Verinotio NOVA FASE ISSN 1981 - 061X v. 27 n. 2, Lukács: 50 anos depois, ainda - mar. 2022
Em prol de uma boa causa: a correspondência
entre György Lukács e Günther Anders
Carolina Peters*
Murilo Leite**
Para quem estuda a obra teórica de um determinado autor, o contato com sua
correspondência, tanto ativa quanto passiva, é sempre uma fonte importante de
pesquisa. Exigindo cuidado redobrado quando utilizadas como fonte da investigação
filosófica, mesmo aquelas cartas mais íntimas são capazes de aproximar o pesquisador
de seu objeto de estudo, seja porque desvelam aspectos biográficos que ajudam a
iluminar o curso de uma trajetória intelectual o escopo de suas preocupações,
referências culturais e bibliográficas, relações pessoais, sua reação a eventos históricos
etc. , seja porque, constrangidos aos limites mais restritos da comunicação epistolar,
os remetentes são levados a explicitar de maneira sintética problemas longamente
desenvolvidos, em textos publicados ou manuscritos mantidos na gaveta.
A correspondência entre György Lukács e Günther Anders, filósofo polonês
radicado na Áustria, aqui publicada pela primeira vez em língua portuguesa,
certamente oferecerá aos estudiosos das obras dos autores contribuições valiosas
acerca de suas produções intelectuais, além da relação de ambos com os problemas
de seu tempo. Os dois trocaram cartas com regularidade entre julho de 1964 e abril
de 1971, ano do falecimento do marxista húngaro; um período agitado, que
compreendeu as repercussões do bombardeio a Hiroshima e Nagasaki, a guerra do
Vietnã, os movimentos políticos de Maio de 68 e as lutas do movimento negro por
direitos civis nos Estados Unidos. Durante esse tempo, cada qual se dedicava àquela
que se tornou sua
magnum opus
: Lukács, à sua ontologia do ser social, e Anders, à
segunda parte de seu trabalho sobre a obsolescência do homem, ainda inédito em
* Mestranda em Filosofia pela UFMG, graduada em Letras pela UFRJ. E-mail:
carolinapeters50@gmail.com.
** Professor do Curso de Direito da UEMG campus Ituiutaba, doutorando em Direito pela UFMG. Email:
murilo.leite.pereira@gmail.com.
DOI 10.36638/1981-061X.2022.27.2.654
Em prol de uma boa causa: a correspondência entre György Lukács e Günther Anders
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português.
Não obstante, estavam atentos aos acontecimentos e protagonizaram iniciativas
de resistência. Anders foi uma figura destacada no movimento antinuclear, e Lukács
encabeçou uma iniciativa de intelectuais europeus pela liberdade de Angela Davis.
Como se vê, os filósofos demonstraram profundo compromisso com aquelas que eram
as grandes causas do presente. Foram, portanto, filhos de seu tempo e, mais do que
apreender seu tempo em pensamento, engajaram-se pela transformação efetiva do
mundo, ainda que conforme as cartas revelam nem sempre estivessem de acordo
quanto à tática a ser adotada. Diferenças à parte, partilhavam de uma visão de mundo
comum que dava substância à sua amizade. Com maior otimismo, como no caso de
Lukács, ou com uma atitude mais pessimista, como a de Anders, mas, em todo caso,
sempre dispostos a tomar uma posição enérgica e prática em prol de uma boa causa”,
como escreve o húngaro sobre o companheiro.
O intervalo de quase uma década coberto pela correspondência contempla
alguns períodos de comunicação mais intensa, praticamente semanal (uma semana,
informa Lukács, era aproximadamente o tempo necessário para que uma carta
chegasse de Budapeste a Viena, ou fizesse o caminho inverso), o que nos permite
discernir pelo menos três blocos de debates, com seus respectivos eixos temáticos.
O primeiro deles gira em torno do problema do estranhamento e das discussões
sobre Claude Eatherly, oficial da Força Aérea estadunidense que entrou para os anais
da história como “o piloto de Hiroshima”. Em 6 de agosto de 1945, a bordo do
bombardeiro
Enola Gay
, Eatherly sobrevoava Hiroshima com ordens para fornecer um
relatório meteorológico, quando a bomba foi lançada; no momento da explosão,
encontrava-se a menos de 500 quilômetros do local. Horrorizado com o ocorrido,
Eatherly recusou ativamente o cínico epíteto de “herói de guerra”, o que não impediu
que fosse acusado reiteradamente de mentiroso e autor do disparo. Anders foi um de
seus maiores defensores e, ao longo da década de 1960, dedicou-se intensamente,
em detrimento mesmo de sua produção científica, à “luta [...] pela honra do piloto de
Hiroshima”, como sintetizou Lukács, “uma questão tão importante para a moralidade
em nossos dias”.
Motivado pelo envio de um texto de Anders, Lukács retoma o contato com o
filósofo pela primeira vez, desde que estiveram juntos em Viena provavelmente no
início da década de 1950 , quando recebeu do amigo um exemplar de seu
Kafka: pró
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e contra
, publicado em 1951
.
Único livro de Anders editado no Brasil, ainda nos anos
1960, pela Perspectiva, reeditado pela finada Cosac Naify e atualmente esgotado,
tornou-se um dos cânones dos estudos kafkianos e não passou despercebido por
Lukács. Inicialmente uma palestra ministrada, em 1934, por ocasião dos dez anos da
morte do autor tcheco, seu título original “Teologia sem deus” talvez baste para
que os conhecedores da obra lukácsiana de maturidade compreendam seu interesse
pelo escrito e o profundo elogio que lhe faz: “não li nada melhor sobre Kafka desde
então”.
O escrito mais recente, “Der sanfte Terror”, que mais tarde integraria o segundo
volume da principal obra de Anders,
Die Antiquiertheit des Menschen
, despertava
agora igual interesse em Lukács, justamente por abordar uma questão que lhe era
cara, o estranhamento contemporâneo, a partir de uma perspectiva da qual
compartilhava. Diferentemente da média da literatura sobre o assunto, não interessava
a ele (como a Lukács) apenas “‘desmascarar’” o estranhamento como se
concernisse à
misera plebs
e de modo algum ao autor, o aristocrata intelectual não-
conformista”. Acima de tudo, Anders sabia que “o problema da ultrapassagem do
estranhamento é
o
problema”, com todas as ênfases que seu grifo no artigo definido
evoca.
Pertence ainda a este primeiro bloco da correspondência a cópia, encaminhada
para Lukács, de uma carta de Günther Anders, datada de 18 de junho de 1964,
originariamente endereçada a Hans Deutsch. À época, Deutsch era proprietário da
Forvm
, revista fundada em 1954 com o subtítulo “publicação austríaca mensal em
favor da liberdade cultural”, e em cujas páginas foram publicados muitos artigos de
Anders e de Lukács, incluindo alguns dos primeiros escritos lukácsianos sobre a
ontologia. Se, anos mais tarde, o periódico contribuiria enormemente com a difusão
das ações em defesa da liberdade de Angela Davis, no bojo da campanha de
intelectuais europeus articulada por Lukács, em meados da década de 1960 seu então
editor chefe, Friedrich Torberg, que assumiu o cargo quando do lançamento da revista
e aí permaneceu até 1965, conferia à
Forvm
uma linha editorial pouco progressista e
afeita à difamação de intelectuais como Thomas Mann, Bertolt Brecht e, naquele
momento, Günther Anders, sobre cuja relação com Claude Eatherly fez insinuações
indecorosas, para dizer o mínimo, e às quais o filósofo responde, na missiva a Deutsch,
com toda indignação e vigor.
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Um segundo eixo, que anima a comunicação entre os filósofos nos anos de 1967
e 1968, diz respeito à confluência de seus trabalhos em tomar a vida cotidiana como
ponto de partida e de chegada da reflexão filosófica e da investigação da realidade,
coisa até então quem aponta é Lukács, ao que talvez nos seja permitido acrescentar,
ainda hoje
largamente negligenciada pela filosofia, sociologia etc., além de
menosprezada por parte substantiva da literatura contemporânea, que sucumbindo à
estética naturalista recai em figurações fetichizadas do mundo.
Novamente, a troca de cartas é iniciada por uma publicação de Anders remetida
a Lukács, desta vez o livro
Die Schrift an der Wand
, um diário filosófico mantido ao
longo de mais de duas décadas de trabalho. À leitura das entradas do diário de Anders,
Lukács declarou ao amigo ser “da opinião de que o abordado aí pertence às questões
mais importantes do conhecimento da realidade social: a saber, a investigação exata
do que eu chamaria de ontologia da vida cotidiana”, algo de que se ocupava
pessoalmente no momento, enquanto redigia
Para uma ontologia do ser social
.
A partir da afinidade neste tópico da ontologia da vida cotidiana, que não deixa
de remeter ao acordo prévio dos dois quanto ao problema do estranhamento, Lukács
e Anders engatam uma discussão acerca das noções de otimismo e pessimismo que
deixa transparecer, com grande vivacidade, o fundamento ético de sua relação pessoal,
uma amizade que, infelizmente, pela força das circunstâncias, não pôde alcançar a
“realidade mais densa” do convívio presencial que Anders almejara com uma viagem,
nunca realizada, a Budapeste. Apesar de seu contundente ceticismo, que a princípio o
distanciaria de Lukács, Anders costumava repetir: “Se eu estou desesperado, o que
posso fazer?”. No lema, ecoa a célebre frase de Philine, personagem de
Os anos de
aprendizado de Wilhelm Meister
, tantas vezes relembrada pelo crítico húngaro como
expressão de um comportamento ético. Ao ser interpelada pelo protagonista do
romance de Goethe, receoso por não ser capaz de retribuir os generosos cuidados
que lhe dedicava, a jovem responde, sem titubear,
se eu te quero bem, o que podes
fazer?
No tópico “A base objetiva do estranhamento e da sua superação”, parte final do
último capítulo do segundo tomo de
Para uma ontologia do ser social
, Lukács chegaria
a registrar em nota de rodapé a postura exemplar de Anders, que, ao tomar como
ponto de partida a rejeição contra a bomba atômica, recusava esboçar uma imagem
de mundo
a priori
desesperançosa de qualquer sublevação contra os novos
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estranhamentos.
O terceiro e último momento da correspondência é pautado pela campanha em
defesa da liberdade de Angela Davis, presa em 13 de outubro de 1970. Militante do
Partido Comunista, ela figurava na lista de mais procurados do FBI desde agosto
daquele ano, taxada como uma “perigosa terrorista”. Ao tomar conhecimento do caso
e prevenido por amigos marxistas estadunidenses, Lukács envia, em de
novembro, uma carta ao historiador Herbert Aptheker,
1
membro do partido que, ao
lado de sua filha Bettina, esteve na linha de frente das mobilizações em favor de Davis,
a fim de oferecer sua ajuda prática na articulação da campanha nos países socialistas
e da Europa ocidental.
Não custa nada lembrar que, a essa altura da vida, contando 85 anos, o filósofo
húngaro encontrava-se bastante debilitado em razão de um câncer, recentemente
descoberto em estágio terminal. Não obstante, como sua correspondência documenta
e contra todos aqueles que se regozijam em enaltecer o jovem anticapitalista
romântico, em detrimento do revolucionário maduro, a quem taxam inadvertidamente
de stalinista e conservador , engajou-se na causa em prol de Angela Davis com grande
afinco até seus últimos dias.
Munido de informações jurídicas sobre o caso e outras orientações para as ações
de solidariedade a Davis, ele redige uma proposta inicial de protesto público. Era um
texto breve e escrito de uma forma tão geral que assiná-lo não significa que você está
aderindo a um determinado programa político”, mas que, no entanto, não perdia de
vista a denúncia contundente do caráter político da prisão da militante comunista e
antirracista. Remetendo ao notório
affair Dreyfus
, ocorrido na França em fins do século
XIX, e à condenação dos anarquistas Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, na década
de 1920, nos Estados Unidos, o documento alertava para a ameaça oferecida pelo
processo judicial (que se anunciava viciado desde o princípio) não apenas à
liberdade, como à própria vida de Angela Davis.
O chamado à manifestação em favor de sua liberdade foi logo remetido por
Lukács a diversos intelectuais conhecidos seus, Anders entre eles. Talvez pela
experiência na articulação do movimento antinuclear, o amigo passaria a cumprir, a
1
A carta pode ser lida em: <http://real-ms.mtak.hu/15209/>.
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seu lado, um papel fundamental na coleta de assinaturas e divulgação da campanha,
além de fazer sugestões ao texto final, abaixo traduzido por nós:
Os signatários deste chamado dirigem-se à opinião pública americana com a
convicção de que expressam uma profunda preocupação, vívida em milhares
de intelectuais europeus, com o caso de Angela Davis. O caso Dreyfus, na
Europa, e o trágico destino de Sacco e Vanzetti, na América, deram provas
suficientes a qualquer ser humano perspicaz de que é possível, com o
cumprimento formal de todas as disposições legais, tirar de um ser humano
sua liberdade e até permitir que seja assassinado, quando os preconceitos
são sistemática e demagogicamente dirigidos contra ele. Todos os sinais
indicam que uma tal campanha psicológica de preparação do assassinato
judicial está ocorrendo contra Angela Davis. Dois tipos de preconceito
estão sendo mobilizados para sua privação da liberdade ou aniquilação. O
primeiro e mais forte é o ódio racial, que através da pessoa de Angela Davis
visa aterrorizar um grupo de seres humanos que lutam por sua emancipação.
A outra variedade de preconceito é dirigida contra os lutadores de esquerda.
Não é preciso estar de acordo com as ideias de Angela Davis para respeitá-
la como um ser humano que vive por seus princípios e por eles faz sacrifícios,
ou para ver com clareza a natureza e os objetivos dessa demagogia que
agora ameaça sua liberdade. Os signatários deste chamado sentem
conjuntamente o temor de que, com um trabalho formalmente correto do
aparato jurídico, esteja sendo preparado um atentado contra um ser humano
inocente e, através de sua pessoa, um atentado coletivo contra milhões de
seres humanos. Por isso nos dirigimos aos representantes das mais diversas
visões de mundo para quem democracia e justiça (como quer que as
interpretem) não são retórica vazia a fim de que, com o poder de oposição
da opinião pública, a injustiça aqui preparada possa ser evitada e Angela
Davis seja novamente posta em liberdade.
2
Este chamado foi publicado em março de 1971, originalmente em alemão, na
Neues Forvm
, ora dirigida por Günther Nenning, que após o contato feito por Anders
se somou pessoalmente à lista de signatários. Com destaque na capa da edição 207,
o texto era assinado por nomes como Ernst Bloch, grande amigo de Lukács na
juventude, mas de quem se distanciara, retomando agora o contato em razão da
campanha; por artistas, como os escritores Heinrich Böll, Elsa Morante, o poeta Nelo
Risi e a pianista húngara Annie Fischer; pelo ensaísta austríaco Ernst Fischer; por Agnes
Heller, Wolfgang Abendroth e Hans Heinz Holz, intelectuais próximos a Lukács; além
de cerca de mil estudantes europeus. A baixa adesão à campanha entre figuras
renomadas dos países europeus centrais é uma preocupação expressa na troca de
cartas.
No número 210 da revista, de maio e junho de 1971, seria publicado ainda um
segundo chamado, assinado por Lukács, com o intuito de arrecadar dinheiro para as
2
Vários documentos relativos à campanha pela liberdade de Angela Davis podem ser acessados em:
<http://real-ms.mtak.hu/22100/>.
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despesas de defesa a princípio, honorários dos advogados e custos do processo,
cujo montante poderia ultrapassar 100 mil dólares. Este foi um ponto importante de
divergência tática entre ele e Anders, pois este receava que o financiamento
estrangeiro comprometesse a causa em favor de Davis. Após consultar Aptheker,
Lukács leva a cabo a iniciativa de levantar fundos para a campanha, como informa a
Anders na última carta trocada entre os dois, enviada em 27 de abril de 1971. Lukács
contribuiu pessoalmente com uma doação de dois mil dólares, mas não chegou a ver
o sucesso da ação. Em fevereiro de 1972, Angela Davis foi libertada após o pagamento
de fiança no valor de 100 mil dólares; o veredito que a declarou inocente viria apenas
em 4 de junho, exatamente um ano após o falecimento de György Lukács.
Como citar:
PETERS, Carolina; LEITE, Murilo. Em prol de uma boa causa: a correspondência entre
György Lukács e Günther Anders.
Verinotio
, Rio das Ostras, v. 27, n. 2, pp. 310-316,
mar. 2022.