DEBATES  
DOI 10.36638/1981-061X.2025.30.2.783  
D e b a t e s  
_____  
“Novos rostos de Marx”1: da crítica da economia  
política aos horizontes da luta pela emancipação  
humana  
Sobre a obra Karl Marx: biografia intelectual e política (1857-1883)  
Ana Carolina Marra de Andrade*  
Resumo: No presente artigo, propõe-se um  
debate em torno da obra Karl Marx: biografia  
intelectual e política (1857-1883) (2023), de  
Marcello Musto, com o objetivo de lançar luz  
sobre o Marx real e histórico, ressaltando a  
importância de compreender sua obra em sua  
totalidade e a partir de sua gênese, estrutura e  
função. Considerando o renascimento das  
discussões acerca do estatuto do pensamento  
marxiano, impulsionado pela disponibilização  
digital dos cadernos inéditos do “último Marx”  
na Marx-Engels Gesamtausgabe (Mega), busca-  
se, com base em Musto, apresentar “novos  
rostos de Marx”, evidenciando a relação entre o  
desenvolvimento da crítica à economia política,  
sua inserção nos movimentos sociais e seus  
últimos escritos. Por fim, estabelece-se um  
diálogo com algumas das tendências  
interpretativas atuais que discutem as possíveis  
diferentes fases existentes no interior do  
pensamento maduro do autor.  
Abstract: In the present article, we propose a  
debate around Marcello Musto’s Karl Marx:  
biografia intelectual e política (1857-1883)  
(2023), with the aim of shedding light on the  
real and historical Marx, emphasizing the  
importance of understanding his work in its  
entirety and from its genesis, structure, and  
function. Considering the resurgence of  
discussions about the status of Marxian  
thought, driven by the digital availability of the  
unpublished notebooks of the “late Marx” in the  
Marx-Engels Gesamtausgabe (Mega), we seek,  
based on Musto, to present “new faces of Marx,”  
highlighting the connection between the  
development of the critique of political  
economy, his involvement in social movements,  
and his late writings. Finally, a dialogue is  
established with some of the current  
interpretive tendencies that discuss the possible  
different phases existing within the author’s  
mature thought.  
Palavras-chave: Karl Marx; crítica da economia  
política; comunismo.  
Keywords: Karl Marx; critique of political  
economy; communism.  
1 Expressão utilizada em referência ao curso ministrado por Marcello Musto, autor de Karl Marx: biografia  
intelectual e política (1857-1883), na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) entre os dias 13/11  
e 4/12/2024.  
* Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).  
E-mail: anamarra7@gmail.com. Orcid: 0000-0002-8477-8578. Mais informações sobre o autor podem  
ISSN 1981 - 061X, v. 30, n. 2 jul.-dez., 2025  
Verinotio  
nova fase  
   
“Novos rostos de Marx”  
Introdução  
O presente texto traz um debate sobre a vida e obra de Karl Marx a partir da  
biografia Karl Marx: biografia intelectual e política (1857-1883) [Karl Marx: biografia  
intellettuale e política 1857-1883], publicada originalmente em 2018, e cuja versão  
traduzida foi publicada no Brasil pela Expressão Popular em 2023. Professor de  
Sociologia na York University (Toronto, Canadá), o italiano Marcello Musto é uma das  
principais especialistas mundiais acerca da vida e obra de Karl Marx na atualidade.  
Também escreveu O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos, 1881-1883  
[L’ultimo Marx: biografia intellettuale (18811883)] (MUSTO, 2018), e teve seu  
trabalho como autor e organizador traduzido para vinte e cinco idiomas2.  
A biografia não é apenas mais uma compilação de fatos ocorridos na vida do  
autor d’O capital. Na obra, o autor busca apresentar uma nova faceta do consagrado  
fundador da crítica da economia política, ao mesmo tempo desvinculando-o de suas  
interpretações vulgares, e também apresentando-o enquanto um pensador real,  
humano, que teve que enfrentar durante sua vida uma série de dificuldades materiais,  
desde a doença até a miséria. Musto reconstrói a história de Marx em conexão com o  
desenvolvimento de seu pensamento teórico, e, nesse sentido, traz à tona uma ampla  
gama de materiais marxianos, desde de cadernos, manuscritos e livros publicados, até  
cartas do autor tratando de suas questões pessoais e relatos de pessoas próximas.  
Ademais, diante do grande número de biografias já existentes do Marx que se  
dedicam a apresentar somente o período de sua juventude, Musto opta por caminho  
distinto começa do período de elaboração do primeiro rascunho da crítica da  
economia política, os Grundrisse, em 1857, chegando até o final da vida do autor,  
ressaltando os vínculos entre sua elaboração teórica, sua militância política e os  
acontecimentos mundiais e de sua vida privada. Só este recorte dá à obra um caráter  
inovador, pois quase todas as biografias até hoje publicadas privilegiam seus escritos  
juvenis. Além disso, Musto conecta a crítica da economia política a todos os inúmeros  
projetos aos quais Marx se dedicou concomitantemente ao longo dos anos, rompendo  
com “divisão fictícia entre o ‘Marx filósofo’, o ‘Marx economista’ e o ‘Marx político’”  
(MUSTO, 2018), de modo a representar com primor a totalidade da dimensão da  
proposta de um pensador profundamente dedicado a transformar o mundo.  
A escolha desse livro para o debate se insere em um momento no qual, há  
2 Mais informações sobre o autor podem ser conferidas em: <https://marcellomusto.org/>. Acesso em:  
2 set. de 2025.  
Verinotio  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025 | 403  
nova fase  
 
Ana Carolina Marra de Andrade  
alguns anos, têm-se popularizado estudos sobre o “último Marx”3. Os novos materiais  
da Marx-Engels Gesamtausgabe (Mega), que vêm sendo publicados desde 1998, têm  
contribuído para a emergência de uma visão sobre Marx diferente da vulgata  
comumente impulsionada por movimentos operaístas ou stalinistas, um Marx “capaz  
de examinar as contradições da sociedade capitalista muito além do conflito entre  
capital e trabalho” (MUSTO, 2018, p. 16). Em dezembro de 2023, a versão digital de  
vários cadernos do “último” Marx foi publicada pela MEGA, referente ao IV/27 M/E:  
Excertos e notas de 1879-1881 (etnologia, história primitiva, história da propriedade  
fundiária) 2023/24 [Exzerpte und Notizen 1879 bis 1881 (Ethnologie, Frühgeschichte,  
Geschichte des Grundeigentums) 2023/24, cf. MARX, 2025]. Grande parte desse  
material permanecia inédita, o que tem impulsionado novos debates em torno da  
teoria marxiana inclusive a partir de excertos já conhecidos, anteriormente  
publicados, como na edição de Lawrence Krader dos chamados Cadernos etnológicos4.  
Esses textos têm contribuído com a visão de Marx como autor “completamente  
diferente da vulgata que o descreve como eurocêntrico, economicista e interessado  
apenas na análise da esfera produtiva e no conflito de classes entre capital e trabalho”  
(MUSTO, 2018, p. 18), o que, como explica Musto, não significa que “os textos que  
surgiram recentemente derrubam o que já se sabia sobre esse autor” (MUSTO, 2018,  
p. 19), mas o complementam. Assim, enquanto outros comentadores, como Michael  
Löwy (2018) e Jean Tible (2020), defendem que no “último” Marx um teórico que  
passou por uma grande virada em seu pensamento, deixando de lado concepções  
prévias que seriam “eurocêntricas”, Musto opta por trazer a continuidade entre seus  
escritos desde 1858.  
A obra é dividida em quatro partes: Parte I. A crítica da economia política; II.  
3 Sobre os debates em torno do “último Marx” nas últimas décadas, cita-se o trabalho do próprio Musto  
(2018), de Heather Brown (2012), Kevin Anderson (2019, 2025), e Jean Tible (2020), além de autores  
menores como Lucas Álvares (2019), Gustavo Velloso (2018), e o nosso trabalho, Andrade (2025).  
4
Os textos selecionados pelo etnólogo estadunidense Lawrence Krader são uma pequena parcela de  
todos os excertos marxianos de 1879-83, notadamente excertos de Marx referentes a quatro obras  
distintas: A sociedade antiga ou investigações sobre as linhas do progresso humano desde a selvageria,  
através da barbárie, até a civilização [Ancient society or researches in the lines of human progress from  
Savagery, through Barbarism to Civilization] (1877) de Lewis Henry Morgan; A aldeia ariana na Índia e  
no Ceilão [The Aryan village in India and Ceylon], de John Budd Phear (1880); A origem da civilização e  
a condição primitiva do homem: condição mental e social dos selvagens [The origin of civilisation and  
the primitive condition of man: mental and social condition of savages] (1870) de John Lubbock (Lord  
Avebury); e Preleções sobre o início da história das instituições [Lectures on the early history of  
institutions] (1875), de Henry Sumner Maine. Tais excertos mesclam parcialmente os cadernos de Marx  
nomeados B 146 e B 160, os quais hoje podemos ter acesso na versão digital da Mega2. O título do  
texto dado por Krader, Cadernos etnológicos, é, no mínimo, parcial. Musto (2023) prefere chamar a  
totalidade desses excertos de Cadernos antropológicos, nome utilizado também em uma versão italiana,  
Quaderni antropologici (2009), em que estão as notas sobre Morgan e sobre Maine. Para entender  
melhor o debate em torno da edição de Krader e do vínculo de Marx a essas áreas do conhecimento,  
cf. Andrade (2025).  
Verinotio  
404 |  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025  
nova fase  
   
“Novos rostos de Marx”  
Militância política; III. As pesquisas da última década; e IV. A teoria política. Como  
explica o autor: “A primeira delas – ‘A crítica da economia política’ – é dedicada à  
descrição das principais etapas da elaboração e redação d’O capital”, a segunda foca  
na “participação de Marx na Associação Internacional dos Trabalhadores”, a terceira,  
em fazer um “exame da correspondência e dos manuscritos, alguns ainda inéditos, dos  
últimos anos da vida de Marx” (MUSTO, 2018, p. 18), e a quarta em “examinar as  
concepções de Marx sobre o modo de produção capitalista e o perfil que a sociedade  
comunista poderia assumir” (MUSTO, 2018, p. 19). O presente texto também irá seguir  
a linha temática dessa divisão  
Hic Rhodus, hic salta!”5: a crítica da economia política e o fardo da  
obra magna  
Hic Rhodus, hic salta! [Aqui é Rodes, salta aqui mesmo!]  
Hier ist die Rose, hier tanze! [Aqui está a rosa, dança agora!]”  
Karl Marx, O 18 de Brumário de Luís Bonaparte  
Segundo Musto (2023), “a economia política não foi a primeira paixão  
intelectual de Marx” (p. 27). Assim, antes de entrar nos períodos de foco da presente  
biografia, isto é, a partir de 1857, o autor faz uma breve introdução da formação  
intelectual do autor d’O capital. Musto resgata o Marx redator da Gazeta Renana  
(1842-1843). Nesse momento, ele próprio afirma que foi impelido a se voltar para os  
chamados “interesses materiais” (MARX, 2024, p. 24), ocupando-se, em 1843, de uma  
revisão crítica da Filosofia do direito de Hegel, momento em que “amadureceu a  
convicção de que a sociedade civil era a base real do estado político” (MUSTO, 2023,  
p. 27), e, acrescenta-se, passou por uma virada crucial em seu pensamento: a crítica  
da especulação (cf. CHASIN, 2009). No mesmo ano, Marx, perseguido político da  
monarquia alemã, muda-se para Paris, e foi lá, “após ter entrado em contato com o  
proletariado [parisiense] e ficado impressionado com as considerações contidas no  
artigo de Friedrich Engels, Esboços para uma crítica da economia política (1844)”, que  
ele se volta a estudar criticamente a economia política, o que marca outra mudança da  
maior importância em seu pensamento, justamente a crítica da economia política6, e  
5
“Aqui é Rodes, salta aqui mesmo!”, provérbio latino baseado na fábula O fanfarrão, de Esopo. A  
expressão é utilizada por Marx em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (1852) (cf. MARX, 2011, p. 30)  
e por Hegel no “Prefáciode sua Filosofia do direito.  
6 Opondo-se ao falseamento do tríplice amálgama originário do pensamento marxiano, que enfraquece  
e diminui sua radicalidade e originalidade, tomando-o por uma mera justaposição de pensamentos  
anteriores, J. Chasin (2009) define a formação do pensamento marxiano a partir de três grandes críticas  
ontológicas: a crítica à politicidade (p. 66), inaugurada com o texto Sobre a questão judaica (1843), no  
qual a política deixa de ter um caráter ontopositivo, isto é, perde sua dimensão resolutiva diante dos  
Verinotio  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025 | 405  
nova fase  
   
Ana Carolina Marra de Andrade  
resulta nos fascinantes Manuscritos econômico-filosóficos de 1844 (cf. MUSTO, 2023,  
p. 28).  
O período subsequente é muito fértil em termo de produções, passando desde  
relevantes manuscritos inacabados como A ideologia alemã (1845-1846)7, livros  
publicados, como A miséria da filosofia (1847) e o Manifesto do partido comunista  
(1848), até os artigos jornalísticos da Nova Gazeta Renana: órgão da democracia  
(1848-9). Por perseguições políticas, Marx passou esse período “entre Bruxelas, Paris  
e Colônia” e “peregrinou por Berlim, Viena, Hamburgo e muitas outras cidades alemãs”  
(MUSTO, 2023, p. 29), até, após ordens de Luís Bonaparte, mudar-se para Londres,  
onde iria viver como apátrida até o resto de seus anos (exceto por alguns períodos  
menores em outros países, como na Argélia). Lá, passou por um difícil recomeço: “Os  
primeiros anos do exílio inglês foram marcados pela mais profunda pobreza e por  
doenças, que nessa data provocaram também a dramática perda de três de seus filhos”  
(MUSTO, 2023, p. 29).  
Contudo, Marx manteve uma árdua rotina de estudos, visando a entender “a  
anatomia da sociedade burguesa”, que, em suas palavras, “deve ser procurada na  
economia política” (MARX, 2014, pp. 24-5). Muitos textos e cadernos de notas com  
seus estudos foram redigidos nos anos subsequentes a sua chegada em Londres, mas  
foi em 1857 que, impulsionado pela avassaladora crise financeira8 – a qual, “ao  
contrário das crises anteriores, [...] não começou na Europa, mas nos Estados Unidos  
da América” (MUSTO, 2023, p. 32) –, redigiu os oito cadernos manuscritos de crítica  
da economia política que ficaram conhecidos como Grundrisse (1857-8). São da  
mesma época os Cadernos sobre a crise. Nesses anos, “Marx se propôs a trabalhar em  
dois projetos diferentes ao mesmo tempo: a elaboração de uma obra teórica, dedicada  
à crítica do modo de produção capitalista, e a redação de um livro, mais restrito à  
atualidade, relativo aos desdobramentos da crise em curso” (MUSTO, 2023, p. 34).  
Assim, ele também se dedicava a compilar notícias sobre a crise ao redor do mundo,  
problemas sociais; a crítica à especulação (cf. CHASIN, 2009, p. 72), marcada pela Crítica da filosofia do  
direito de Hegel (1843), em que Marx é capaz de se contrapor à “coisificação da lógica” do sistema  
hegeliano; e a crítica à economia política (cf. CHASIN, 2009, p. 74), inaugurada pelos Manuscritos  
econômico-filosóficos (1844), que marcam um pensamento propriamente marxiano na medida em que  
ela ultrapassa e engloba suas críticas anteriores, pois na “busca da anatomia da sociedade civil [...] as  
categorias da economia política são ontocriticamente elevadas à esfera filosófica, onde esplendem como  
malha categorial da produção e reprodução da vida humana” (CHASIN, 2009, p. 75).  
7 Hoje há um debate em torno da suposta unidade dos manuscritos que compõem A ideologia alemã.  
Para entender mais, cf. Hubmann; Pagel (2022).  
8 Em uma carta a Ferdinand Lassalle, de 21 de dezembro de 1857, Marx explica que “a presente crise  
comercial me estimulou a dedicar-me seriamente à formulação dos traços fundamentais da Economia  
política e, ao mesmo tempo, preparar alguma coisa sobre a atual crise” (MARX in ENGELS; MARX, 2020,  
p. 113).  
Verinotio  
406 |  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025  
nova fase  
   
“Novos rostos de Marx”  
registrando não apenas os eventos econômicos relevantes dos Estados Unidos e da  
Inglaterra, mas de toda a Europa, Índia, China, Egito, Brasil e Austrália (cf. MUSTO,  
2023, p. 35).  
Musto, então, faz uma análise de alguns dos temas que perpassam os  
Grundrisse de Marx. Na “Introduçãode 1857, Marx traz considerações críticas em  
relação ao método da economia política e ao método hegeliano, apresentando sua  
teoria das abstrações9 e condenando o “mito de Robinson Crusoé como paradigma do  
Homo oeconomicus, ou a extensão dos fenômenos típicos da era burguesa a todas as  
outras sociedades que já existiram, inclusive as primitivas”10, de modo que a economia  
política em geral parte do indivíduo isolado, algo que “antes dessa época [...]  
simplesmente não existia” (MUSTO, 2023, p. 37). O restante dos manuscritos é  
dividido em “duas partes: o ‘capítulo do dinheiro’, no qual tratou do dinheiro e do  
valor, e o ‘capítulo do capital’, no qual dedicou centenas de páginas à descrição do  
processo de produção e circulação do capital” (MUSTO, 2023, p. 51). O projeto inicial  
da crítica à economia política era dividido em seis livros: “1. Do capital (contém alguns  
capítulos introdutórios [Vorchapters]). 2. Da propriedade fundiária. 3. Do trabalho  
assalariado. 4. Do estado. 5. Comércio exterior. 6. Mercado mundial” (MARX in  
ENGELS; MARX, 2020, p. 118). Marx abandona esse plano a partir de 1863 (cf. MARX  
in ENGELS; MARX, 2020, p. 97), dando lugar ao projeto dos três livros d’O capital  
como os conhecemos, o qual tampouco foi finalizado, tendo apenas o primeiro livro  
sido publicado em vida.  
O final da década de 1850, apesar de muito produtivo, foi marcado por uma  
situação econômica difícil, na qual ele precisou contar com a ajuda financeira de seu  
amigo, Engels: “A única renda de Marx, além da ajuda que Engels lhe garantia, consistia  
nos pagamentos recebidos do jornal New York Tribune.” (MUSTO, 2023, p. 44) O  
amigo o ajudava, inclusive, redigindo parte dos textos do jornal, para que Marx  
pudesse se dedicar ainda mais à crítica da economia política. Porém, “a pobreza não  
era o único espectro que assombrava Marx. Como na maior parte de sua conturbada  
existência, foi acometido, também nesse período, por múltiplas doenças” (MUSTO,  
2023, p. 45). Nesse momento, Marx passou por dores diversas, inflamações nos olhos  
e problemas hepáticos, a maior parte das enfermidades agravadas pelo regime  
extenuante de trabalho. Contudo, mantinha-se resiliente:  
Se nunca deixou de lutar contra a sociedade burguesa, com igual  
9 Acerca da teoria das abstrações, cf. Assunção (2018).  
10  
Para entender melhor o problema da gênese do capitalismo e as críticas marxianas às  
“robinsonadas” da Economia Política, cf. Heleno (2024).  
Verinotio  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025 | 407  
nova fase  
   
Ana Carolina Marra de Andrade  
constância manteve a consciência de que, nessa batalha, seu principal  
objetivo era forjar a crítica ao modo de produção capitalista. Para  
cumprir essa tarefa, era necessário um estudo muito rigoroso da  
economia política e a análise constante dos eventos contemporâneos.  
(MUSTO, 2023, p. 60)  
Assim, os Grundrisse foram escritos em meio a problemas de saúde, sofrimentos  
e luto por seu sétimo filho com Jenny, que faleceu logo após o nascimento (cf. MUSTO,  
2023, pp. 45-6). Os Grundrisse fizeram parte de um projeto abandonado, o projeto  
da crítica em seis livros, e o resultado publicado de seu trabalho foi a Contribuição à  
crítica da economia política (1859), texto do qual “os Grundrisse foram o laboratório  
inicial” (MUSTO, 2023, p. 61).  
Em 1860, Marx teve que interromper seus estudos de economia política para  
lidar com acusações difamatórias espalhadas por Carl Vogt, então professor de  
Ciências Naturais em Genebra e ex-representante da esquerda na Assembleia Nacional  
de Frankfurt. Vogt vinha sendo tachado como favorável a Luís Bonaparte, e culpou  
Marx por sua reputação. O professor acusou-o de enganar os trabalhadores,  
empurrando o proletariado à destruição, e de se envolver em uma conspiração contra  
ele, além de ser “líder supremo” de um grupo denominado “Gangue do Enxofre” (cf.  
MUSTO, 2023, p. 64). Marx, então, além de processar o jornal por difamação (pedido  
rejeitado pela Real Suprema Corte da Prússia), dedicou-se a fazer um trabalho de crítica  
teórica, que ficou intitulado de Senhor Vogt [Herr Vogt], “um curto-circuito causado  
pelo desejo de destruir o adversário que, com mentiras, ameaçar sua credibilidade e  
tentara manchar sua história política e que, ao mesmo tempo, fizera-o usando de  
charlatanismo literário, algo que Marx desprezava profundamente” (MUSTO, 2023, p.  
69). O texto, contudo, foi um fracasso: além de silenciado pelos próprios jornais,  
acabou entrando na lista de censurados pelo governo alemão.  
Nesse momento, Marx seguia convivendo com seus “inimigos de sempre: a  
miséria e a doença” (MUSTO, 2023, p. 69). Em 1861, via-se novamente cercado de  
dívidas, tendo que penhorar boa parte de seus bens. No ano anterior, sua esposa,  
Jenny, contraíra varíola, e chegou a passar a qual também por um “estado de profunda  
depressão” (MUSTO, 2023, p. 70). Musto ressalta que um acontecimento relevante da  
mesma época foi a leitura de Marx d’A origem das espécies pela seleção natural (1859),  
de Charles Darwin, um livro que marcou sua era11. O Mouro, como lhe chamavam seus  
11 Como explica Maurício Vieira Martins (2024), a relevância da obra de Darwin no pensamento filosófico  
se associa à derrubada definitiva da teoria criacionista: “Foi apenas em 1859, com a publicação  
darwiniana de A origem das espécies e, mais ainda, em 1871, com A descendência do homem que  
o milenar criacionismo teve sua ontologia religiosa consistentemente demolida em bases científicas.”  
(MARTINS, 2024, p. 30)  
Verinotio  
408 |  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025  
nova fase  
 
“Novos rostos de Marx”  
amigos próximos (cf. MUSTO, 2018), foi, então, para a Holanda, onde conseguiu um  
empréstimo de seu tio Lion Philips, o que ajudou a estabilizar sua situação financeira.  
Também visitou clandestinamente a Alemanha, hospedando-se por um mês na casa de  
Ferdinand Lassalle em Berlim, um pensador da esquerda alemã com o qual Marx ainda  
travaria muitos embates teóricos e práticos12. Lá, teve que acompanhar agitados  
compromissos sociais organizados por Lassalle e sua esposa, os quais não  
combinavam com o estilo de vida “eremita” que vivia em Londres. Dessa época é “a  
primeira fotografia conhecida de Marx” (MUSTO, 2023, p. 73). Voltando para a  
Inglaterra em abril, esperava-lhe sua “Economia”.  
Ainda em 1861, logo após a eleição de Abraham Lincoln, eclodiu a Guerra Civil  
Americana (1861-5), ou Guerra de Secessão. Desde a década anterior, Marx trabalhava  
como redator do New York Tribune, e escreveu, além de importantes textos militantes  
enquanto representante da Internacional dos Trabalhadores13, vários artigos  
jornalísticos14 ressaltando as contradições da guerra e seu apoio à “morte da  
escravidão” (cf. MUSTO, 2023, p. 79). Além disso, não deixou de acompanhar, “com  
seu habitual interesse, todos os acontecimentos ligados à Rússia e à Europa Oriental”  
(MUSTO, 2023, p. 81). Em 1863, eclodiu a Revolta de Janeiro na Polônia contra a  
ocupação da Rússia czarista, reprimida com a ajuda da Prússia de Otto von Bismark,  
o que resultou na vitória russa em abril de 1864. Marx se debruçou sobre a questão  
polonesa, posicionando-se contra o massacre e em favor de uma Polônia e de uma  
Alemanha independentes da influência moscovita (cf. MUSTO, 2023, pp. 83-4). Ao  
traçar este itinerário, vemos um Marx militante, interessado na libertação dos povos  
ao redor do mundo. Musto é bem-sucedido em demonstrar como “diante dos grandes  
acontecimentos da história, ocorridos em lugares distantes e diferentes, Marx pôde,  
uma vez mais, compreender o que se passava no mundo e oferecer sua contribuição  
para transformá-lo” (MUSTO, 2023, p. 84).  
A década de 1860 também foi muito frutífera para seus estudos sobre  
economia política, escrevendo, entre agosto de 1861 e junho de 1863, “23 volumosos  
cadernos de anotações dedicados à transformação do dinheiro em capital, ao capital  
comercial e, sobretudo, a diferentes teorias com as quais os economistas explicaram a  
mais-valia” (MUSTO, 2023, p. 85). O projeto, aqui, ainda era o da escrita dos seis  
12 Para entender melhor os embates teóricos e práticos entre Marx e Lassalle, cf. Machado (2022).  
13 Cita-se o Discurso da Associação Internacional dos Trabalhadores ao presidente Johnson (1865) e o  
Discurso ao Sindicato Nacional dos Trabalhadores dos Estados Unidos da América (1869), dentre outros  
(cf. MUSTO, 2023, p. 80).  
14  
A tradução em português desses artigos com outros textos da mesma temática pode ser conferida  
em Escritos sobre a guerra civil americana (cf. ENGELS, MARX, 2020).  
Verinotio  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025 | 409  
nova fase  
     
Ana Carolina Marra de Andrade  
livros, que, notoriamente, é posteriormente abandonado pelo projeto dos três livros.  
Musto faz uma análise desses 23 cadernos e seus temas principais, explicando que  
Marx escreveu, desde uma crítica aos fisiocratas até uma análise das teorias de Adam  
Smith, Germain Garnier, Charles Ganilh, François Quesnay (em especial, seu Quadro  
econômico de 1758), Thomas Malthus, James Mill, Samuel Bailey, John Stuart Mill,  
Johann Rodbertus, David Ricardo, e muitos outros.  
Porém, o biógrafo explica que esta fase também foi marcada por uma série de  
intempéries e sofrimentos de nível pessoal, físico e financeiro. Em 1862, em razão da  
Guerra Civil, o jornal New York Tribune passava por uma crise financeira e precisou  
abdicar dos colaboradores estrangeiros, de modo que “o último artigo de Marx para  
o jornal estadunidense foi publicado em 10 de março de 1862” (MUSTO, 2023, p.  
87), e o filósofo renano perdia o que era “desde o verão de 1851, sua principal fonte  
de renda” (MUSTO, 2023, p. 87), o que novamente colocou um entrave em seus  
estudos econômicos. Marx, entretanto, “não abdicou dos estudos e dedicou-se a uma  
nova área de pesquisa: as teorias da mais-valia (1862-1863)” (MUSTO, 2023, p. 87),  
redigindo seus famosos manuscritos com este nome, que também ficaram  
posteriormente conhecidos como o “Livro IV d’O capital”, apesar de ser vinculado ao  
projeto da obra original, e não ao projeto dos três livros posteriores, mas guardando  
semelhanças estruturais com o Livro III redigido entre 1864-5 (cf. MUSTO, 2023, p.  
104).  
Afetado, ainda que brevemente, por novos problemas oculares e hepáticos, e  
sofrendo com o aprofundamento de sua preocupante condição financeira, em 1863,  
Marx teve que passar alguns períodos afastado dos estudos de economia política.  
Dedicou-se por um tempo à maquinaria, chegando a fazer um curso prático  
experimental, e estudou bastante a questão da Polônia, que enfrentava desafios  
diplomáticos com a Prússia. O Mouro, contudo, não parou completamente seus  
trabalhos, e durante esse ano redigiu os cadernos XX-XXIII e chegou a compilar “oito  
cadernos suplementares [...] contendo cerca de 600 páginas de resumos econômicos  
dos séculos XVIII e XIX e retirados de mais de 100 volumes” (MUSTO, 2023, p. 96)  
Foi a partir de 1863 que Marx deu início à redação d’O capital:  
Nesse período, de fato, ele seguiu uma ordem: o primeiro rascunho  
do Livro I; o único manuscrito do Livro III, no qual encontramos a única  
exposição de Marx sobre o processo geral da produção capitalista; e  
a versão inicial do Livro II, que contém a primeira representação geral  
do processo de circulação do capital. (MUSTO, 2023, p. 97)  
Porém, o marco da escrita de sua grande obra foi também o começo de seus  
carbúnculos, “o que sua esposa Jenny chamou de ‘a doença terrível’, contra a qual  
Verinotio  
410 |  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025  
nova fase  
“Novos rostos de Marx”  
Marx lutaria por muitos anos de sua vida” (MUSTO, 2023, p. 97). Musto demonstra a  
partir das diversas cartas e rascunhos como essa doença estava diretamente associada  
com o fardo de redigir a crítica da economia política quanto mais Marx trabalhava  
em seu projeto, mais os furúnculos se proliferavam. O próprio Mouro admitiu a Engels:  
“a minha doença vem sempre da cabeça” (MARX apud MUSTO, 2023, p. 117). Assim,  
O capital foi escrito entre problemas físicos desconcertantes e problemas econômicos  
oscilantes, com alguns alívios financeiros intermitentes, como uma inesperada e infeliz  
porém conveniente herança do amigo Wilhelm Wolff em 1863, que lhe  
proporcionou uma condição estável até aproximadamente meados de 1865, e os  
muitos auxílios monetários periodicamente concedidos por seu amigo Engels.  
Marx alternava entre os livros durante sua escrita d’O capital, escrevia, por  
exemplo, alguns capítulos do Livro III, e depois focava no Livro II etc. Apesar de  
continuar tomado pelos furúnculos, seguiu avidamente dedicado ao seu projeto,  
especialmente após, em março de 1865, assinar o contrato para a publicação da obra  
até o final do ano, prazo que teve que ser postergado algumas vezes a publicação  
de fato ocorreu apenas em 1867. Mesmo com os percalços, Marx estudava e escrevia  
cotidianamente por longas horas, nunca deixando de lado seus deveres na Associação  
Internacional dos Trabalhadores (AIT) que realizou sua primeira conferência em  
setembro de 1865, em Londres (cf. MUSTO, 2023, p. 104).  
Nessa época, como Engels vivia em Manchester e Marx em Londres, temos uma  
longa troca de cartas entre os amigos que permitiu ao biógrafo entender com certos  
detalhes a situação do filósofo renano. Musto explica que já “no início de 1866, Marx  
deu início a um rascunho do Livro I d’O capital”, contudo, “contrariando suas previsões,  
[...] o ano inteiro foi passado na luta contra os carbúnculos e com o agravamento de  
seu estado de saúde” (MUSTO, 2023, p. 105). Em geral, o excesso de trabalho  
agravava penosamente a condição de Marx, que não abandonou suas obrigações na  
AIT, e “não obstante a tão grave e dolorosa condição os pensamentos de Marx  
continuaram voltados, principalmente, para a conclusão de sua obra” (MUSTO, 2023,  
p. 106), trabalhou até ser forçado, por seu próprio corpo, a tirar alguns meses de  
descanso, sob pena de ocorrer-lhe o pior (cf. MUSTO, 2023, p. 109).  
Os problemas físicos, as eventuais complicações de sua situação econômica, e  
sua “permanente curiosidade intelectual” (MUSTO, 2023, p. 110) que só aumentava o  
tamanho de seu projeto, seguiram sendo fatores responsáveis pelo adiamento da  
publicação d’O capital. Porém, em abril de 1867, a “tão esperada notícia” chegou: o  
livro estava pronto (cf. MUSTO, 2023, p. 113), e, com isso, a saúde de Marx também  
melhorou (MUSTO, 2023, pp. 113-4). No “Prefácioda primeira edição, o próprio Marx  
Verinotio  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025 | 411  
nova fase  
Ana Carolina Marra de Andrade  
admite: “A obra, cujo primeiro volume apresento ao público, é a continuação de meu  
escrito Contribuição à crítica da economia política, publicado em 1859. A longa pausa  
entre começo e continuação se deve a uma enfermidade que me acometeu por muitos  
anos e interrompeu repetidas vezes meu trabalho.” (MARX, 2017, p. 77)  
Marx foi a Hamburgo, cidade da editora, e depois passou cerca de um mês em  
Hanover na casa do amigo Ludwig Kugelmann. Musto analisa os relatos próximos de  
sua esposa, Franziska Kugelmann, em que descreve uma personalidade alegre e  
agradável do Mouro (cf. MUSTO, 2023, p. 114). O texto a ser publicado foi revisado  
por Engels, que sugeriu mudanças substanciais na forma da escrita e na estrutura do  
texto. Marx revisou seus rascunhos e, então, “O capital foi colocado à venda, com 14  
mil exemplares, em setembro de 1867” (MUSTO, 2023, p. 116). Ainda assim, “nos  
anos seguintes a estrutura da obra seria ampliada e várias alterações também seriam  
feitas no texto” (p. 117).  
Entre instabilidades de saúde, tanto relacionada MUSTO, 2023, com os  
furúnculos quanto com problemas hepáticos, o Mouro seguia pesquisando e  
escrevendo a crítica da economia política. O objetivo era, agora, concluir o Livro II.  
Entre seus estudos, Musto destaca comentários de Marx sobre livros de história e  
agricultura que leu em 1868, incluindo considerações vanguardistas sobre ecologia  
que datam dessa época. Além disso, o autor considera, a partir de uma análise das  
correspondências, que é possível entender que Marx supera a noção da lei da queda  
tendencial da taxa de lucro após 1868:  
Data de fins de abril de 1868 a carta enviada a Engels na qual Marx  
traçava um novo esboço da sua obra, com particular referência ao  
“desenvolvimento, nas suas características muito gerais [...] da taxa de  
lucro”. Foi a última vez em que se referiu, em sua correspondência, à  
lei da queda tendencial da taxa de lucro. Apesar da grande crise  
econômica que se desenvolveu a partir de 1873, esse conceito, tão  
enfatizado posteriormente ao qual é dedicada toda a terceira seção  
do Livro III d'O capital (que foi escrito em 1864-1865) , nunca mais  
foi mencionado por Marx e foi considerado superado. (MUSTO, 2023,  
p. 119)  
Assim, 1868 marca a última menção da lei da queda tendencial da taxa de  
lucro, o que sustenta o argumento de que ele seria superado15. Essa é a posição de  
outros autores vinculados à Mega2, em especial Michael Heinrich (2013), que não  
apenas critica tal lei marxiana como sustenta que o próprio Marx teria a revisado ainda  
15 Leonardo Gomes de Deus, Bovick Wandja Yemba e Lucien André Regnault Marques (2018) apontam  
que esse é um dos grandes debates da contemporaneidade, analisando suas principais vertentes.  
Verinotio  
412 |  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025  
nova fase  
 
“Novos rostos de Marx”  
em vida16, contudo, essa concepção não é consensual dentro da tradição marxista17,  
até mesmo porque o próprio Marx nunca afirmou propriamente o abandono dessa  
concepção. Outro grande acontecimento da vida de Marx na mesma época é que, em  
1869, em razão de seu estudo da questão agrária e “depois de tomar conhecimento  
da nova e nada desprezível literatura que analisava as mudanças ocorridas na Rússia”  
(MUSTO, 2023, p. 120), dedicou-se avidamente ao estudo da língua russa, como se  
16  
Para Michael Heinrich (2013), “as mudanças mais importantes ocorreram enquanto Marx trabalhava  
no terceiro rascunho (1871-81). Presumivelmente, Marx estava atormentado por dúvidas consideráveis  
sobre a lei da taxa de lucro. Já no Manuscrito de 1863-5, Marx não estava completamente convencido  
com sua explicação, como fica claro pelas repetidas tentativas de formular uma justificativa. Essas  
dúvidas provavelmente se amplificaram ao longo da década de 1870. Em 1875, surge um manuscrito  
abrangente que foi publicado pela primeira vez sob o título “Tratamento matemático da taxa de mais-  
valia e da taxa de lucro”. Aqui, sob várias condições de contorno e com muitos exemplos numéricos,  
Marx tenta compreender matematicamente a relação entre a taxa de mais-valia e a taxa de lucro. A  
intenção é demonstrar as “leis” do “movimento da taxa de lucro”, através do qual rapidamente se torna  
evidente que, em princípio, todos os tipos de movimento são possíveis. Várias vezes, Marx observa as  
possibilidades de aumento da taxa de lucro, embora a composição do valor do capital estivesse  
aumentando. No caso de uma composição renovada do Livro III, todas essas considerações teriam que  
ser incluídas em uma revisão do capítulo sobre a “lei da queda tendencial da taxa de lucro”. Uma  
consideração consistente sobre elas deveria ter levado ao abandono da “lei”. Marx também sugere isso  
em uma nota manuscrita que fez em sua cópia da segunda edição do Volume I, que não se encaixa mais  
na queda tendencial e que Engels incorporou como nota de rodapé na terceira e quarta edições (numa  
tradução livre): “Nota aqui para trabalhar mais tarde: se a extensão for apenas quantitativa, então, para  
um capital maior e um menor no mesmo ramo de atividade, os lucros são proporcionais às magnitudes  
dos capitais avançados. Se a extensão quantitativa induzir uma mudança qualitativa, então a taxa de  
lucro sobre o capital maior aumenta ao mesmo tempo.”  
17  
A discussão acerca da lei da queda tendencial da taxa de lucro acompanha a história de recepção  
d’O capital. Leonardo Costa Ribeiro, Leonardo Gomes de Deus, Pedro Mendes Loureiro e Eduardo da  
Motta Albuquerque (2017) fazem um mapeamento de alguns dos debates envolvendo a lei da queda  
tendencial da taxa de lucro tanto nos textos do Marx quanto a partir de suas repercussões na tradição  
marxista. Ainda que a elaboração marxiana seja de fato autêntica, um debate sobre a tendência da  
queda da taxa de lucro (e suas contratendências) remonta à economia política clássica, estando presente  
em autores como Smith, Ricardo e Mill. Já as críticas à lei como elaborada por Marx remontam, dentre  
outros, a Paul Sweezy (1942), Nobuo Okishio (1961), e, mais recentemente, a uma nova tendência  
encabeçada por Heinrich, que nasceu do trabalho filológico da Mega2, que inaugurou novas  
perspectivas sobre o Livro III d’O capital. Boa parte do argumento dessa tendência, como vimos, gira  
em torno de Marx não mais ter abordado a lei da queda tendencial da taxa de lucro após seus  
manuscritos de 1863-5. Contudo, Ribeiro et al. (2017) trazem o manuscrito de Marx de 1875, Taxa de  
mais valor e de taxa de lucro consideradas matematicamente, no qual remete-se à lei em questão, leia-  
se: “Ao considerar a taxa de lucro – distinta da taxa de mais-valor , partimos de um determinado  
capital, com uma determinada composição e uma determinada taxa de valorização. Em seguida,  
deixamos que ele passe por uma série de mudanças possíveis que produzem alterações na taxa de  
lucro, que é, em última análise, uma função de diferentes variáveis, e encontramos as leis que  
determinam o aumento, a queda ou a constância da taxa de lucro, em uma palavra, as leis de seu  
movimento. As leis descobertas dessa maneira são válidas para o capital social, considerado como um  
único capital, portanto, para a taxa de lucro considerada como uma proporção entre o capital social em  
funcionamento e o mais-valor por ele produzido (MEGA II.14, p. 128)” (MARX apud RIBEIRO et al., 2017,  
pp. 5-6 tradução livre). Assim, para os autores, Marx não abandonou sua perspectiva anterior sobre  
a lei da queda tendencial da taxa de lucro e suas contratendências, o que, ademais, também implicaria  
mudanças com relação a outros temas também tratados em seu Livro I. Para eles: “Em outras palavras,  
no final de sua trajetória, Marx não abandonou sua perspectiva, pois isso implicaria abandonar também  
a perspectiva do Volume I. As leis que regem a taxa de lucro são outra maneira de abordar as leis  
descritas no processo de acumulação no volume I. Se descrevermos as leis da composição do capital,  
da concorrência e do mais-valor, encontraremos a lei da queda tendencial da taxa de lucro. No entanto,  
como ‘leis do movimento’, elas não são inevitáveis, nunca fazem parte de uma teoria do colapso do  
capitalismo. A lei descreve um processo da sociedade capitalista que, como Marx sabia, é contraditório  
e, portanto, deve incluir as contratendências como elemento-chave.” (RIBEIRO et al., 2017, p. 6 –  
tradução livre)  
Verinotio  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025 | 413  
nova fase  
   
Ana Carolina Marra de Andrade  
fosse, nas palavras de sua esposa, “uma questão de vida ou morte” (LONGUET apud  
MUSTO, 2023, p. 120).  
Musto apresenta um Marx nada dogmático, mesmo diante de seu magnum opus:  
em 1872, finalmente foi publicada uma reimpressão do Livro I d’O capital, com sua  
estrutura inteiramente reformulada. Apenas em 1875 foi publicada a tradução  
francesa, que foi quase uma nova edição, pois o próprio Marx não apenas corrigiu,  
mas “reescreveu passagens” e páginas inteiras “para tornar palatável ao público  
francês” (MARX apud MUSTO, 2023, p. 122), aproveitando para fazer retificações e  
mudanças (cf. MUSTO, 2023, pp. 123; 203). É notório que os rascunhos do Livro II  
foram deixados incompletos, e os do Livro III, também, além de possivelmente  
desatualizados. Contudo, nem mesmo o Livro I, Marx, em seu perfeccionismo,  
considerou completo: “nem a tradução francesa, de 1872-1875, nem a terceira edição  
alemã, de 1881, podem ser consideradas como a versão definitiva que estava em suas  
aspirações” (MUSTO, 2023, p. 124).  
O “filósofo” preocupado em mudar o mundo: da militância na  
Internacional até o trabalho do “último Marx”  
Explicitados alguns dos principais acontecimentos da elaboração e publicação  
da crítica da economia política marxiana, a segunda parte da biografia reflete  
particularmente acerca da militância política de Marx, em especial na Associação  
Internacional dos Trabalhadores (AIT), na luta pela libertação irlandesa, e em torno da  
Comuna de Paris. Marx, apesar de não ser um dos fundadores da AIT (cf. MUSTO,  
2023, p. 131), foi um de seus principais membros e articuladores, chegando a liderar  
uma de suas correntes majoritárias. Musto analisa a organização desde sua gênese a  
partir de diversos documentos da época desde a assembleia de fundação, em 1864  
em Londres. As principais correntes na fundação eram: o sindicalismo inglês; o  
mutualismo francês, seguidores de Pierre-Joseph Proudhon; os comunistas, liderados  
por Marx, inicialmente minoritários; e alguns outros grupos ainda menores (cf. MUSTO,  
2023, pp. 129-30). Proudhon já havia sido alvo de numerosas críticas de Marx e de  
Engels na obra Miséria da filosofia, de 1847, resposta à Filosofia da miséria do  
pensador francês (cf. ENGELS; MARX, 2017), e seria um de seus principais opositores  
políticos nos anos subsequentes na AIT, sobretudo por sua força hegemônica entre os  
membros da França, da Suíça francófona, Valônia e Bruxelas (cf. MUSTO, 2023, p.  
146).  
A Alemanha não possuía representantes na AIT, até mesmo em razão da censura  
e perseguição política que o país sofria na época, mas a Associação Geral dos  
Verinotio  
414 |  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025  
nova fase  
“Novos rostos de Marx”  
Trabalhadores Alemães (AGT) girava em sua órbita. A AGT era uma organização  
fundada e liderada por Ferdinand Lassalle, que, contudo, “seguiu um diálogo ambíguo  
com Otto von Bismarck e perdeu interesse pela Internacional durante os primeiros  
anos de sua existência” (MUSTO, 2023, p. 138). Lassalle e sua relação com a  
monarquia alemã foram profundamente criticados por Marx ao longo de sua vida, seja  
por meio de cartas (cf. MUSTO, 2023, p. 150), ou, na década de 1870, na célebre  
Crítica do Programa de Gotha (1975) (cf. MARX, 2012), redigida como resposta ao  
manifesto de unificação da AGT com o Partido Social-Democrata dos Trabalhadores,  
movimento vinculado a Marx na Alemanha (cf. MUSTO, 2023, pp. 204-5).  
A organização era diversa, e Marx cumpria um relevante papel na agregação  
dos diferentes grupos, mesmo sem poupá-los de suas críticas. Para Musto, “a sua  
habilidade política permitiu-lhe conciliar o que parecia irreconciliável e garantiu um  
futuro à Internacional que, sem o seu protagonismo, teria partilhado o mesmo rápido  
esquecimento de todas as outras numerosas associações operárias que a precederam”,  
de modo que “foi ele quem criou um programa político não excludente, mas  
firmemente classista, garantindo uma organização que aspirava ser de massas e não  
sectária” (MUSTO, 2023, p. 131). O protagonismo do autor d’O capital foi crescendo  
dentro da organização. Muitos membros se identificavam com o modo através do qual  
ele expressava claramente seu projeto comunista e ressaltava que a organização não  
deveria se preocupar com a disputa de eleições: “não podemos nos tornar o trampolim  
de mesquinhas ambições parlamentares” (MARX apud MUSTO, 2023, p. 133)18, mas  
sem abandonar, como os seguidores de Proudhon, a perspectiva das conquistas  
concretas, como a legislação pela redução da jornada de trabalho. No primeiro  
congresso da AIT, em 1866 em Genebra, a linha vinculada a Marx era majoritária, e  
sua maior oposição era composta pelos mutualistas franceses, que acabaram perdendo  
no resultado geral (cf. MUSTO, 2023, pp. 141-2).  
Com o tempo, o mutualismo foi perdendo força. Este foi um resultado de uma  
firme disputa política de Marx, mas, conforme Musto, “mais ainda do que Marx, foram  
18 Essa concepção do papel da política em Marx foi posteriormente denominada pelo filósofo brasileiro  
José Chasin de concepção ontonegativa da politicidade. Essa concepção é identificada como uma noção  
fundante do pensamento marxiano a partir de 1843, notadamente em Sobre a questão judaica,  
momento no qual Marx “vai da sustentação ardorosa do estado universal, racionalmente posto, à  
negação radical de sua possibilidade, e não por mero recurso a algum volteio cético, mas pela  
emergência de um complexo determinativo que se afirma como reprodução ideal do efetivamente real,  
ou seja, pela via da crítica ontológica à mais elevada expressão, à época, da reflexão política” (CHASIN,  
2013, p. 46). O reconhecimento da incapacidade da politicidade de resolver a miséria social, isto é, de  
seu caráter essencialmente negativo, não é um abandono da esfera da política ou mesmo da luta por  
direitos, mas o reconhecimento de que a verdadeira emancipação humana não é a emancipação política,  
mas a emancipação do homem da política com a dissolução da sociedade civil-burguesa (cf. MARX,  
2010). Assim, resumidamente, o fim último da política não deve ser ela própria, isto é, por exemplo, a  
ocupação de um cargo eleitoral, mas remeter para além de si mesma, para a emancipação humana.  
Verinotio  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025 | 415  
nova fase  
 
Ana Carolina Marra de Andrade  
os próprios trabalhadores que tornaram a doutrina proudhoniana marginal na  
Internacional” (MUSTO, 2023, p. 147), pois, pelo aumento das greves, da luta por  
direitos, e da mobilização do movimento operário em geral, as teses mutualistas  
pareciam cada vez mais desconectados da luta concreta dos trabalhadores. Ao analisar  
os documentos do Congresso de Bruxelas de 1868, Musto destaca que pela primeira  
vez a AIT se posicionou claramente sobre a necessidade de socialização dos meios de  
produção por meio da utilização do poder público (cf. MUSTO, 2023, p. 148), uma  
grande derrota para os mutualistas.  
Não obstante, o congresso marcaria o início da virada coletivista da  
organização. Contando com a participação do russo Mikhail Bakunin, então membro  
da Aliança Social-Democrata, com o tempo Marx foi “confrontado com um rival ainda  
mais duro, um adversário que formava uma nova tendência o anarquismo coletivista  
no seio da organização e que pretendia conquistá-la” (MUSTO, 2023, p. 153). Musto  
descreve: “Em suma, Bakunin queria transformar a Internacional em uma organização  
controlada por ele, ‘por meio da infiltração desta [a Aliança Social Democrata]  
sociedade secreta’. Marx denunciou este objetivo e abriu-se um conflito sem limites  
entre os dois.” (MUSTO, 2023, p. 162)  
No interior do cenário político dos anos 1860 e 70, Marx foi um grande defensor da  
união internacional dos trabalhadores e da libertação dos povos em geral. Em  
inúmeros textos e cartas, Marx denuncia a burguesia inglesa por antagonizar seus  
proletários ao proletariado irlandês para favorecer seu domínio classista, defendendo  
em 1870 que “o golpe decisivo contra as classes dominantes na Inglaterra (e que será  
decisivo para o movimento operário mundial) só pode ser desferido na Irlanda e não  
na Inglaterra” (MARX apud MUSTO, 2023, p. 158). Marx foi redator da Primeira e da  
Segunda Mensagem do Conselho Geral sobre a Guerra franco-prussiana, guerra a  
qual eclodiu em 1870 e terminou em 71 com a derrota francesa, posicionando-se  
fortemente contra Luís Bonaparte19, mas também contra a Prússia, em prol da uma  
união proletária pela paz, e expressando seus medos com relação aos frutos futuros  
da guerra (cf. MUSTO, 2023, pp. 164-5).  
Em março de 1871, eclodiu um dos eventos mais relevantes do século, a  
Comuna de Paris, a qual, apesar do “papel desempenhado pelos dirigentes da  
Internacional” estava, contudo, “nas mãos da ala jacobino-radical” (MUSTO, 2023, p.  
170). Dois dias após sua violenta repressão, em maio, Marx “regressou ao Conselho  
19 Observa-se que Marx já havia escrito, entre 1848 e 1850, artigos sobre Luís Bonaparte e a situação  
francesa, publicados na Nova Gazeta Renana. Esses textos foram republicados por Engels, em 1895,  
em um compilado intitulado As lutas de classes na França de 1848 a 1850. Além disso, em 1852, Marx  
publicou na revista Die Revolution o ensaio O 18 de Brumário de Luís Bonaparte.  
Verinotio  
416 |  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025  
nova fase  
 
“Novos rostos de Marx”  
Geral e trouxe consigo um manuscrito intitulado A guerra civil na França (1871)”  
(MUSTO, 2023, p. 168), que também foi aprovado e publicado em nome do Conselho  
Geral da AIT, e reflete a postura ao mesmo tempo de exaltação da coragem dos  
communards e reconhecimento de sua relevância histórica, mas também de crítica a  
um movimento “que estava condenado à derrota” (MUSTO, 2023, p. 166).  
Com o fim da Comuna, os países europeus em geral se tornaram mais  
repressivos com os movimentos de oposição, e a AIT, independente de não ter tido  
parte na direção do movimento de Paris, passou a ser demonizada, juntamente com  
seus dirigentes. Marx afirmou, com tons irônicos, que teve a “honra de ser o homem  
mais caluniado e mais ameaçado de Londres” (MARX apud MUSTO, 2023, p. 171).  
Assim, a tarefa do Mouro na organização agora era dupla: ao mesmo tempo “defender  
a Internacional do ataque de forças hostis e colocar por terra a influência crescente de  
Bakunin” (MUSTO, 2023, p. 171), e ele não conteve esforços para sanar, na mídia e  
nos encontros políticos, ambas ameaças. Na conferência de Londres de 1871, a AIT  
publicou uma resolução que definia o partido político (em sentidos muito distintos e  
mais amplos do que entendemos hoje)20 como um “instrumento fundamental da luta  
do movimento operário” (MUSTO, 2023, p. 174), o que foi muito mal visto pelos  
comunitaristas. Em razão de sua má recepção entre os apoiadores de Bakunin, Musto  
diagnostica a resolução como um “erro de avaliação cometido por Marx que acelerou  
a crise da internacional” (MUSTO, 2023, p. 177). Fato é que a conferência marcou o  
início de um período desfavorável à ala comunista.  
Os conflitos se aprofundaram de tal modo que, no ano seguinte, o V Congresso  
Geral da Internacional, em Haia, no qual Marx e Engels estavam presentes, marcaria o  
fim da organização, ao menos nos moldes de sua fundação em 1864. Com receio de  
a organização ser tomada por representantes de uma “seita sectária” e  
“abstencionista” comandada por Bakunin, foi votada a transferência da sede do  
Conselho Geral para Nova York, defendida também por Marx e por Engels, decisão  
que venceu por poucos votos, muito criticada não apenas pelos comunitaristas, mas  
também pelos blanquistas, que “abandonaram o congresso e, pouco depois, também  
a Internacional” (MUSTO, 2023, p. 186). Contudo, o evento acabou sendo, nas palavras  
de Musto, uma “vitória de Pirro” para Marx, pois, na verdade “agravou  
20 Nota-se que é anacrônico transpor, aqui, a definição de partido no sentido de partido político atual,  
sendo mais associada à organização geral da classe. Musto ressalta: “Convém sublinhar que, nessa  
época, a noção de partido político tinha um significado muito mais amplo do que aquele que se  
consolidou no século XX, e que a concepção de Marx era radicalmente diferente tanto da blanquista,  
com a qual acabou por entrar em conflito, como da leninista, mais tarde implantada em muitas  
organizações comunistas após a revolução de outubro.” (2023, pp. 174-5)  
Verinotio  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025 | 417  
nova fase  
 
Ana Carolina Marra de Andrade  
significativamente a crise da organização” (MUSTO, 2023, p. 188), e acelerou sua  
dissolução. Após sua transferência, “a Internacional foi substituída por dois  
agrupamentos de forças muito pequenos” e “sem capacidade de planejamento e  
ambição política”, os “centralistas” e os “autonomistas” ou “federalistas” (MUSTO,  
2023, p. 194), ambos os quais rapidamente foram extintos.  
À luz deste embate, Musto analisa decisões da Internacional e outros textos em  
que Marx e Engels se contrapõem ao revolucionário russo, e vice-versa, notadamente  
As chamadas cisões na Internacional (1872) de Marx e Engels; Excertos e comentários  
críticos ao “Estado e anarquia” de Bakunin (1875) de Marx; a Carta ao La Liberté de  
Bruxelas (1872) de Bakunin, e Estado e anarquia (1873), a única obra completa do  
russo. Contudo, é importante frisar que o biógrafo critica a tese de que o fim da  
Internacional se deu apenas pelos conflitos internos, ou pior, a que personifica tais  
conflitos, alegando que derivou de uma disputa pessoal entre Marx e Bakunin. A  
derrocada da organização deve ser entendida à luz de seu contexto histórico, das  
determinações objetivas dos elementos econômicos e sociais que a engendraram:  
A tese, sugerida por numerosos acadêmicos, de que foi o conflito  
entre as suas duas correntes ou, o que é ainda mais improvável, o  
conflito entre dois homens, ainda que do calibre de Marx e Bakunin,  
que determinou o declínio da Internacional, não parece convincente.  
As razões de seu fim devem ser procuradas em outro lugar. O que  
tornou a Internacional obsoleta foram, acima de tudo, as grandes  
mudanças que ocorreram fora dela. O crescimento e a transformação  
das organizações do movimento operário, o reforço dos estados-  
nação com a unificação nacional da Itália e da Alemanha, a expansão  
da Internacional em países como Espanha e a Itália, caracterizados por  
condições econômicas e sociais profundamente diferentes das da  
Inglaterra e da França, onde a associação nasceu, a definitiva guinada  
à moderação do sindicalismo inglês e a repressão que se seguiu à  
queda da Comuna de Paris, tudo isto agiu conjuntamente para tornar  
a configuração original da Internacional inadequada às novas  
condições históricas. (MUSTO, 2023, p. 187)  
Fato é que o fim da Internacional em 1872 foi também o fim de uma era muito  
relevante para Marx. A organização devia muito a ele, que foi por alguns anos um de  
seus principais líderes, e ele à organização, que também ajudou a popularizar suas  
teorias entre os trabalhadores. A data é também um marco da sua última década, dado  
seu falecimento em março de 1883.  
Entre seus recorrentes problemas de saúde, que não cessavam, na década de  
1870, especificamente entre 1872-75, Marx também se ocupava com a tradução –  
ou, melhor dizendo, edição – francesa do Livro I d’O capital, que consistiu em uma  
revisão crítica com mudanças e acréscimos em toda a obra. Outros textos relevantes  
da mesma época são um manuscrito para o Livro III, A relação entre a taxa de mais-  
valia e a taxa de lucro desenvolvida matematicamente (1875), e a Crítica do Programa  
Verinotio  
418 |  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025  
nova fase  
“Novos rostos de Marx”  
de Gotha (1875) sobre a unificação dos partidos socialistas na Alemanha. Além disso,  
desde 1869 o autor aprendia russo e não deixava de pesquisar sobre as mudanças  
sociais que ocorriam no país, recebendo uma série de livros e publicações de seu  
amigo e economista russo, posteriormente tradutor d’O capital, Nicolai Danielson. Em  
1875, na Alemanha, travou amizade com o historiador russo Maksim Kovalevsky, com  
quem também trocou obras e correspondências até o final de sua vida (cf. MUSTO,  
2023, pp. 206-7). Os livros teóricos lidos por Marx sem contar com as muitas obras  
de literatura que conhecia eram, em geral, tão diversos quanto seus interesses, não  
se limitando à história ou economia política. Na época passaram, por exemplo, desde  
fisiologia e botânica até formas de propriedade coletiva (cf. MUSTO, 2023, pp. 208-  
9).  
Com o advento da Guerra Russo-Turca (1877-1878), Marx se ocupou em  
estudar o que era chamado em sua época de “questão oriental” e o papel da  
reacionária Rússia tsarista, que, contudo, passava por seus próprios conflitos sociais  
internos após a (segundo Marx, lamentável) vitória de Alexandre II (cf. MUSTO, 2023,  
pp. 210-1). Na Alemanha, apesar de o Partido Socialista dos Trabalhadores da  
Alemanha (PSTA) estar se expandindo, a situação era preocupante, pois ele era cada  
vez mais dominado por tendências conflitantes com os interesses da classe  
trabalhadora. Esse foi um dos motivos que levou Marx a escrever o décimo capítulo  
da obra de Engels Anti-Dühring, contra o professor e intelectual socialista alemão (cf.  
MUSTO, 2023, p. 212) cujos apoiadores cresciam dentro do PSTA. Sobre a conjuntura  
alemã, o autor d’O capital também viu de modo negativo a tentativa do anarquista  
Karl Eduard Nobiling de assassinar o Rei Wilhelm I, resultado de uma leitura “tola” do  
contexto social que apenas acarretou no aumento das perseguições aos socialistas no  
país (cf. MUSTO, 2023, pp. 214-5). Ele entendia que os anarquistas do partido, ao  
contrário da massa de operários que o compunham, eram “um esboço da juventude  
sem problemas que quer fazer história e apenas demonstra como as ideias do  
socialismo francês [podem] se tornar uma caricatura de homens degradados de classes  
superiores” (MARX apud MUSTO, 2023, p. 215). De outro lado, Marx também temia o  
avanço da “ralé do socialismo de cátedra” (MARX apud MUSTO, 2023, p. 217),  
socialistas de estado que dominavam as universidades alemãs, como Adolph Wagner  
(cf. MUSTO, 2023, p. 234).  
O principal projeto de Marx ainda continuava ativo: “Entre 1877 e 1881, Marx  
redigiu novas versões de várias partes do Livro II d’O capital.” (MUSTO, 2023, p. 218)  
Entre problemas pessoais (dentre eles, o falecimento da segunda esposa de Engels em  
1878) e de saúde, dedicou-se a estudar livros sobre comércio, capital financeiro,  
Verinotio  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025 | 419  
nova fase  
Ana Carolina Marra de Andrade  
bancário, e circulação de capital em geral (cf. MUSTO, 2023, pp. 218-20).  
Paralelamente, estudava sobre “os desenvolvimentos econômicos da Rússia e dos  
Estados Unidos” (MUSTO, 2023, p. 220), chegando a afirmar que “o campo mais  
interessante para os economistas, est[ava], sem dúvida, nos Estados Unidos” (MARX  
apud MUSTO, 2023, p. 221).  
Os próprios estudos para o Livro II o levaram a, em 1878, focar em “geologia,  
mineralogia e química agrária” (MUSTO, 2023, p. 221), visando sobretudo a aumentar  
seu conhecimento sobre renda da terra (cf. MUSTO, 2023, p. 222). Não obstante a  
continuidade de seus trabalhos, o prazo para a finalização do segundo livro estava em  
suspenso, o que justificou, em uma carta para Danielson, em razão de: (1) poder  
“esperar até que a crise industrial na Inglaterra atingisse seu ponto mais alto”, (2)  
precisar estudar melhor o material que havia recebido sobre a Rússia e os Estados  
Unidos; e (3) ordens médicas para reduzir seu tempo de trabalho (cf. MUSTO, 2023,  
pp. 225-6).  
O ano de 1879 é marcado por estudos sobre Ciências naturais, química, física,  
fisiologia e geologia (cf. MUSTO, 2023, p. 229), dos quais, como sempre, tomava notas  
em seus cadernos pessoais. Em setembro, dedicou-se ao livro A propriedade comum  
da terra… (1879) de seu amigo e correspondente, Kovalevsky, que lhe fora enviado  
pelo próprio autor. Dele, tomou extratos nos quais “resumiu as diferentes maneiras  
pelas quais os colonizadores espanhóis na América Latina, os ingleses na Índia e os  
franceses na Argélia haviam regulamentado os direitos de posse” (p. 229), passando  
“formas de propriedade da terra existentes entre as civilizações pré-colombianas”  
(MUSTO, 2023, p. 229). Ademais, dedicou-se extensivamente a tomar notas referentes  
à colonização inglesa na Índia, que compõem mais da metade de seus excertos sobre  
o autor russo. Entre 1879-80, decidiu organizar uma cronologia da história indiana,  
as Notas sobre a história da índia (664-1858), baseada em diversos autores com os  
quais teve contato ao longo de sua vida, o que aponta um claro interesse do autor na  
região. Nesse período, Marx também se voltou a estudar textos sobre as comunidades  
indígenas e a economia na Austrália, resultado de seu interesse geral em entender a  
realidade das colônias inglesas. São da mesma época as Glosas marginais do Tratado  
de economia política de Wagner (1880), nas quais critica veementemente seu chamado  
“socialismo de estado” (cf. MUSTO, 2023, pp. 233-5).  
Em 1880, Marx acompanhava de perto a emergência da Federação do Partido  
Socialista dos Trabalhadores da França (FPTSF), redigindo o Programa eleitoral dos  
trabalhadores socialistas (1880), com Lafargue. Nele, escreve que, além da  
necessidade da expropriação dos meios de produção, “a emancipação da classe  
Verinotio  
420 |  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025  
nova fase  
“Novos rostos de Marx”  
produtiva é a emancipação de todos os seres humanos sem distinção de sexo e raça”  
(MARX apud MUSTO, 2023, p. 236). Ele via a recém formada organização como o  
“primeiro movimento real dos trabalhadores na França”, diferente de organizações  
anteriores que se constituíram enquanto “seitas que recebiam a palavra de ordem de  
seus fundadores” (MARX apud MUSTO, 2023, p. 237). Ainda em 1880, Marx organizou  
a Enquete operária (1880), um questionário publicado na Revue Socialiste a ser  
preenchido pelos operários, circulando 25 mil cópias pela França. A enquete foi uma  
iniciativa original, voltada a dar voz aos próprios operários; uma alternativa aos,  
também muito utilizados por Marx, relatórios de inspetores que constavam nos Livros  
azuis [Blue books].  
Outros eventos da época são o encontro com o jornalista liberal dos Estados  
Unidos John Swinton, que posteriormente afirmou que, ao contrário de suas  
expectativas, viu em Marx um homem de muito bom caráter. Do mesmo ano é, também,  
a Carta à Assembleia de Genebra (1880), em comemoração da revolução polonesa de  
1830, de Marx e Engels. A nível pessoal, o autor d’O capital nunca deixou de batalhar  
contra seus muitos problemas de saúde, mas agora enfrentava também uma  
deterioração na condição física de sua amada esposa, Jenny, que padecia de um grave  
câncer no fígado.  
Em seus últimos anos, Marx dedicou-se a estudos diversos. Entre dezembro de  
1880 e junho de 1881 escreveu a maior parte das notas que foram publicadas, em  
1972, na compilação denominada Cadernos etnológicos, feita por Krader, mas hoje  
disponíveis na versão digital no site da Mega2. Na vida privada, esse período foi, sem  
dúvida, bastante penoso. Enquanto suas dores reumáticas e problemas respiratórios  
pioravam, ele viu membros de sua família adoecendo. Sua querida filha mais nova,  
Eleanor (“Tussy”), passou por um sério período depressivo por volta de 1880-81, e  
sua esposa Jenny von Westphalen estava a cada dia mais fraca em decorrência do  
câncer. Sua companheira de vida morreu em 2 de dezembro de 1881, aos 68 anos  
(cf. MUSTO, 2023, p. 254). Por este advento trágico, somado à necessidade própria  
de recuperação, Marx viaja, sob recomendação médica de mudança de “ares”, para a  
Argélia, aportando em Argel em 20 de fevereiro de 1882. Estimulado pelo novo  
ambiente, estudou sobre o país e a cultura árabe, e, em suas cartas “atacou, com  
indignação, os abusos violentos dos colonizadores franceses em Argel” (MUSTO, 2023,  
p. 259). Contudo, sua condição física não melhorou, ao invés, o isolamento do restante  
de sua família surtiu-lhe um efeito negativo, fazendo-lhe retornar à Europa pouco  
tempo depois, desembarcando já no dia 5 de maio (cf. MUSTO, 2023, p. 259).  
Mesmo diante de intempéries, Marx manteve-se ativo intelectualmente. Outros  
Verinotio  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025 | 421  
nova fase  
Ana Carolina Marra de Andrade  
textos relevantes do “último Marx” são o Caderno B 168 / B 150 (duplamente  
numerado em sua capa), de outubro 1882, no qual estão, dentre outras21, suas notas  
sobre The origin of civilisation and the primitive condition of man (1870), de John  
Lubbock; e uma cronologia de fatos importantes da história mundial, desde o século I  
aC (1881-2). São da mesma época a famosa carta à Vera Zasulich (1881) e o “Prefácio”  
à edição russa do Manifesto do partido comunista (1882)22. Os últimos meses de Marx,  
em 1883, foram vividos em Londres. Já bastante debilitado, sofreu mais uma perda  
irreparável, a de sua filha: “Em 11 de janeiro [de 1883], antes mesmo de completar  
39 anos, Jenny morreu de câncer na bexiga.” (MUSTO, 2023, p. 264) A partir de então,  
a deterioração de Marx se agravou rapidamente, e desenvolveu um abscesso pulmonar.  
O autor d’O capital faleceu às 14h45 do dia 14 de março de 1883, e a seu amigo  
Engels, coube “‘fazer alguma coisa’ com seus manuscritos inacabados” (MUSTO, 2023,  
p. 266). Marx se foi, mas, como ressalta Musto, “nunca o abandonou a certeza de que  
muitos outros continuariam seu trabalho teórico e que milhões deles, em todos os  
cantos do mundo, continuariam a luta pela emancipação das classes subalternas”  
(MUSTO, 2023, p. 266).  
Marx e o projeto de uma sociedade emancipada  
“E nós bradamos: A revolução está morta! Viva a revolução!”  
Karl Marx, As lutas de classes na França  
A quarta parte da biografia escrita por Musto, “A teoria política”, é voltada para  
analisar a dialética do capitalismo e o caráter da sociedade comunista. Parte da leiga  
crítica, aponta Marx como um teórico que teve uma visão positiva da sociedade civil-  
burguesa, e até mesmo etapista23 ou evolucionista da história, por tratar da  
possibilidade do comunismo como engendrada pelo modo de produção capitalista.  
Musto, contudo, explica como essas inferências são equivocadas, na medida em que:  
1) Marx não coloca que as sociedades devem passar por estágios históricos  
necessários; e 2) as condições para o comunismo serem engendradas no interior da  
sociedade capitalista é devido ao desenvolvimento da produção humana em geral, não  
a uma visão engessada da história. O biógrafo resume essas condições da seguinte  
maneira:  
[...] constituem os pré-requisitos fundamentais para o possível  
surgimento da sociedade comunista [...]: 1) a cooperação do trabalho;  
21  
Notadamente, notas sobre Egyptianf finance (1882), de Michael George Mulhall; e Spoiling the  
Egyptians, de Sheldon Amos (1882).  
22 Para entender mais sobre os textos do “último Marx” sobre a Rússia, cf. Souza (2025).  
23 Para entender as críticas à concepção de que Marx seria um “etapista histórico”, cf. Heleno (2019).  
Verinotio  
422 |  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025  
nova fase  
     
“Novos rostos de Marx”  
2) o aporte científico-tecnológico para a produção; 3) a apropriação  
das forças da natureza pela produção; 4) a criação de grandes  
máquinas que só podem ser usadas em conjunto pelos operários; 5)  
a economia dos meios de produção; 6) a tendência a criar o mercado  
mundial (MUSTO, 2023, p. 273).  
O modo de produção capitalista inaugura um índice de produção nunca antes  
alcançado pela humanidade, ao mesmo tempo que cria “uma classe que tem de  
suportar todos os fardos da sociedade sem desfrutar de suas vantagens” (ENGELS;  
MARX, 2007, p. 2.007). Ou seja, os produtos do trabalho humano não são acessados  
por aqueles que os produzem. Tem-se, por exemplo, de um lado, a capacidade de  
produzir, transportar e armazenar uma imensidão de alimentos, muitos descartados  
no lixo; de outro, a fome e a miséria24. Contudo, já existindo tal capacidade tecnológica,  
produtiva, a possibilidade de uma sociedade que não sofra de fomes periódicas em  
razão de secas naturais, já está dada pela própria realidade. Marx era “profundamente  
contrário ao ditame produtivista do capitalismo” (MUSTO, 2023, p. 278), mas o  
exemplo utilizado por nós serve para demonstrar que não se trata de romantizar a  
sociedade civil-burguesa, e sim de situar a possibilidade do comunismo  
historicamente, pensamento foi mantido por Marx ao longo de toda sua vida:  
[...] com continuidade, desde as primeiras formulações da concepção  
materialista da história na década de 1840 até suas últimas  
intervenções políticas na década de 1880, Marx destacou a relação  
entre o papel fundamental do incremento produtivo gerado pelo  
modo de produção capitalista e as pré-condições necessárias para o  
surgimento da sociedade comunista pela qual o movimento dos  
trabalhadores deveria lutar (MUSTO, 2023, pp. 279-80).  
Apesar de considerar que o capitalismo fornece as pré-condições do  
comunismo, Marx “negou inúmeras vezes – tanto em textos publicados quanto em  
manuscritos não publicados que tivesse concebido uma interpretação unidirecional  
da história, segundo a qual os seres humanos estavam destinados a seguir o mesmo  
caminho em todos os lugares e, além disso, por meio dos mesmos estágios” (MUSTO,  
2023, pp. 281-2). O autor d’O capital é veementemente contrário à posição de que  
todas as sociedades devem fazer uma revolução civil-burguesa, e “durante os últimos  
anos de sua existência” dedicou-se a refutar “a tese, erroneamente atribuída a ele, da  
inexorabilidade histórica do modo de produção burguês” (MUSTO, 2023, p. 282).  
24 É válido pontuar que exemplo dado por nós não pode ser considerado um problema de distribuição  
de alimentos, como trata boa parte do socialismo vulgar, na medida em que não é possível dissociar a  
distribuição do modo de produção. Nas palavras de Marx: “A distribuição dos meios de consumo é, em  
cada época, apenas a consequência da distribuição das próprias condições de produção; contudo, esta  
última é uma característica do próprio modo de produção. [...] O socialismo vulgar (e a partir dele, por  
sua vez, uma parte da democracia) herdou da economia burguesa o procedimento de considerar e tratar  
a distribuição como algo independente do modo de produção e, por conseguinte, de expor o socialismo  
como uma doutrina que gira principalmente em torno da distribuição.” (MARX, 2012, p. 25)  
Verinotio  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025 | 423  
nova fase  
 
Ana Carolina Marra de Andrade  
Com essas condições dadas pela revolução industrial inglesa, o próprio Marx  
deixa explícito em sua carta à Vera Zasulich (1882), que a Rússia do século XIX, por  
exemplo, já poderia fazer uma transição ao comunismo através de sua própria comuna  
rural, sem antes realizar uma revolução burguesa, “trocando de pele sem cometer  
suicídio (MARX in ENGELS; MARX, 2013, p. 100). Para ele, “a contemporaneidade da  
produção ocidental, que domina o mercado mundial, permite à Rússia incorporar à  
comuna todas as conquistas positivas produzidas pelo sistema capitalista sem passar  
por seus forcados caudinos [fourche caudines]” (MARX in ENGELS; MARX, 2013, p. 94).  
Nesse sentido, Marx entendia que a “história da Rússia, ou de qualquer outro país, não  
precisava refazer todas as etapas que marcaram a história da Inglaterra ou de outras  
nações europeias” (MUSTO, 2023, p. 284). Essa postura não é uma “ruptura dramática  
com suas convicções anteriores”, mas, para Musto, o “amadurecimento de sua posição  
teórico-política” (MUSTO, 2023, p. 285). Para nós, não é uma mudança, e sim uma  
consequência de seu pensamento anterior, acrescido agora de novos estudos  
específicos sobre a Rússia.  
Marx teve a oportunidade de criticar em vida as “interpretações” equivocadas  
que entendiam O capital como uma fórmula das etapas da história de todos os países,  
e “dogmatismos” desse tipo que surgiam em seu nome (cf. MUSTO, 2023, p. 289). Ele  
contestou, por exemplo, Mikhajlovsky por “transfigurar seu ‘esboço da gênese do  
capitalismo na Europa Ocidental em uma teoria histórico-filosófica da marcha universal  
fatalmente imposta a todos os povos, qualquer que seja sua situação história’” (MARX  
apud MUSTO, 2023, p. 283). A escolha da Inglaterra como o enfoque d’O capital se  
dá em razão da forma clássica de entificação do capitalismo, sendo o país na qual as  
determinações específicas da sociedade civil-burguesa já estavam colocadas, à época  
de Marx, de modo mais evidente, como ele próprio explica no “Posfáciode sua obra25.  
Apesar de ler autores evolucionistas, Marx nunca foi afetado por essa tendência, como  
Musto explica em sua biografia sobre o “último” Marx:  
Todos os autores lidos e resumidos por Marx nos Cadernos  
etnológicos haviam sido influenciados com nuances distintas pela  
teoria evolucionista que imperava à época, e alguns deles eram  
também defensores convictos da superioridade da civilização  
burguesa. Um estudo dos Cadernos etnológicos mostra claramente  
que Marx não sofreu nenhuma influência dessas asserções  
25  
O que pretendo nesta obra investigar é o modo de produção capitalista e suas correspondentes  
relações de produção e de circulação. Sua localização clássica é, até o momento, a Inglaterra. Essa é a  
razão pela qual ela serve de ilustração principal à minha exposição teórica, mas, se o leitor alemão  
encolher farisaicamente os ombros ante a situação dos trabalhadores industriais ou agrícolas ingleses,  
ou se for tomado por uma tranquilidade otimista, convencido de que na Alemanha as coisas estão longe  
de ser tão ruins, então terei de gritar-lhe: De te fabula narratur [A fábula refere-se a ti]! (MARX, 2017,  
p. 78)  
Verinotio  
424 |  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025  
nova fase  
 
“Novos rostos de Marx”  
ideológicas. (2018, p. 39)  
A última seção do capítulo da teoria política é dedicada a traçar o “perfil da  
sociedade comunista”. Antes de Marx, destacam-se os socialistas “críticos-utópicos”,  
que cumpriram uma função histórico-crítica específica, apesar de suas visões  
moralistas e seus projetos irrealizáveis (cf. MUSTO, 2023, pp. 292-3), e de que nunca  
alcançaram o estatuto de crítica aos reais fundamentos da sociedade civil-burguesa.  
Após a revolução francesa, emergiu a suposição de que “todos os males da sociedade  
acabariam assim que fosse estabelecido um sistema de governo fundado na igualdade  
absoluta de todos os seus membros” (MUSTO, 2023, p. 293), o igualitarismo, que foi  
um “princípio orientador da Conspirações dos Iguais”, defendida, por exemplo, por  
François-Noël Babeuf e Sylvain Maréchal (MUSTO, 2023, p. 294). Musto analisa as  
ideias e vertentes do igualitarismo desde a revolução francesa até meados do século  
XX. Eles eram baseados em uma “ideologia igualitária ingênua” como solução dos  
problemas sociais, baseadas em uma imposição “de cima para baixo” (MUSTO, 2023,  
p. 295).  
Outra corrente relevante dos primeiros socialistas, defendida por, dentre outros,  
Henri de Saint-Simon, Charles Fourier, Robert Owen e Étienne Cabet, apostava “que a  
elaboração teórica de melhores sistemas de organização social era uma condição  
suficiente para mudar o mundo” (MUSTO, 2023, p. 296). Muitos deles tinham de fato  
o “compromisso de promover o surgimento de pequenas comunidades alternativas”  
(MUSTO, 2023, p. 297), todas as quais, sabe-se, tiveram o mesmo destino fatal. Esses  
movimentos eram, essencialmente, antirrevolucionários. Com o tempo, “suas  
organizações se tornaram [...] seitas políticas dogmaticamente vinculadas a sistemas  
teóricos que já estavam predeterminados e, portanto, completamente desvinculadas  
dos conflitos reais da classe trabalhadora” (MUSTO, 2023, p. 299), como tratam Marx  
e Engels no panfleto da AIT As ditas cisões na Internacional (1872) e na chamada Carta  
circular (1879).  
Marx “refutou a ideia de que [sua teoria] poderia ser a inspiração para um novo  
credo político dogmático” e “se recusou a propor a configuração de um modelo  
universal de sociedade comunista” (MUSTO, 2023, p. 302), por exemplo no “Posfácio  
à segunda edição(1873) do Livro I d’O capital e nas Glosas marginais sobre Wagner  
(1879-1880). Ainda assim, ele escreveu sobre o comunismo, no que Musto classifica  
por três grupos textuais distintos: 1) críticas às concepções de socialismo de outros  
autores; 2) “escritos sobre luta e propaganda política destinados às organizações da  
classe proletária de sua época” (MUSTO, 2023, p. 304); e 3) observações críticas ao  
modo de produção capitalista que geram reflexões sobre o comunismo. Contudo,  
Verinotio  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025 | 425  
nova fase  
Ana Carolina Marra de Andrade  
ressalta, “suas anotações [...] não devem ser avaliadas como o modelo marxista a ser  
adotado dogmaticamente, nem, muito menos, como as soluções que [...] deveriam ter  
sido aplicadas, indiferenciadamente, em diferentes lugares e épocas” (MUSTO, 2023,  
p. 304).  
O comunismo não é a aplicação de um ideal, mas uma sociedade emancipada26,  
sem classes e sem política, baseada na associação de seres humanos livres e na  
produção coletiva (cf. MARX, 2017, p. 153), que parte “de cada um segundo suas  
capacidades, a cada um segundo suas necessidades!” (MARX, 2012, p. 25). As  
condições objetivas para a existência da sociedade comunista estão dadas, mas não  
faz sentido deliberar, a partir do arcabouço categórico marxiano, sobre um modelo  
afirmativo de como a revolução será e como a sociedade comunista se organizará,  
redundando em utopias sem fundamento ou futurologias crassas. É necessário retirar  
as deturpações amplamente disseminadas sobre o sentido de comunismo e resgatar  
o projeto revolucionário marxiano em seu sentido profundamente emancipatório.  
A partir da obra de Musto, é possível notar como Marx nunca foi um intelectual  
apartado em sua “torre de Marfim” – não há uma cisão entre “teoria” e “prática” em  
sua obra; elas são, ao invés, indissociáveis. Em sua vida, Marx teve uma postura de  
participação ativa e de agregação dos movimentos de esquerda, sem nunca abandonar  
seus próprios pensamentos ou poupar seus pares de duras críticas. Criticando o  
materialismo contemplativo, Engels e Marx (2007) redigiram a famosa tese 11: “os  
filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que importa é  
transformá-lo” (p. 535), objetivando romper com a oposição entre filosofia e mundo.  
A transformação material do mundo depende da devida compreensão da realidade, e  
vice-versa:  
A arma da crítica não pode, é claro, substituir a crítica da arma, o  
poder material tem de ser derrubado pelo poder material, mas a teoria  
também se torna força material quando se apodera das massas. A  
teoria é capaz de se apoderar das massas tão logo demonstra ad  
hominem, e demonstra ad hominem tão logo se torna radical. Ser  
radical é agarrar a coisa pela raiz. Mas a raiz, para o homem, é o  
próprio homem. (MARX, 2013, pp. 151-2)  
Assim, entender a realidade é também intervir nela as armas da crítica nas  
mãos das massas são força material. Marx é muito maior que qualquer tipo de  
deturpação economicista, etapista ou evolucionista de sua teoria, ou de toda crítica  
26  
“[...] a emancipação humana só estará plenamente realizada quando o homem individual real tiver  
recuperado para si o cidadão abstrato e se tornado ente genérico na qualidade de homem individual  
na sua vida empírica, no seu trabalho individual, nas suas relações individuais, quando o homem tiver  
reconhecido e organizado suas ‘forces propres’ [forças próprias] como forças sociais e, em consequência,  
não mais separar de si mesmo a força social na forma da força política.” (MARX, 2010, p. 54)  
Verinotio  
426 |  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025  
nova fase  
 
“Novos rostos de Marx”  
que tenta vendê-lo como um teórico eurocentrista e colonialista a ser descartado. Não  
se trata de não o entender como um europeu do século XIX, e sim reconhecer que ele  
foi muito além dos preconceitos burgueses da ideologia dominante em seu tempo,  
partindo de um projeto de emancipação material dos seres humanos em geral.  
Espaço de discussão  
Como mencionamos anteriormente, nos tempos atuais tem ressurgido um  
grande interesse na vida e obra de Marx, impulsionado pela recente publicação de  
muitos cadernos de anotações do “último Marx” pela Mega2, antes inéditos ao público.  
Assim, os textos dessa época, nos quais Marx trata de questões como gênero,  
colonialismo, dentre outros, têm sido alvo de grandes debates na tradição marxista.  
Se para Edward Said, Marx apresenta uma visão “orientalista romântica”, a qual  
mantém até o final de sua vida (cf. SAID, 2012, p. 197), há uma corrente que defende  
que esses textos marcam uma mudança radical de pensamento de Marx, em que ele  
deixa de lado supostas tendências eurocêntricas anteriores. Para Michael Löwy (2020),  
por exemplo, os Cadernos etnológicos mostram a “evolução de Marx, a partir de  
posições eurocêntricas, em direção a uma crescente abertura ao ‘Outro’” (p. 23), de  
modo que “A morte interrompeu um extraordinário processo de reelaboração, de  
reformulação, de reinvenção do materialismo histórico e da teoria da revolução”  
(LÖWY, 2018).  
Jean Tible (2020) propõe um Marx selvagem a partir dos escritos do “último  
Marx”. Para ele, o filósofo, ao final da vida, volta-se “às sociedades sem classes em  
busca de inspiração para futuras organizações” (TIBLE, 2020, p. 104). Assim, os  
cadernos representariam uma virada do pensamento marxiano em direção a outros  
povos, uma “mudança em que o autor passa a valorizar por si mesmas as experiências  
e formas de resistência que ocorrem fora dos países da Europa Ocidental” (TIBLE,  
2020, p. 93). Para ele, essas sociedades serviriam de “modelo” para o comunismo, de  
modo que elas servem de inspiração como contraposição, apesar do avanço das forças  
produtivas, à desigualdade que acompanha evolução da técnica: “na visão de Marx –  
e de vários marxistas haveria um elo entre comunismo primitivo e comunismo  
moderno que resolveria essa contradição, unindo o pré e o pós-capitalismo” (TIBLE,  
2020, p. 99), isto é, “um elo entre passado e futuro, tradição e porvir” (TIBLE, 2020,  
p. 104). Nesse sentido, nos extratos do “último Marx” e n’A origem da família… “a  
conclusão de Morgan é retomada por Marx e Engels assim como as formas sociais  
igualitárias e sem classes constituem inspiração para futuras organizações” (TIBLE,  
2020, p. 104), já presente em outros de seus textos, mas intensificado na obra de  
Verinotio  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025 | 427  
nova fase  
Ana Carolina Marra de Andrade  
ambos na década de 1880.  
A biografia de Musto mostra um olhar distinto sobre o “último Marx”. Para ele,  
o autor d’O capital manteve-se a par da história e dos acontecimentos de países de  
fora do velho continente não apenas ao final de sua vida, mas ao longo de toda ela –  
evidentemente, a partir dos limites do material disponível em sua época. Além disso,  
entende que Marx “nunca desejou um retorno ao passado, mas sim, como anotou nos  
extratos sobre Morgan, o advento de um ‘tipo superior de sociedade, baseado em uma  
nova forma de produção e um modo diferente de consumo” (MUSTO, 2023, p. 248).  
Nesse sentido, Marx nunca teve como “solução” uma “reedição socialista do ‘mito do  
bom selvagem’” (MUSTO, 2018, p. 37), mas a construção de um novo tipo de  
sociedade, que, além disso, “não surgiria por meio de uma evolução mecânica da  
história, mas somente por meio da luta consciente dos trabalhadores” (MUSTO, 2023,  
p. 248).  
Entendemos que “Marx não estava revisando e reformulando todo seu  
arcabouço teórico anterior, mas, na verdade, colhendo seus resultados” (ANDRADE,  
2025, p. 36), e ao olhar para seu percurso teórico, isso se confirma. Igualmente, o  
filósofo não trata de comunidades sem estado buscando um modelo de inspiração  
para a sociedade comunista não se trata de olhar para o passado, até mesmo porque  
várias dessas sociedades foram contemporâneas a ele, e existem ainda no presente.  
Não há uma “receita de bolo” para a revolução ou para o comunismo, como tentaram  
os chamados “socialistas utópicos”, pois projetar um modelo na realidade é impossível.  
Para Marx (2012): “Cada passo do movimento real é mais importante do que uma  
dúzia de programas” (p. 17) – trata-se de partir do real, do existente.  
Ademais, Marx não parte das conclusões de Morgan, mas critica o romantismo  
mistificador com do estadunidense diante das sociedades ditas “primitivas”.  
Entendemos que se “Morgan transporta princípios burgueses até as comunidades que  
analisa, como fraternidade, igualdade e democracia”, Marx, por outro lado, opõe a ele  
sua própria visão acerca da história, criticando a transposição anacrônica de ideais  
burgueses até sociedades distintas, e “a todo momento remontando às relações reais  
e concretas” (ANDRADE, 2025, p. 202).  
De um modo geral, nota-se como o estudo da relação entre a vida e obra de  
Marx é essencial para entendermos seu pensamento em torno de sua gênese, estrutura  
e função. Ante a tais “novos rostos de Marx”, percebe-se como ele foi um pensador  
muito à frente de seu tempo e, em certo sentido, também muito à frente de nosso,  
tendo muitas contribuições pouco exploradas, seja em razão de materiais ainda não  
publicados ou de perseguições políticas e deturpações posteriores feitas com seu  
Verinotio  
428 |  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025  
nova fase  
“Novos rostos de Marx”  
arcabouço teórico. Apresenta-se um teórico muito interessado em se manter atualizado  
sobre as pesquisas mais avançadas de sua época sobre as mais variadas sociedades.  
Longe de se circunscrever às noções tradicionais de um economista, um cientista  
político, sociólogo, historiador etc., ou até um “filósofo” em sentido estrito, Marx era  
um pensador que não se limitou diante da divisão parcelar do conhecimento.  
Como Musto ressalta, ao longo de toda sua trajetória intelectual, Marx  
foi, ainda que apátrida, um verdadeiro “cidadão do mundo”:  
O mundo inteiro, portanto, estava contido em seu escritório. Mesmo  
permanecendo sentado à escrivaninha, por meio de seu estudo das  
transformações sociais nos Estados Unidos, das esperanças nutridas  
pelo fim da opressão colonial na índia, do apoio à causa feniana, da  
análise da crise econômica na Inglaterra e da atenção dedicada às  
eleições na França, Marx observava constantemente os sinais dos  
conflitos sociais que se desenvolviam em todas as latitudes do globo  
terrestre. Onde quer que emergisse, ele tentava acompanhá-los.  
Não é sem razão, é verdade, costumava dizer de si mesmo: “Sou um  
cidadão do mundo, e ajo onde me encontro”. Seus últimos anos de  
vida não desmentiram esse modo de ser. (MUSTO, 2018, p. 57)  
Nesse sentido, se, por um lado, reconhecer e humanizar a trajetória de Marx  
contribui para tirá-lo de um “pedestal” muito comumente atribuído aos grandes  
pensadores, por outro, fortalece também uma visão contrária a certas tendências que  
o postulam como antiquado ou preso às determinações de seu próprio tempo. A obra  
de Musto é muito frutífera para a formação de uma visão realista sobre essa  
personalidade tão controversa, e vem em um momento em que essa tarefa é da mais  
suma importância. A partir dessa biografia, é evidente como boa parte da leiga crítica  
ao autor d’O capital é insustentável, pois ao contrário da imagem muito disseminada  
por movimentos anticomunistas mas também por uma parcela de marxistas , Marx  
não é um pensador etapista, evolucionista ou eurocentrista, e nunca considerou  
“apenas” a luta entre burgueses e operários, ou “apenas” a Europa ou a Inglaterra.  
Referências bibliográficas  
ALMEIDA, Matheus; ÁLVARES, Lucas Parreira. O desafio de Marx à razão antropológica.  
Máquina Crísica entrevista Lucas Parreira Álvares e Matheus Almeida. Máquina  
Crísica, ago. 2019. Disponível em: <https://maquinacrisica.org/2019/08/14/o-  
alvares-e-matheus-almeida/>. Acesso em 17 maio 2024.  
ÁLVARES, Lucas Parreira. Flechas e martelos: Marx e Engels como leitores de Lewis  
Morgan. Dissertação (Mestrado) Faculdade de Direito e Ciências do Estado da  
Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2019.  
ANDERSON, Kevin. Marx nas margens: nacionalismo, etnia e sociedades não  
ocidentais. São Paulo, Boitempo, 2019.  
ANDERSON, Kevin. The late Marx’s revolutionary roads: colonialism, gender, and  
indigenous communism. London/New York: Verso, 2025.  
ANDRADE, Ana Carolina Marra de. Relações de parentesco em sociedades sem  
Verinotio  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025 | 429  
nova fase  
Ana Carolina Marra de Andrade  
estado: as críticas de Marx a Morgan e a Maine. Dissertação (Mestrado) Faculdade  
de Direito e Ciências do Estado da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo  
Horizonte, 2025.  
ASSUNÇÃO, Vânia Noeli. A teoria das abstrações de Marx: o método científico exato  
para o estudo do ser social. Verinotio Revista on-line de Filosofia e Ciências  
Humanas, n. 18, 2014.  
BROWN, Heather. Marx on gender and the family: a critical study. Chicago, IL:  
Haymarket Books, 2012.  
CHASIN, J. Marx: estatuto ontológico e resolução metodológica. São Paulo: Boitempo,  
2009.  
CHASIN, J. Marx a determinação ontonegativa da politicidade. Verinotio Revista  
on-line de Filosofia e Ciências Humanas, n. 15, Ano VIII, abr. 2013.  
ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia  
alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão  
em seus diferentes profetas (1845-1846). São Paulo: Boitempo, 2007.  
ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. Miséria da filosofia: resposta à Filosofia da miséria do  
Sr. Proudhon. São Paulo: Boitempo, 2017.  
ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. Cartas sobre O capital. São Paulo: Expressão Popular,  
2020.  
ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. Escritos sobre a Guerra Civil Americana: artigos do  
New York Daily Tribune, Die Presse e outros (1861-1865). Londrina / São Paulo:  
Aetia Editorial/Peleja, 2020.  
HELENO, Matheus Correa de Souza. Era Karl Marx um etapista histórico? Práxis  
Comunal, v. 2, n. 1, p. 1-15, jan./jun. 2019.  
HELENO, Matheus Correa de Souza. Lineamentos sobre o problema da gênese do  
capitalismo na “Introdução” de 1857 de K. Marx. Trabalho de Conclusão de Curso  
(Graduação) Faculdade de Direito e Ciências do Estado da Universidade Federal  
de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2024.  
HEINRICH, Michael. Crisis theory, the law of the tendency of the profit rate to fall,  
and Marx’s studies in the 1870s. New York: Monthly Review, 2013. Disponível em:  
2025.  
HUBMANN, Gerald; PAGEL, Ulrich. A “Ideologia alemã” não é um livro: Conversa sobre  
a nova edição dos manuscritos da Ideologia alemã. Entrevista feita por Olavo  
Ximenes. Dissonância: Revista de Teoria Crítica, v. 6, pp. 28-56, Campinas, 2022.  
LÖWY, Michael. A descoberta do último Marx. Blog da Boitempo, 30 mai. 2018.  
descoberta-do-ultimo-marx/>. Acesso em: 29 jun. 2025.  
LÖWY, Michael. “Apresentação”. In: TIBLE, Jean. Marx selvagem. São Paulo: Autonomia  
Literária, 2020.  
MACHADO, Gabriel Müller de Jesus P. Ferdinand Lassalle e a crítica marxiana ao direito  
como crítica ao idealismo. Brazilian Journal of Development, v. 8, n. 8, August,  
2022.  
MARX, Karl. Sobre a questão judaica. São Paulo: Boitempo, 2010.  
MARX, Karl. O 18 de brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011.  
MARX, Karl. As lutas de classes na França. São Paulo: Boitempo, 2011.  
MARX, Karl. Crítica do Programa de Gotha. São Paulo: Boitempo, 2012.  
MARX, Karl. “Crítica da filosofia do direito de Hegel – Introdução”. In: MARX, Karl.  
Crítica da filosofia do direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2013.  
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do  
capital. São Paulo: Boitempo, 2017.  
MARX, Karl. Heft 1880 bis 1881. Mega Digital, 2025. Disponível em:  
Verinotio  
430 |  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025  
nova fase  
“Novos rostos de Marx”  
abr. 2025.  
MARTINS, Maurício Vieira. Os 180 anos dos Manuscritos de 1844 de Marx:  
materialismo, subjetividade e o debate com Hegel. Verinotio Revista on-line de  
Filosofia e Ciências Humanas, v. 29.2, pp. 24-67, jul.-dez., 2024.  
MUSTO, Marcello. Karl Marx: biografia intelectual e política (1857-1883). São Paulo:  
Expressão Popular, 2023.  
MUSTO, Marcello. O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (1881-1883).  
São Paulo: Boitempo, 2018.  
RIBEIRO, Leonardo Costa; DEUS, Leonardo Gomes de; LOUREIRO, Pedro Mendes;  
ALBUQUERQUE, Eduardo da Motta. Profits and fractal properties: notes on Marx,  
countertendencies and simulation models. Review of Political Economy, 2017.  
Disponível  
Acesso em: 20 set. 2025.  
SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo:  
Companhia das Letras, 2012.  
SOUZA, Gabriella M. Segantini. O mir e o mundo: Marx em diálogo com o movimento  
revolucionário russo no século XIX. Dissertação (Mestrado) Faculdade de Direito  
e Ciências do Estado da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte,  
2025.  
TIBLE, Jean. Marx selvagem. São Paulo: Autonomia Literária, 2020.  
VELLOSO, Gustavo. Anti-Lubbock: as “negações” do velho Mouro contra o Barão de  
Avebury. Práxis Comunal, v. 1, n. 1, pp. 72-86, jan./dez., 2018.  
Como citar:  
ANDRADE, Ana Carolina Marra de. “Novos rostos de Marx”: da crítica da economia  
política aos horizontes da luta pela emancipação humana. Verinotio, Rio das Ostras,  
v. 30, n. 2, pp. 402-431, 2025.  
Verinotio  
ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 402-431 jul.-dez., 2025 | 431  
nova fase