Martín I. Koval
Augenblick der Seele, 1912) é uma novela de Franz Werfel. No que se segue, contudo,
referir-nos-emos unicamente a O mundo urbano, em primeiro lugar, e ao menos em
parte a Sigmund Freud e à psicanálise, em segundo termo, porque acreditamos que
são determinantes para entender em que consiste aquela “irrupção” (aquele
Durchbruch) do estilo kafkiano, aquela ruptura que marcaria um antes e um depois na
sua produção artística e que, em definitiva, faria de Kafka o autor universalmente
famoso que é hoje.
O mundo urbano como protoversão de O veredito
O fragmento em prosa O mundo urbano [Die städtische Welt] conservou-se no
segundo caderno dos diários, entre as entradas de 21 de fevereiro e 26 de março de
1911; é o texto mais antigo de todos os manuscritos conhecidos nos quais o autor
tratou da relação intergeracional entre pais e filhos. Existem notáveis paralelismos
entre O mundo urbano e, acima de tudo, O veredito, mas também podem ser apontadas
evidentes linhas de continuidade com A metamorfose e a famosa Carta ao pai. Neste
tópico, contudo, trataremos de identificar apenas as mudanças, especialmente formais,
operadas por Kafka entre O mundo urbano e O veredito; veremos que, por esta via,
torna-se possível classificar o fragmento O mundo urbano como uma versão “verde”,
imatura, por assim dizer, da famosa narrativa sobre o destino funesto de Georg
Bendemann. A seguir, transcrevemos o início:
Oskar M., um estudante já de certa idade — se olhado de perto,
alguém se assustaria com os seus olhos —, deteve-se numa tarde de
inverno, em meio a uma nevasca, numa praça vazia, com a sua roupa
de inverno coberta por um sobretudo, um cachecol no pescoço e um
gorro de pele na cabeça. Piscava de tanto pensar. Tão perdido estava
em seus pensamentos que de repente tirou o gorro e esfregou o rosto
com a pele áspera. Finalmente pareceu chegar a uma conclusão e, com
um giro de dança, empreendeu o caminho de volta para casa.
Ao abrir a porta da sala de estar de seus pais, viu seu pai, um homem
bem barbeado de rosto carnudo e pesado, sentado diante de uma
mesa vazia, virado para a porta.
“Até que enfim”, disse este, assim que Oskar colocou um pé no
aposento, “fica junto à porta, eu te peço, pois tenho tanta fúria de ti
que não respondo por mim mesmo”.
“Mas, pai”, disse Oskar, e só ao falar notou o quanto havia corrido.
“Silêncio”, gritou o pai, levantando-se, com o que tapou uma janela.
“Exijo silêncio. E guarda os teus ‘mas’, entendes?”. Ao dizê-lo, pegou
a mesa com as duas mãos e a arrastou um passo mais para perto de
Oskar. “Simplesmente já não suporto tua vida dissipada [Lotterleben].
Sou um homem velho. Pensei ter em ti um consolo para a velhice, e
no entanto és para mim pior que todas as minhas doenças. Que nojo
de filho, que por preguiça, esbanjamento, maldade e (por que não te
dizer francamente?) estupidez, empurra seu velho pai para o túmulo!”.
Verinotio
482 |
ISSN 1981 - 061X, v. 31 n. 1, pp. 480-495 – jan.-jun., 2026
nova fase