquela época, entraram no American International Group (AIG), a maior  
seguradora do mundo na época, Fannie Mae e Freddie Mac, que garantiam os empréstimos hipotecários;  
todos entraram em colapso em 2008.” (DIERCKXSENS et al., 2018, p. 47)  
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É notório no Livro III, então, que crise assume a forma de colapsos financeiros  
generalizados: bolhas especulativas estouram, ativos perdem valor abruptamente, o  
crédito se retrai e o sistema bancário entra em colapso. Mas o que está em jogo não  
é apenas uma má gestão ou um erro de cálculo é a limitação estrutural da forma  
autonomizada do capital, que não pode se reproduzir indefinidamente à margem da  
produção de mais-valor.  
Esse nível da crise implica a destruição massiva de capital fictício, a retração de  
investimentos, o desemprego estrutural e, muitas vezes, respostas políticas drásticas  
para restaurar a rentabilidade do capital13. A negatividade atinge aqui seu ápice: não  
há mais como mascarar a contradição entre forma e substância. O capital, ao tentar  
suprimir seus limites por meio da abstração financeira, os reencontra com ainda mais  
força. Trata-se do fechamento lógico da crise, em que o capital é levado a negar a si  
mesmo ao ultrapassar os limites da valorização real.  
As crises se espalham pelo mercado mundial de forma tão ampla quanto o  
próprio capital, acompanhando sua trajetória de expansão global. Conforme analisa  
Grespan (2012, p. 28), “a crise do mercado mundial é o correspondente negativo do  
capital neste ponto último de sua expansão e o conceito de crise respectivamente é o  
mais complexo e abrangente”. Em outras palavras, à medida que o capital se propaga  
pelo planeta em seu movimento de autovalorização, a crise se configura como sua  
contrapartida necessária um reflexo estrutural que ganha expressão mais intensa e  
abrangente justamente no patamar mais avançado da produção global. Este é,  
portanto, o recorte central que orienta a nossa análise.  
Ao ser compreendida como a expressão negativa e necessária da lógica  
expansiva do capital, a crise não é algo externo a ele, mas sim um desdobramento  
inerente à sua própria dinâmica contraditória. Ela evidencia, de forma privilegiada, a  
contradição fundamental entre capital e trabalho, assumindo assim um papel central  
tanto para a compreensão do funcionamento do modo de produção capitalista quanto  
para sua crítica. Sua análise permite, então, revelar os limites internos do capital, suas  
tendências autodestrutivas e as aparências que ele gera na superfície social –  
aparências que, por sua vez, ocultam o conteúdo real das categorias econômicas  
envolvidas.  
A extração de mais-valor depende da utilização do trabalho vivo, e é  
precisamente essa dependência que o capital tenta reduzir por meio do aumento da  
13 Bons exemplos disso são os pesados socorros financeiros promovidos pelos governos, como ocorreu  
nos Estados Unidos ao estourar da crise de 2008, que na verdade beneficiaram principalmente os  
bancos e a classe capitalista, enquanto a população, especialmente os proprietários despejados, não  
recebeu o mesmo tipo de auxílio (HARVEY, 2011, p. 30).  
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composição orgânica: substituindo trabalho vivo por máquinas e técnicas mais  
avançadas. Assim, o que aparece como progresso técnico é, sob a lógica do capital,  
uma tentativa de intensificar a produção de mais-valor, mas que tende a diminuir a  
fonte real da valorização, já que o trabalho vivo é o único criador de mais-valor. Trata-  
se de uma contradição entre as forças produtivas desenvolvidas pelo capital e os  
limites postos pela própria forma-valor.  
Esse movimento contraditório conduz ao que Marx chamou de lei tendencial da  
queda da taxa de lucro. Ainda que o capital aumente a massa de mais-valor em termos  
absolutos, a proporção entre mais-valor e o capital total investido tende a declinar14.  
Marx explica:  
O fenômeno, derivado da natureza do modo capitalista de produção,  
de que com uma produtividade crescente do trabalho diminui o preço  
da mercadoria individual ou de uma quantidade dada de mercadorias,  
aumenta o número das mercadorias, diminui a massa de lucro por  
mercadoria individual e a taxa de lucro sobre a soma das mercadorias,  
ao mesmo tempo em que aumenta a massa de lucro sobre a soma  
total das mercadorias esse fenômeno evidencia apenas a diminuição  
da massa de lucro sobre a mercadoria individual, a queda do preço  
desta última e o aumento da massa de lucro sobre o número total  
aumentado das mercadorias produzidas pelo capital total da  
sociedade ou pelo capitalista individual. O que se depreende disso é  
que o capitalista adiciona menores lucros, por livre determinação,  
sobre a mercadoria individual, porém se ressarce por meio do maior  
número de mercadorias que produz. (MARX, 2017, p. 268)  
Essa tendência não é acidental, mas decorre da própria lógica da valorização:  
há um descompasso entre a necessidade de ampliar o mais-valor e os limites materiais  
da produção. A concorrência entre capitais impulsiona todos os setores a reduzirem  
custos e elevarem a produtividade, promovendo inovações tecnológicas que, por sua  
vez, barateiam as mercadorias e reduzem a taxa de lucro. No entanto, esse processo  
afeta de forma desigual os diversos capitais, pois nem todos conseguem acompanhar  
o mesmo ritmo de inovação, e aqueles que ficam para trás acabam excluídos do  
mercado.  
Além disso, as inovações que inicialmente garantem lucros extraordinários  
tendem a se generalizar, comprimindo os preços e exigindo produção em maior escala.  
A valorização passa, então, a depender da venda de um volume cada vez maior de  
mercadorias. Isso acirra a contradição entre a capacidade produtiva ampliada e as  
limitações da realização no mercado, sobretudo quando o consumo é restringido pela  
14  
Há uma diferença aqui entre taxa de lucro e massa de lucro: a primeira se trata da equação referida  
acima, em que o mais-valor é dividido pela soma entre capital total e capital variável, enquanto a  
segunda consiste na diferença entre o preço de venda e o preço de custo (somatório do que foi gasto  
no processo de produção) da mercadoria.  
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compressão dos salários ou pela superexploração do trabalho.  
Importa sublinhar que essa é uma lei de tendência e não uma fatalidade  
absoluta. O próprio Marx adverte que se trata de uma “lei cuja aplicação absoluta é  
contida, refreada e enfraquecida por circunstâncias contrarrestantes” (MARX, 2017, p.  
234). Entre essas circunstâncias, destacam-se: o aumento do mais-valor absoluto por  
meio do prolongamento da jornada de trabalho; o crescimento do mais-valor relativo  
com o barateamento das mercadorias de subsistência; a compressão dos salários  
abaixo do valor da força de trabalho; o barateamento dos elementos do capital  
constante; a ampliação do comércio exterior; a utilização da superpopulação relativa  
como reserva de força de trabalho, entre outras a serem analisadas em determinadas  
circunstâncias e no decorrer de longos períodos (MARX, 2017, p. 276). Ou seja, como  
mencionado anteriormente, o estatuto da “necessidade” da ocorrência da queda da  
taxa de lucro em Marx é o de uma necessidade relativa e não absoluta, pois sempre  
admite a possibilidade do seu oposto e depende de condições externas para se  
concretizar, sendo assim, ela é capaz de se sobrepor às contingências, mas sem anulá-  
las completamente (GRESPAN, 2012, pp. 39-40).  
De acordo com Carcanholo (2013, p. 137), a especulação também vem sendo  
utilizada como estratégia para tentar frear essa lei. Diante da tendência de queda da  
taxa de lucro, que marcou especialmente a década de 1970, o capital buscou novas  
formas de assegurar sua valorização, e se lançou de maneira frenética à especulação,  
convertendo-a não em um desvio ou patologia do sistema, mas em uma tentativa de  
remediar sua enfermidade estrutural. O grande capital chegou mesmo a acreditar ter  
encontrado uma forma de geração de riqueza que prescindisse tanto da exploração  
direta do trabalho humano quanto da apropriação da natureza, elevando a tecnologia,  
a informação e o conhecimento à condição de forças autônomas, quase mágicas,  
capazes de assegurar a rentabilidade exigida. Na prática, o objetivo era que ela  
superasse o investimento produtivo como principal meio de apropriação de lucros. A  
crença na possibilidade de valorização sem base material em que a circulação de  
títulos e ativos parecia substituir a produção de valor consolidou-se como forma de  
enfrentamento à queda da taxa de lucro. No entanto, quando o circuito especulativo  
se vê abalado, como nas crises, evidencia-se o caráter ilusório dessa estratégia: a  
riqueza aparente desmorona, revelando novamente que o capital não pode prescindir  
do trabalho vivo como fundamento último da valorização.  
Isso se relaciona ao fato de que um dos elementos centrais da dinâmica  
contraditória do capital é a relação inversa entre a taxa de lucro e a taxa de mais-  
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valor15. Ambas funcionam como formas de mensuração da valorização do capital, mas  
produzem resultados divergentes. Como aponta Grespan (2012), essa tensão gera  
uma situação de “desmedida”: enquanto a taxa de mais-valor indica um aumento na  
valorização do capital, a taxa de lucro, conforme a lei tendencial da sua queda, aponta  
uma trajetória descendente. Assim, o próprio capital se vê diante da impossibilidade  
de estabelecer um critério único para medir sua valorização, o que implica uma perda  
de referência interna nos processos de reprodução e acumulação.  
Por sua vez, essa desmedida é expressão direta da contradição constitutiva do  
capital, cuja lógica o leva a tentar submeter integralmente o trabalho vivo a seu  
domínio, impedindo que o trabalho se configure como totalidade autônoma. Grespan  
descreve essa contradição da seguinte maneira:  
A desmedida expressa, assim, a contradição imanente ao capital em  
sua pretensão a rebaixar o trabalho vivo a momento do todo por ele  
formado e a impedir que o trabalho forme também uma totalidade por  
seu lado [...]: conforme um dos lados desta relação, o capital mede  
sua valorização pela taxa de lucro, como se ele fosse, enquanto capital  
total, o criador de valor, conforme o outro lado, porém, sua pretensão  
se choca com a realidade de que apenas o trabalho vivo cria valor, e  
a medida da valorização pela taxa de mais-valia entra em oposição  
com a taxa de lucro. (GRESPAN, 2012, p. 188)  
Esse impasse se expressa de forma particularmente aguda no fenômeno da  
sobreacumulação periódica de capital, tal como desenvolvido por Marx no Livro III.  
Trata-se de um momento em que o avanço da acumulação alcança um ponto em que  
os capitais disponíveis não encontram condições para serem valorizados. Não se trata,  
portanto, apenas de uma produção excessiva de mercadorias isoladas, mas de um  
excesso de capital que não pode ser investido lucrativamente16.  
Como afirma Marx:  
A superprodução de capital não significa outra coisa senão a  
superprodução de meios de produção [...] que podem ser empregados  
para a exploração do trabalho [...] uma vez que a queda desse grau  
15  
A taxa de mais-valor (ou taxa de exploração) é a razão entre o mais-valor produzido (m) e o capital  
variável (v) adiantado pelo capitalista, isto é, o valor da força de trabalho. Ela expressa o grau de  
exploração do trabalho, indicando quanto trabalho não pago é extraído em relação ao trabalho pago:  
m= m / v. Já a taxa de lucro é a razão entre o mais-valor (m) e o capital total adiantado (c + v), que  
inclui tanto o capital variável quanto o capital constante (c, ou seja, máquinas, matérias-primas etc.): r  
= m / (c + v). A taxa de lucro, portanto, é sempre influenciada pela composição orgânica do capital e  
tende a diminuir à medida que cresce a proporção de capital constante em relação ao capital variável,  
ainda que a taxa de mais-valor aumente (MARX, 2017, p. 69).  
16  
A relevância da sobreacumulação periódica de capital nas crises e a questão da  
possibilidade/necessidade delas não é pacífico na literatura marxista. Rosa Luxemburgo, por exemplo,  
teceu a sua teoria do colapso econômico do capitalismo para responder àqueles que defendiam a  
possibilidade de eternização desse modo de produção. Rosdolsky (ROSDOLSKY, 2001, pp. 92-100;  
538-54) trata dessa discussão, defendendo que esse tipo de leitura se baseia em uma má interpretação  
da arquitetura d’O capital, tendo em vista que se utiliza de categorias do Livro II que só estariam  
suficientemente concretas no Livro III.  
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de exploração abaixo de certo ponto provoca [...] crises e destruição  
de capital. (MARX, 2017, p. 254)  
Diante dessa situação, a única forma de restabelecer a valorização é pela  
destruição de capital excedente seja por meio de falências, perda de valor de ativos,  
desemprego em massa ou fechamento de empresas. A crise, assim, atua como um  
momento violento de restauração das condições de acumulação. Nas palavras de Marx  
já mencionadas anteriormente: “erupções violentas que restabelecem por um momento  
o equilíbrio perturbado” (MARX, 2017, p. 248).  
A alternância entre expansão e crise revela-se, portanto, não como uma  
oscilação meramente conjuntural, mas como expressão estrutural das contradições  
internas do modo de produção capitalista. É essa alternância que possibilita tanto a  
recuperação das quedas na taxa de lucro quanto o surgimento de novos ciclos de  
valorização a partir da reestruturação produtiva provocada pelas crises.  
Esses episódios de crise costumam se manifestar como quedas generalizadas  
nos preços, colapsos no sistema de crédito, interrupção de pagamentos, cortes  
salariais e elevação do desemprego. Paradoxalmente, esses próprios elementos abrem  
espaço para uma reorganização das condições produtivas: os capitais sobreviventes  
tendem a reduzir custos, incorporar novas tecnologias e rebaixar a composição  
orgânica do capital. A concorrência, por sua vez, seleciona quais capitais resistirão à  
crise e quais inovações serão colocadas na fase seguinte de expansão (MARX, 2017,  
p. 251).  
Dessa forma, a crise aparece como mecanismo contraditório de autorregulação  
do capital. As fases de crescimento e retração não se alternam mecanicamente, mas  
contêm internamente as condições da sua reversão mútua. Como afirma Marx, “a  
produção capitalista tende constantemente a superar esses limites [...] porém consegue  
isso apenas em virtude de meios que voltam a elevar diante dela esses mesmos limites,  
em escala ainda mais formidável” (MARX, 2017, p. 248).  
O verdadeiro limite à expansão da produção capitalista não está fora dela, mas  
no próprio capital. Ao perseguir como fim exclusivo sua autovalorização, o capital entra  
em conflito com o desenvolvimento irrestrito das forças produtivas sociais. Assim,  
embora historicamente eficaz na elevação da produtividade e na criação de um  
mercado mundial, o modo de produção capitalista produz também seus próprios  
limites estruturais (MARX, 2017, p. 248). Nesse sentido, a crise expressa, de forma  
aguda, a contradição imanente ao capital, que é, ao mesmo tempo, o sujeito do  
processo de produção e sua barreira interna intransponível.  
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Considerações finais  
Este artigo buscou investigar de que maneira a teoria da crise é delineada de  
forma distinta nos Livros I, II e III de O capital e o que essa diferença revela sobre a  
estrutura contraditória do modo de produção capitalista. Ao longo da análise, foi  
possível mostrar que, embora os três volumes trabalhem com níveis diferentes de  
abstração, todos tratam a crise não como evento exterior ao capital, mas como  
expressão necessária de sua lógica interna.  
No Livro I, a crise emerge da própria estrutura da valorização do valor: da  
contradição entre trabalho vivo e trabalho objetivado, da tendência à substituição do  
trabalho por maquinaria, da dificuldade de realizar o mais-valor produzido no mercado.  
Já no Livro II, a crise se manifesta na coordenação temporal e funcional entre os  
diferentes circuitos do capital (produção, circulação e consumo), revelando o risco de  
interrupções e descompassos entre compra e venda, produção e realização, que  
podem comprometer a reprodução do capital como um todo. No Livro III, por sua vez,  
a crise assume a forma da dissociação entre valor real e suas formas autonomizadas,  
como o capital portador de juros e o capital fictício. Aqui, o colapso se manifesta como  
explosão da ilusão de valorização sem base material, levando à desvalorização  
generalizada de ativos e à destruição de capital.  
A leitura proposta por Jorge Grespan em O negativo do capital foi decisiva para  
compreender como essas modalidades distintas de crise não se excluem, mas se  
complementam logicamente. Tal autor interpreta a crise como momento em que a  
negatividade do capital se realiza plenamente tanto no plano da relação imediata  
com o trabalho quanto no das formas econômicas desenvolvidas. A unidade entre os  
livros está precisamente nessa negatividade: o capital só se reproduz ao negar o que  
o funda, e a crise é a revelação cíclica dessa contradição. Nesse sentido, adotou-se  
uma periodização conceitual do desenvolvimento da categoria de crise em quatro  
níveis: (1) na cisão entre compra e venda na circulação simples; (2) na produção  
imediata de mais-valor; (3) na circulação do capital como capital; e (4) no processo  
global de reprodução do capital social.  
Em suma, a análise comparada dos Livros I, II e III permite aprofundar a crítica  
da economia política ao mostrar que a crise não é um desvio, mas a própria forma de  
ser do capital como totalidade contraditória. Longe de representar uma falha acidental  
do sistema, a crise exprime o limite estrutural de um modo de produção baseado na  
valorização incessante do valor e, portanto, na negação permanente da vida como  
fim em si mesma.  
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Como citar:  
PRESCILIANO, Ana Clara Passos. A crise em níveis: o todo artístico dos três volumes  
de O capital de Karl Marx. Verinotio, Rio das Ostras, v. 30, n. 2, pp. 34-61, 2025.  
Verinotio  
ISSN 1981 - 061X, v. 30, n. 2, pp. 34-61 jul.-dez., 2025 | 61  
nova fase