RESENHA  
DOI 10.36638/1981-061X.2026.31.1.810  
R e s e n h a  
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Por uma nova Odisseia dos Grundrisse  
Gabriel M. J. P. Machado*  
MUSTO, Marcello (Org.). O primeiro rascunho de O capital de Marx: história da gênese e da  
recepção dos Grundrisse. Trad. Ana Clara Presciliano, Eleutério Prado, Marisa Amaral e Pedro  
Gava. Belo Horizonte: Autêntica, 2026. 379 p.  
O livro recém-publicado pela Editora Autêntica supre uma lacuna editorial  
significativa e, ao fazê-lo, entrega ao público lusófono uma poderosa contribuição para  
o aprofundamento dos debates de rigor acerca dos Grundrisse. A obra organizada por  
Musto materializa um esforço homérico de síntese tanto da posição singular ocupada  
pelos Grundrisse no itinerário intelectual marxiano quanto da tortuosa, trágica, mas  
não menos inspiradora história de luta pela publicação e difusão a nível global dessa  
obra incontornável. Ademais, e isto não é pouco, o leitor rapidamente poderá constatar  
nas páginas da obra organizada por Musto o caráter cosmopolita e coletivo que  
necessariamente deve caracterizar toda teoria marxista que leve a sério sua missão  
histórica de ser revolucionária.  
A coletânea divide-se em partes I e II, a primeira delas voltada à produção  
teórica marxiana ao tempo da elaboração dos Grundrisse, a segunda ao processo de  
tradução, publicação e recepção internacional dos manuscritos. Antecede-lhes,  
contudo, acurado prefácio e valiosa introdução sobre o itinerário marxiano anterior  
aos Grundrisse.  
O Prefáciode Eric Hobsbawm, historiador marxista que dispensa maior  
apresentação, assinala as mais expressivas peculiaridades da história de publicação  
dos Grundrisse, adequadamente alcunhada como uma verdadeira Odisseia  
(HOBSBAWM, 2026, p. 9): em primeiro lugar, trata-se do “único exemplo de um  
conjunto significativo dos escritos maduros de Marx que, na prática, permaneceram  
*
Doutorando e mestre em direito e graduando em filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais  
(UFMG). E-mail: muller_machado@hotmail.com.  
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inteiramente desconhecidos dos marxistas por mais de meio século após sua morte” e  
“quase completamente inacessíveis” por um século inteiro (HOBSBAWM, 2026, p. 9).  
Disso decorre a segunda peculiaridade, as condições extremamente refratárias a uma  
leitura rigorosa nas quais tais manuscritos foram pela primeira vez integralmente  
publicados (1939 e 1941, em dois tomos), com o ápice da repressão e da censura  
stalinistas e na aurora da II Guerra Mundial. Em terceiro lugar, tem-se a “prolongada  
incerteza quanto ao estatuto dos manuscritos de 1857-58”, especialmente no que  
respeita à “natureza exata de sua relação com os três volumes de O capital”  
(HOBSBAWM, 2026, p. 9), questão decisiva e candente até os dias de hoje.  
Quanto à recepção, o pensador britânico sublinha o “potencial para a  
heterodoxia” que o manuscrito marxiano trouxe consigo ao ganhar maior difusão após  
a crise soviética de 1956. Nesse aspecto, o longevo ineditismo da obra e a  
consequente ausência de uma interpretação oficial fossilizada contribuíram para que  
os Grundrisse ganhassem status de referência teórica central aos elementos sociais que  
visavam “libertar o marxismo da camisa de força da ortodoxia soviética” (HOBSBAWM,  
2026, p. 9). Embora se possa impugnar o arremate de Hobsbawm de que “os  
Grundrisse representam o pensamento de Marx em seu ponto mais rico” (HOBSBAWM,  
2026, p. 15), face às não poucas conquistas científicas do filósofo renano na década  
seguinte no campo da crítica da economia política (DEUS, 2010), há de se reconhecer  
que a referida obra traz reflexões marxianas que não reaparecem com idêntico enfoque  
e tonalidade em outro momento de seu itinerário, e pode ser, de fato, um fecundíssimo  
manancial para a tradição marxista.  
A conscienciosa Introduçãode Marcello Musto, por sua vez, conduz o leitor  
por veredas ainda hoje muito pouco visitadas, a saber, os primeiros desenvolvimentos  
da crítica marxiana da economia política. Ao passo que a crítica da economia política  
fora cronologicamente apenas a última das três críticas ontológicas a partir das quais  
Marx instaurou um pensamento com estatura e natureza próprias (CHASIN, 2009),  
antecedida que fora pelas críticas da política e da filosofia especulativa, é também  
correta a asserção de Musto de que já a partir do desenvolvimento inicial da crítica da  
economia política “suas investigações, até então de caráter predominantemente  
filosófico, político e histórico, voltaram-se para essa nova disciplina, que se tornou o  
foco de suas pesquisas e preocupações científicas, delimitando um novo horizonte que  
nunca mais foi abandonado” (MUSTO, 2026, p. 26). Musto o comprova  
convincentemente com um sobrevoo pelo conteúdo dos inúmeros e volumosos  
Cadernos de estudo de Marx ao longo dos 13 anos que sucederam seu contato com  
o “genial esboço” de Engels (MARX, 2024, p. 26) até a redação dos Grundrisse (1857-  
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58), e por outras obras publicadas em vida e que tiveram na crítica da economia  
política sua espinha dorsal, como A sagrada família (1845), Miséria da filosofia (1847),  
Nova Gazeta Renana (1848-9), Nova Gazeta Renana Revue (1850), O 18 de Brumário  
de Luís Bonaparte (1852) e muitos dos artigos publicados no New York Tribune (1851-  
62). Em verdade, tem-se uma dimensão da grandiosidade da empreitada assumida  
por Marx ao tomarmos conhecimento de que o prospecto de escrever uma Economia,  
que posteriormente receberia o nome de Crítica da economia política e, ao cabo, de O  
capital: crítica da economia política, fora feito por Marx desde 1844, tendo assinado  
acordo editorial para publicá-la já no ano seguinte, ao passo que, muito contrariamente  
à expectativa inicial, mesmo as quatro décadas de esforço vital hercúleo que se  
seguiram provaram-se insuficientes para concluir tal trabalho teórico até mesmo para  
um gênio da estatura de Marx.  
O leitor mais familiarizado com o itinerário intelectual marxiano observará com  
razão que Marx jamais abandona as críticas da política e da filosofia especulativa,  
presentes até mesmo em O capital (2021, p. 139), na Crítica do Programa de Gotha  
(1875) e noutras obras de inquestionável maturidade (cf.; MUSETTI, 2022; SARTORI,  
2025; DEUS, 2012), mas a crítica da economia política de fato adquire protagonismo  
em suas investigações e publicações, ao passo que também retroage sobre aquelas  
primeiras críticas, enriquecendo-as, ao mostrar com cada vez mais precisão categorial  
a base real, anatômica, das inversões sociais que são espelhadas de modo unilateral  
tanto pela política quanto pela filosofia especulativa. Os Grundrisse, dado seu caráter  
mais indistinto entre pesquisa e exposição, inevitável em um esboço, são objeto  
privilegiado para observar a imbricação de tais críticas de modo mais evidente.  
A Parte I da coletânea, com três artigos, é inaugurada pelo texto “A vida de  
Marx durante a elaboração dos Grundrisse, de Marcello Musto. O pensador italiano  
tem o grande mérito, nítido também em suas outras obras sobre Marx (2018; 2022;  
2023), de explicitar com rara competência o homem por trás do teórico, do  
revolucionário e mesmo da imagem titânica que o futuro lhe impôs. Descobrimos, a  
contrapelo da bruma mitológica, a figura humana: as humilhações diante da pobreza  
extrema, as muitas enfermidades que acompanharam e não raro interromperam seus  
estudos, a angústia diante das recorrentes tragédias familiares, a relação indissociável  
com a esposa e as filhas, a força e a beleza da amizade com Engels... Ademais, há  
também um interesse teórico mais direto na compreensão cuidadosa destes elementos  
por assim dizer mais biográficos de Marx, na medida em que através deles, sobretudo  
pelo legado das correspondências marxianas, descobrimos também quais eram as  
impressões e expectativas pessoais do revolucionário alemão diante da nascente crise  
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de 1857, a primeira crise mundial, que o levou a interromper 13 anos de pesquisas  
para enfim tentar colocar sobre o papel, pela primeira vez, sua projetada Economia.  
Musto pontua como tanto Marx quanto Engels enxergavam a crise que iniciara  
em 1857 como algo que viria a assumir proporções catastróficas e duradouras em  
termos econômicos, e que traria consequências políticas igualmente grandiosas, com  
a deflagração de processos revolucionários por toda a Europa após uma década de  
marasmo contrarrevolucionário. Importa lembrar que os Grundrisse foram escritos  
precisamente durante o período de duração da crise de 1857-58, sob o espírito de  
tão elevadas expectativas, as quais, entretanto, não se concretizaram: a economia  
capitalista teve uma rápida recuperação a partir de meados de 1858, e nenhuma  
movimentação revolucionária sequer esboçou vir à luz neste interregno. Assim, talvez  
fosse dado ao leitor, a partir do texto de Musto, refletir: até que ponto o caráter mais  
instigante dos Grundrisse, o charme que até hoje lhe granjeia muitos adeptos  
entusiasmados, tem débito com tais expectativas marxianas a respeito da crise de  
1857 e de uma consequente abertura para uma revolução imediata? Se é um fato que  
tais expectativas foram em boa medida desmentidas pela realidade e posteriormente  
a relação entre crise e revolução foi revista e muito nuançada pelo próprio Marx  
(MUSTO, 2023), talvez tal questão carregue algum interesse científico.  
No segundo número da Parte I consta o artigo de Michael R. Krätke, “Marx  
jornalista da primeira crise econômica mundial”. Levanta-se, aqui, uma tese  
extremamente instigante, particularmente para aqueles que visam a um efetivo  
renascimento do marxismo (LUKÁCS, 2020): em sua atuação como jornalista, a qual  
se estendeu com relativa continuidade por ao menos duas décadas, Marx teria tratado  
“extensivamente de tópicos que não tocou em seus grandes manuscritos” (KRÄTKE,  
2026a, p. 100). Desse modo, tais artigos jornalísticos constituiriam “fontes de primeira  
grandeza, indispensáveis para todos aqueles que desejam estudar seriamente a teoria  
política de Marx” (KRÄTKE, 2026a, p. 101). Que não faça sentido falar de uma “teoria  
política” em Marx, sim em uma crítica da política, como se aduziu acima, é algo que  
não diminui a relevância e a riqueza da hipótese de Krätke. Com efeito, pode-se  
encontrar em tal produção jornalística um exemplo de elo mediador que com  
frequência falta mesmo aos bons marxistas que tomam como referência os três livros  
d’O capital, já que estes últimos, mesmo em seu nível mais concreto de análise (isto é,  
no Livro III), ainda estão em nível bem mais abstrato do que o nível de concretude de  
um texto jornalístico. Este se aproxima muito mais da empiria e, no limite, deve ser o  
tipo de análise que todo marxista deve almejar ser capaz de realizar, em vistas a  
conseguir responder o que fazer no aqui e agora, em vez de fornecer respostas  
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abstratas que hão de tomar, necessariamente, o caráter fraseológico de fórmulas  
prontas. Tendo em conta os artigos de Marx publicados em 1858-9 acerca da crise de  
1857-58, Krätke explicita como, para Marx, as crises não são acidentais, contingentes,  
mas “momentos do ciclo de vida do capital” (KRÄTKE, 2026a, p. 109).  
Terceiro número da Parte I, também da lavra de Krätke, “Marx e a redação dos  
Cadernos da crise de 1857-58” remete à profundidade e amplitude dos estudos  
marxianos sobre tal crise e, com toda razão, pontua o equívoco da “imagem  
convencional de Marx estudando primordialmente a Ciência da lógica de Hegel  
enquanto escrevia os Grundrisse” (KRÄTKE, 2026b, p. 112). Tal imagem, que fez escola  
entre uma cepa significativa de marxistas ao menos desde a década de 1970, com a  
“Nova leitura de Marx” (sobretudo nas figuras de H. Backhaus e H. Reichelt), na medida  
em que estes conferem certa primazia e autonomia ao modo de exposição, com  
frequência obscurece a natureza e o teor exatos do cerne da investigação marxiana  
(ALVES, 2013), que não se movia por qualquer tipo de analogia ou homologia com a  
Lógica hegeliana, mas sim buscava, neste caso específico, “a explicação racional do  
fenômeno das crises cíclicas modernas, que Marx considerava parte indispensável de  
sua crítica sistemática da economia política” (KRÄTKE, 2026b, p. 112). O inédito  
caráter mundial da crise de 1857-58 também obrigou o filósofo alemão a ampliar o  
escopo e a escala de suas pesquisas “para abarcar todas as partes do mercado  
mundial” (KRÄTKE, 2026a, p. 120), fato que também compõe a explicação da  
dificuldade imposta a Marx para finalizar seu plano da Crítica da economia política: o  
próprio objeto a ser criticado estava em processo de substancial metamorfose em seu  
movimento expansivo de entificação a nível mundial.  
A Parte II da coletânea, recordamos, centra-se no processo de tradução,  
publicação e recepção dos manuscritos em escala mundial. As discussões mais teóricas  
cedem espaço a uma discussão mais historiográfica a respeito das agruras particulares  
enfrentadas pelos Grundrisse em sua Odisseia mundial para vir à luz em cada país e,  
com isso, suscitar os primeiros debates acerca de seu conteúdo. Como dirá Musto no  
artigo que inaugura esta Parte II, não há exagero em falar em “100 anos de solidão”  
desta peça singular do itinerário marxiano, uma vez que apenas em 1953 recebeu  
uma reimpressão que possibilitou uma difusão minimamente significativa.  
Os artigos que se seguem narram em graus variados de detalhamento a história  
da recepção dos Grundrisse em todos os países nos quais o manuscrito foi  
integralmente traduzido. Em nome da concisão, pontuam-se apenas alusivamente  
alguns daqueles mais representativos do caráter geral da recepção mundial dessa  
obra, embora cada artigo possua interesse e relevância historiográfica próprios.  
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No capítulo sobre Alemanha, Áustria e Suíça, conhecemos através de Ernst  
Theodor Mohl a “ignorância deliberada” que se abateu sobre as obras de Marx na  
Alemanha Oriental e o “êxodo da intelligentsia ‘burguesa’” (MOHL, 2026, p. 149) na  
Alemanha Ocidental enquanto fatores sistêmicos que dificultaram sobremaneira a  
difusão de um texto complexo como os Grundrisse nos países de língua germânica.  
Essa barreira apenas começou a ser quebrada com o incontornável Gênese e estrutura  
de O capital de Marx, de Roman Rosdolsky, publicado originalmente em alemão em  
1968.  
Na Rússia (à época, parte da URSS), primeiro local de lançamento da obra  
completa, Lyudmila L. Vasina nos rememora o adiamento da publicação do Tomo II da  
obra em razão da invasão de Hitler à União Soviética, em 22 de junho de 1941,  
contexto que também ilustra por que essa primeira publicação dos Grundrisse teve  
praticamente nenhuma repercussão. Descobrimos também o quão decisiva foi a  
tacanha posição pessoal de Stálin para o atraso na publicação dos Grundrisse, já que  
o ditador russo “acreditava que três volumes de O capital eram suficientes para as  
massas compreenderem as ideias de Marx” e “os ‘manuscritos preliminares’ eram de  
menor importância, porque não refletiam suas posições e seus pontos de vista  
maduros” (VASINA, 2026, p. 175). Em verdade, mesmo após a morte de Stálin os  
primeiros trabalhos sobre os Grundrisse ainda continuaram em suspenso, e só  
começaram a ser publicados em meados de 1960, “quando a influência da opinião de  
Stálin sobre o estudo dos Grundrisse deixou de ser um obstáculo” (VASINA, 2026, p.  
176).  
Por Hiroshi Uchida descobrimos o momento nipônico na Odisseia dos  
Grundrisse, primeiro país do mundo a traduzi-lo integralmente, onde desempenhou  
papel verdadeiramente decisivo sobre a tradição marxista nacional: o manuscrito  
enterrou “interpretações deterministas da teoria de Marx e abriu múltiplas  
possibilidades para seu desenvolvimento ulterior” (UCHIDA, 2026, p. 189), o que se  
comprova pela gama rica de trabalhos da lavra de estudiosos japoneses referida pelo  
autor, que também foi um grande adepto da tese, com a qual decididamente não  
convergimos, mas que mostra a tentativa de ir muito além dos esquematismos da  
oficialidade stalinista, segundo a qual haveria uma homologia importante entre os  
Grundrisse e a Lógica hegeliana (UCHIDA, 2026, pp. 195-6).  
A história francesa de apropriação dos Grundrisse nos é contada por André  
Tosel, que ressalta a relação problemática de Louis Althusser, talvez o mais influente  
marxista francês, com os Grundrisse. Ao passo que este autor considera a Introdução  
dos Grundrisse como “texto-chave” e “escrito filosófico e epistemológico essencial de  
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Marx” (TOSEL, 2026, p. 206) na obra Pour Marx, chama a atenção o fato de jamais ter  
estudado os Grundrisse como um todo, sem jamais sequer citar outra parte além da  
Introdução, o que também alude ao generalizado modo, um tanto manipulatório, com  
que marxistas de todos os países não raro se apropriaram da obra marxiana, enfocando  
apenas obras (ou, neste caso, parte de obras) que melhor convinham à tese que  
pretendiam sustentar e, indiretamente, aos problemas práticos que tinham de  
enfrentar.  
Na Itália, sob o guia de Mario Tronti, o leitor relembrará a expressiva  
repercussão gerada pelos Grundrisse neste país, sobretudo porque o assim chamado  
“estilo dos Grundrisse rico em intuições e sugestões, em maneiras de colocar  
problemas sem soluções ou análises sem conclusões explícitas tinha um vigor  
polêmico ilimitado e uma liberdade de escrita que era muito apreciada pelo novo  
marxismo herético dos anos 1960” (TRONTI, 2026, p. 221). Eis uma das grandes  
razões da forte apropriação dos Grundrisse pelo operaísmo italiano, cuja maior figura  
teórica encontra-se em Antônio Negri, autor da famosa obra Marx além de Marx  
(2016), na qual o autor não apenas contrapõe as duas obras, mas sustenta a polêmica  
tese do caráter mais avançado dos manuscritos de 1857-58 em relação a O capital.  
O capítulo destinado à análise dos países hispanófonos (Cuba, Argentina,  
Espanha e México), de autoria de P. Ribas e R. Plá Leon, demonstra o mesmo sentido  
geral de uma apropriação dos Grundrisse que vem a reboque de uma forte rejeição ao  
dogmatismo e ao esquematismo stalinistas, e, nesse sentido, representam um decidido  
avanço, mas, por outro lado, ainda visavam a uma transposição mais ou menos  
imediata, e portanto problemática, do aparato categorial dos Grundrisse para o  
“movimento de libertação latino-americano”, sobretudo na figura de seu principal  
representante, o argentino Enrique Dussel.  
O caso da Tchecoslováquia, tratado por Stanislav Hubík, também é digno de  
menção específica já que em certa medida sintetiza as agruras fundamentais da  
apropriação dos Grundrisse pelos países do Leste Europeu. Em rechaço das já  
exaustivamente referidas amarras stalinistas, com suas “rígidas contraposições entre  
marxismo ortodoxo e revisionismo” (HUBÍK, 2026, p. 234), os Grundrisse e os  
Manuscritos econômico-filosóficos foram referenciais teóricos particularmente decisivos  
neste país. É esse contexto que explica o surgimento de duas obras significativas para  
o marxismo, nos anos de 1962 e 1963, respectivamente, a Lógica de O capital de  
Marx, de J. Zelený, e a Dialética do concreto, de K. Kosík. Ao passo que consistem em  
obras refinadíssimas, ilustram também aquelas agruras na medida em que o rechaço  
ao esquematismo stalinista recai também sobre obras de Marx que já tinham uma  
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interpretação oficial pelo Diamat, de modo que os avanços de autores inteligentes  
desta época normalmente vieram a partir do diálogo (ainda que crítico) da obra de  
Marx com outros filósofos, neste caso, sobretudo Hegel, mas também Heidegger, no  
caso de Kosík. O problema deste procedimento, nada obstante seus avanços e méritos,  
é a não rara perda da particularidade da obra marxiana, em seus próprios  
pressupostos.  
O capítulo sobre Brasil e Portugal, da autoria de Ana Clara Passos Presciliano,  
faz uma análise cuidadosa da trajetória da recepção da obra nestes países, ressaltando  
o longo período de apropriação da obra mediada por traduções em outros idiomas,  
dentre as quais se destacou a edição em espanhol da editora Siglo XXI, lançada na  
Argentina e de grande difusão no Brasil. Durante mais de meio século após a  
republicação dos Grundrisse em 1953, tudo que se tinha em língua portuguesa eram  
traduções de partes da obra, como a “Introdução”, traduzida em 1946 por Florestan  
Fernandes, ou as “Formações econômicas pré-capitalistas”, traduzidas em 1975 por  
José Maia, embora nenhuma das duas tenha sido vertida diretamente do alemão. De  
fato, se é verdade a afirmação da autora de que os Grundrisse “foram apropriados em  
diferentes momentos como ferramenta teórica para interpretar a realidade brasileira,  
alimentar a crítica ao capitalismo dependente e orientar estratégias políticas”  
(PRESCILIANO, 2026, p. 297), é também verdade que o fato de a primeira tradução  
integral para o português tenha ocorrido apenas em 2011 (pela Editora Boitempo,  
com tradução de Mario Duayer e Nélio Schneider), a última tradução integral da obra  
dentre as 21 já realizadas mundo afora, é também um sintoma da miséria brasileira  
(CHASIN, 2000) em seu desenvolvimento hiper-tardio. Ao mesmo tempo, há que se  
recordar a advertência marxiana no prefácio à primeira edição d’O capital (1867): “Uma  
nação pode e deve aprender com as outras” (MARX, 2013, p. 79). Deve-se, portanto,  
retirar também dessa apropriação hipertardia o que ela tem de melhor a oferecer:  
escapar à ânsia infantil de querer reinventar a roda, aprender com as conquistas  
teóricas de outras nações, mas também com os seus erros.  
A coletânea finda com um epílogo de Marcello Musto – “Como Marx escreveu  
O capital e por que a obra permaneceu acabada” – em sintética análise do itinerário  
marxiano da crítica da economia política após a redação dos Grundrisse até sua morte.  
Ressaltará ao leitor o esforço febril empreendido por Marx nas décadas que sucederam  
o manuscrito de 1857-58 para levar a cabo o plano de redação de sua crítica, bem  
como o fato de que tal planejamento foi sendo modificado ao longo dos anos, até  
chegar ao plano final dO capital, em quatro Livros (DEUS, 2015). Chamará também a  
atenção do leitor o fato de que até seus últimos esforços vitais Marx retomou seus  
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manuscritos d’O capital com a pretensão de finalizar sua obra, particularmente o Livro  
II, aquele cuja forma final parece ter-lhe apresentado as maiores dificuldades até  
onde conseguiu ir.  
Pode-se dizer que na primeira Odisseia dos Grundrisse, isto é, na história da  
luta para que a obra enfim fosse publicada e debatida pela tradição marxista  
sobrevivente, ricamente apresentada pela coletânea, constatamos e isso é  
significativo que foi quase universal entre os intérpretes de primeira viagem do  
manuscrito o recurso (e não raro a tonificação) àqueles momentos que mais  
diretamente serviram ao objetivo imediato de contrapor-se à ortodoxia esquemática  
da ditadura stalinista e de seus braços nos Partidos Comunistas nacionais mundo afora.  
A um marxismo que resfolegava a duras penas carecia rasgar a camisa de força que o  
sufocava, e as interpretações ditas “heterodoxas” ensejadas pelos Grundrisse foram o  
caminho tomado para isso. Hoje, a camisa de força stalinista (ou “marxista-leninista”,  
para os que se envergonham demais para anunciar seu verdadeiro nome), onde ainda  
subsista como cadáver insepulto, já não tem a mesma força determinativa de outrora,  
e, ainda que existam outras tantas condicionantes à atividade teórica de rigor, tem-se  
terreno social mais fértil para uma apropriação menos desesperada e imediatista da  
obra marxiana como um todo, e dos Grundrisse em particular.  
Nesse sentido, uma possível e talvez necessária nova Odisseia dos Grundrisse  
exige, hoje, não a imputação de um sentido que forneça respostas para questões  
imediatas do presente, ou o recorte de pedaços da obra mais ou menos favoráveis a  
certa tese ou questão prática imediata, procedimentos que, mesmo que historicamente  
compreensíveis pelo contexto de extremos em que os manuscritos foram inicialmente  
conhecidos, ainda carrega certo caráter manipulatório. Este caminho, há que  
reconhecer sem meias palavras, não nos trouxe muito longe. E, no entanto, não há  
sentido nem tempo para lamuriar o passado. Caminho mais profícuo, conquanto  
reconhecidamente mais árduo, afigura-se no esforço de apropriação desta obra  
seminal em seu sentido objetivo, imanente, com todas as suas potencialidades e  
limites, acertos e equívocos, dentro da totalidade do itinerário teórico marxiano. E no  
reconhecimento de que apenas essa totalidade poderá nos servir não como fórmula a  
ser aplicada ao nosso tempo, procedimento absolutamente estranho à natureza  
ontológica (CHASIN, 2009) do pensamento marxiano (e, assim, também de qualquer  
marxista consequente com este pensamento), mas como ponto de partida para que  
possamos, de posse de tal cabedal teórico substancioso, debruçarmo-nos coletiva,  
cooperativa e internacionalmente à apropriação teórica das formas de ser do tempo  
presente. Carente desta apropriação, falar em revolução continuará sendo mera  
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Resenha: Por uma nova Odisseia dos Grundrisse  
fraseologia típica de um socialismo vulgar. A obra aqui resenhada, com muitos méritos,  
aponta com vigor para a necessidade de tal renovação radical da teoria marxista.  
Referências bibliográficas  
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Daseinsformen. Saarbrücken: Novas Edições Acadêmicas, 2013.  
CHASIN, J. A miséria brasileira 1964-1994. Santo André: Estudos e Edições Ad  
Hominem, 2000.  
CHASIN, J. Marx: estatuto ontológico e resolução metodológica. São Paulo: Boitempo,  
2009.  
DEUS, Leonardo Gomes de. Reconstrução categorial de O capital à luz de seus  
esboços: a instauração da crítica da economia política (1857, 1863). Tese  
(Doutorado) Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal  
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DEUS, Leonardo Gomes de. As origens do pensamento marxiano (I): crítica da economia  
política como crítica da especulação. Verinotio, Rio das Ostras, pp. 40-59, 2012.  
DEUS, Leonardo Gomes de. Marx em tempos de Mega: os planos e o plano de O  
capital. Estudos Econômicos, São Paulo, v. 45, n. 4, pp. 927-54, out./dez. 2015.  
HOBSBAWM, Eric. Prefácio. In: MUSTO, Marcello (Org.). O primeiro rascunho de O  
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Como citar:  
MACHADO, Gabriel M. J. P. Resenha: Por uma nova Odisseia dos Grundrisse. Verinotio,  
Rio das Ostras, v. 31, n. 1, pp. 514-524; jan.-jun., 2026.  
Verinotio  
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ISSN 1981 - 061X v. 31, n. 1, pp. 514-524 jan.-jun., 2026  
nova fase