Florestan Fernandes
classes dominantes. No livro American political tradition, de Richard Hofstadter, você
vai ver como os "founding fathers” (os pais da pátria) eram pessoas que não só tinham
pensamento aristocrático, mas que desconfiavam da massa, e de tal modo que criaram
vários entraves para impedir que surgisse nos Estados Unidos uma democracia plena,
capaz de “plebeizar” o processo político. Houve, então, resistência nas classes
dominantes à cristalização de uma alternativa popular de poder, e de uma maneira
mais expressiva que na Europa, porque nos Estados Unidos a tradição aristocrática
tinha raízes profundas, especialmente no Sul.
Os países da periferia, por seu lado, não têm uma esfera de liberdades políticas,
de direitos instituídos que fizessem parte da tradição dos direitos consuetudinários,
direitos sobre o uso de uma porção da terra, liberdades que conferissem proteção à
pessoa e que acabaram, na Europa, facilitando a transição do regime feudal para o
regime capitalista. Lá, o modo de produção capitalista está vinculado ao aparecimento
dos operários que haviam sido mestres e, mais tarde, tornaram-se técnicos, operários
qualificados (além de comerciantes e capitalistas), o que elevou o nível de exigência e
consciência do trabalhador. Formou-se, assim, um estrato operário dotado da
capacidade de sofrer as frustrações, devido a um sistema de produção que não estava
tão distante das opressões, das servidões do regime feudal. Desse modo, o antigo
regime desaparece, mas muitos inconvenientes sobrevivem e a burguesia busca
realizar-se, num curto período de tempo, passando de classe revolucionária para classe
dominante, e de classe dominante para classe dominante reacionária, como nos casos
da França e Inglaterra, fazendo com que a cristalização de um poder popular, da
cidadania como uma forma de afirmação da pessoa, que a revolução burguesa
renegou, fossem conquistados pela pressão da própria camada social excluída. São os
democratas, os revolucionários, os trabalhadores, as populações destituídas que vão
lutar contra a burguesia para obter concessões crescentes, aumentando a sua área de
autoafirmação como classe em si e inventando técnicas sociais de autodefesa e de
contra-ataque, usadas em termos defensivos e ofensivos. Esse processo teve grande
dificuldade de realização no Brasil, não só por causa da nossa origem colonial e do
modo de produção escravista, mas, também, pelo fato de que o aparecimento do
trabalho como uma categoria histórico-social, como trabalho livre, deu-se numa
condição de substituto, de sucessor do trabalho escravo. Os trabalhadores forjaram
essa categoria histórica e o movimento prolongado, em ziguezague, pelo qual lutaram
por sua liberdade e acabaram, em plena ditadura militar, contestando a burguesia. A
herança colonial e escravista reforçava a defesa da estabilidade política por métodos
violentos. O mesmo sucedia com o imperialismo, que fomentava a democracia em seus
Verinotio
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ISSN 1981 - 061X v. 30, n. 2, pp. 444-481 – jul-dez., 2025
nova fase