Vitor Bartoletti Sartori
materialista de Karl Marx. E, também devido a isso, não configura simples preciosismo
remeter a Marx no século XXI. Sua posição materialista é um alerta contra os
relativismos, as infinitas interpretações supostamente possíveis e a ideologia segundo
a qual o essencial é a disputa de narrativas conflitantes e, para dizer com Rorty,
transformar os conceitos.
Ao invés de buscar fazer coisas com palavras, devemos apreender as
determinações do real a partir de abstrações razoáveis, por mais antiquado e démodé
que isso pareça. Assim, por meio do espelhamento aproximado da especificidade dos
nexos entre os entes, a determinação ontoprática do pensamento apresenta-se e, ao
fim, o critério de veracidade do pensamento mostra-se indissociável da práxis que
opera em meio à objetividade do próprio real, cujas leis imanentes precisam ser
descortinadas.
Isto posto, o tratamento original da superação do modo de produção capitalista
dentro do modo de produção capitalista encontra-se no livro III de O capital.
Ao abordar as determinações mais gerais do capital portador de juros, Marx
constatou uma oposição: na sociedade capitalista, os juros são figuras econômicas em
que, de um lado, apresenta-se o capitalista monetário, que empresta dinheiro (que,
desse modo, passa a figurar como dinheiro-mercadoria); doutro lado, encontra-se o
capitalista produtivo (seja como capital comercial, seja como capital industrial). Ao
capitalista que atua na valorização do valor (seja o produzindo, seja o realizando) Marx
chamou de “capitalista funcionante” e, com isso, o autor identificou uma oposição que
se desenvolve nas determinações fundamentais do capital portador de juros: aquela
entre propriedade privada e função concreta na produção. Objetivamente, portanto, e
nas próprias leis imanentes da produção capitalista, já em seus elementos
fundamentais, há uma antítese entre a apropriação de parte do mais-valor por meio
da propriedade privada e a produção do valor. No capital portador de juros, no
entanto, essa oposição encontra-se no confronto intracapitalista, que, nesse sentido,
somente indiretamente traz uma forma de exploração, que Marx chama de secundária,
para os numerosos indivíduos da classe trabalhadora.
Na própria prática do mundo do capital, o conflito entre camadas da burguesia
apresenta uma oposição objetiva e para as representações que essas camadas
possuem de si mesmas. Não raro, o capitalista funcionante vê-se como um trabalhador
frente ao capitalista monetário e, assim, a oposição entre formas de capital (monetário,
comercial e industrial), ainda hoje, parece ser o elemento nuclear da produção ao passo
que nunca pode se conformar como tal. Já no capital portador de juros, assim, resta
que parcelas da burguesia passam a apropriar-se da riqueza social a partir da simples
Verinotio
nova fase
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ISSN 1981 - 061X v. 31, n. 1, pp. IX-XLIII – jan.-jun., 2025