Ecologia e modernidade: contribuições de Rousseau
daquilo que seria próprio de sua condição e que foi, na sociabilidade, esquecido. Mais
uma vez, a impressão que se tem, como sempre sustentou em seu Discurso sobre a
origem da desigualdade, que a natureza em geral e o estado de natureza humano em
particular - no qual boa parte da vida ainda era conduzida segundo os operadores da
física, força e movimento, que exerciam influência decisiva na vida dos seres em geral
– eram hipoteticamente trazidos à baila para servir de medida dos problemas que o
curso da história humana foi capaz de produzir. Diante disso, a própria ideia de
condição natural, ou original, se reforça não como lugar, condição, ou situação para a
qual o homem deveria retornar; lembremos, o estado de natureza, para Rousseau, não
teria existido, embora fosse possível supô-lo, como hipótese metodologicamente
condicionada2. Ressaltar a ideia de natureza, lamentar que algo da natureza foi
desprezado ao ponto de não reconhecermos mais, no caso da humanidade, o que é
próprio do homem3, em razão das daquilo que a cultura artificialmente produziu é
advogar, pelo artifício, pela atual condição de homem racional e livre, uma forma de
contemplar essa natureza e fazer algo de bom, no regime dos artifícios, que contenha
os aspectos normativos e próprios dessa natureza idealmente concebida.
Um outro aspecto que merece destaque no trecho acima é a importância dada
à metáfora, à analogia estabelecida entre a educação, agricultura e jardinagem, num
texto em que se discute uma filosofia da arte da educação, que se pretenda desnaturar
o homem num contexto propriamente “antinatural” da sociabilidade Essa associação,
ou analogia, feita com a educação, agricultura, ou também medicina (em outras
passagens no Emílio isso é tematizado), não é gratuita. A concepção de arte como
2 É de suma importância aqui, para ressaltar o sentido que tem o termo natureza e estado de natureza,
para, justamente, como em várias oportunidades foi tratado, que sejam evitados os mal-entendidos da
recepção de sua obra - como se ele estivesse a advogar o retorno ao natural, simplesmente, como se
não fôssemos de certa forma naturais. Há, ainda, a discussão entorno da relação artifício e natureza em
Rousseau, que não se estabelece, ao nosso ver, como oposição. Se a possibilidade histórica da existência
dessa condição humana não se percebe objetivamente como um fato, a princípio, só poderia ser
confirmada, por abstração e por aproximação, isso realizado pelos dados observacionais, muitos dos
quais recolhidos dos relatos dos viajantes europeus à América. Vejamos seu texto: “Não é, pois, fácil
empreendimento distinguir o que há de originário e de artificial na atual natureza do homem e conhecer
profundamente um estado que não mais existe, que talvez nunca tenha existido, que provavelmente não
existirá jamais e, do qual, deve-se contudo ter noções corretas para bem julgar de nosso estado
presente.” (ROUSSEAU, 1985, p. 42)
3
Vale a pena recordar a imagem recuperada da República de Platão por Rousseau, no “Prefácio” do
“Segundo discurso”, em que ele indica sugere claramente a dimensão do controle que a natureza perdeu
em face da amplitude dos progressos humanos, a ponto de não mais ser possível enxergar a correção
de suas formas. “E como chegará o homem ao extremo de ver-se tal como o formou a natureza, através
de todas as transformações produzidas em sua constituição original pelo passar do tempo e das coisas,
e distinguir o que é sua própria essência do que as circunstâncias e os progressos acrescentaram, ou
alteraram, em seu estado primitivo. À semelhança da estátua de Glauco, que o tempo, o mar e as
tempestades haviam desfigurado de tal maneira que mais se parecia a um animal feroz que a um Deus,
a alma humana alterada no seio da sociedade por mil causas que se renovam sem cessar, pela aquisição
de uma multiplicidade de conhecimentos e de erros, pelas mudanças sofridas na constituição dos corpos
e pelo contínuo choque de paixões, adquiriu, por assim dizer, outra aparência, a ponto de estar quase
irreconhecível.” (ROUSSEAU, 1985, p. 40).
Verinotio
ISSN 1981 - 061X, v. 30, n. 2, pp. 385-401 – jul.-dez., 2025 | 391
nova fase