EDITORIAL  
DOI 10.36638/1981-061X.2026.31.1.811  
Editorial  
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Tempos de crise e a miséria brasileira: medo e esperança  
diante do Estado de Direito  
Vitor Bartoletti Sartori  
I
Marx ainda hoje? Não vivemos o tempo de um novo paradigma?  
Remeter a Marx em pleno século XXI pode parecer preciosismo em tempos de  
guerras, de Donald Trump, de avanço da extrema-direita e de uma ideologia misógina,  
particularista, agressiva, cínica e que ganha mais força a cada dia. Alguns poderiam  
inclusive clamar por uma atuação mais contemporânea e jovial da vetusta esquerda:  
em redes sociais, deveríamos marcar posições progressistas contra o inimigo, sendo  
preciso certo senso de divulgação, ou mesmo um empreendedorismo digno dos  
influencers. De acordo com tal posicionamento, o “fascismo” se avizinha e vem  
apresentando-se como uma espécie de segunda natureza na miséria da vida cotidiana.  
Essa última, por sua vez, apresentar-se-ia em uma espécie de era da pós-verdade, em  
que a disputa de narrativas seria o essencial, ainda mais no momento em que se  
aproximam as eleições presidenciais.  
Nessa hora, mas também no dia a dia, a teoria sisuda, a análise imanente, a  
trabalhosa leitura estrutural estariam com dias contados em uma situação-limite, que  
demandaria todo nosso carisma, poder de convencimento e uma linguagem que  
conscientemente se aproxima de uma espécie de marketing social “antifascista”.  
Quem não compartilhasse desse ímpeto, faria o “jogo da direita”, de modo que  
o código binário parece ganhar validade novamente: progressismo adstringido ou  
fascismo. Assim, com as eleições em perigo, nos perguntam: não seria possível que a  
estetização da política forte nos próprios propagandistas fascismo estivesse agora  
de nosso lado? Afinal de contas, quem se importa com o que Marx disse ou deixou de  
dizer em um mundo marcado por um “estado de exceção permanente” (Benjamin,  
“relido” por Agamben)? A urgência das respostas seria preemente e as armas do  
passado não se prestariam mais para as condições do presente, em que o próprio  
marxismo teria se transformado em uma relíquia e as eleições, bem como a trends e  
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os algoritmos das redes sociais, ganhariam a dianteira em uma espécie de luta do bem  
contra o mal. Se a ausência de autocrítica for uma precondição para derrotar o  
“fascismo”, dizem-nos: que assim seja!  
Hoje, há certa visão de mundo na autoproclamada esquerda, segundo a qual  
vivemos uma nova era, sem precedentes na história da humanidade, e absolutamente  
nova. Tratar-se-ia de uma espécie de “neofascismo” tiktoker cujo instrumento de  
publicização é o Twitter (atual X, de Elllon Musk). Em um cenário desses, a pergunta  
clássica sobre o que fazer daria lugar à militância aguerrida, que não deixa de se  
apresentar em tons teológicos, do bem contra o mal. Seria essa visão acurada?  
Estamos mesmo em um momento em que todos os “paradigmas” precisam ser  
deixados de lado?  
É um fato que vídeos de influencers recebem muito mais visualizações que o  
número de leitores contemporâneos de O capital. Nós, marxistas, somos dinossauros,  
que não admitem a própria insignificância e que se atêm a parâmetros de outrora?  
Somos conservadores, que não conseguem talvez por hábito adquirido deixar de  
ler textos clássicos no original? O espectro do comunismo tornou-se um fantasma que  
assola meia dúzia de gatos pingados que insistem em declarar que, afinal de contas,  
não há crítica possível sem questionamento das relações sociais de produção  
subsumidas ao capital?  
Se a resposta a essas perguntas for afirmativa, não faz mais sentido falar em  
capitalismo. Porém, caso seja necessário ruminar as derrotas sofridas nas últimas  
décadas pensando sobre o que é o capitalismo contemporâneo, a situação é muito  
diferente. Imbuídos da certeza de que a segunda opção é verdadeira, passamos a  
nossas ruminações.  
II  
Antes disso, um respiro!  
Em sua história, a Verinotio guia-se pelo fato de que quaisquer questões  
apresentadas na sociedade contemporânea dizem respeito à contraditória reprodução  
do modo de produção capitalista, assim como à inescapável presença de crises  
econômicas. Por tudo que sempre defendemos, nossas respostas às questões  
formuladas acima é um retumbante não. Mas precisamos refletir sobre a sedução  
dessas perguntas.  
Em verdade, o fato de levantarmos essas questões é um sintoma. Ao fazê-lo,  
assumimos, com Chasin e como estipulamos em outros editoriais, que, em verdade, a  
esquerda está morta e que o autoproclamado campo progressista é um morto-vivo,  
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um cadáver insepulto que, no melhor dos casos tenta tirar sua poesia do passado. Ou  
seja, sabemos que as indagações arroladas acima detêm certa razão de ser. Elas  
expressam, para que digamos com Paulo Arantes, uma espécie de “novo tempo do  
mundo”. E, nesse sentido específico, furtar-se de tentar respondê-las com seriedade e  
sem ar arrogante de superioridade pode ser fatal. Porém, o esforço necessário para  
dar respostas satisfatórias a essas indagações, bem como aos desafios de nosso  
tempo, é coletivo e envolve a mobilização das mentes e dos corações de todos aqueles  
dispostos a lutar por uma forma de sociabilidade superior. Por isso, nossos esforços  
imediatos que não excluem muitos outros; antes os demandam vão na direção do  
questionamento substantivo sobre a ordem do capital e suas organizações; e a labuta  
científica é necessária para tal empreitada.  
A angústia expressa nos questionamentos acima decorre de uma situação real,  
a qual deve ser compreendida com seriedade e contando com muitas cabeças.  
No ímpeto desse esforço coletivo, não podemos nos furtar da busca pela  
compreensão científica da realidade (afinal, como disse o velho Mouro, essência e  
aparência não se identificam imediatamente). Corroborando tal projeto, o lançamento  
do presente número da revista é marcado por dois belos e rigorosos textos na sessão  
de artigos de tema livre, respectivamente, de Marcello Musto e de Martin Kóval. O  
lançamento da presente edição também conta com dois singelos acontecimentos, os  
quais, mesmo que com pretensões modestas, julgamos de grande importância para o  
projeto de renascimento da esquerda e, em específico, da crítica marxista  
contemporânea.  
Primeiramente, dando continuidade à edição da obra completa de J. Chasin,  
organizamos a republicação de a Miséria Brasileira, edição essa que é fruto de esforços  
coletivos e dá continuidade às duas publicações anteriores da Verinotio Livros: Futuro  
ausente, também do filósofo paulista, e Determinação social do pensamento econômico  
na unidade do método materialista, de Elcemir Paço Cunha. Ambos os livros podem  
ser adquiridos ou podem ser baixados gratuitamente no nosso site da Verinotio.  
Dessa vez, realizamos uma parceria (que dará origem a uma coleção de livros)  
com a Editora Hedra, com quem juntamos forças e agradecemos na figura do  
“neoragueliano” Felipe Musseti, que também passa a fazer parte do corpo de editores  
da revista. Tal fato consolida o trabalho conjunto do NEHTIPO, coordenado pelo  
professor Antônio Rago Filho, da PUC SP, e pelo Grupo de estudos de marxologia, da  
UFMG, coordenado pela professora Ester Vaisman. Além da publicação dos textos  
referidos, futuramente, publicaremos traduções de clássicos do marxismo e textos  
autorais ligados à nossa linha editorial, buscando dar azo ao rigoroso debate de ideias,  
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comprometido com o projeto de emancipação do trabalho e com a superação do modo  
de produção capitalista.  
Outro marco do presente número da Verinotio está expresso no dossiê “Crítica  
à economia política, crítica ao Direito”. E o esforço expresso nos textos aqui  
disponibilizados carrega uma proposta clara de crítica ao Direito e às políticas  
públicas.  
De mais diversos matizes, as pessoas cujos textos foram por nós publicados  
colocam-se explicitamente pela superação do modo de produção capitalista, do Estado  
e do Direito, o que, acreditamos, não é pouco e nem insignificante. Em verdade, tal  
posição é basilar para a formação de programas econômicos e políticos que sejam  
capazes de atingir o núcleo da relação-capital. E, por essa razão, o embate que  
buscamos trazer à tona ocorre com franqueza e sem meias palavras, pois  
compartilhamos do essencial.  
Ademais, contra a tendência da moda de relegar a lei do valor a um debate  
meramente filológico, todas as vertentes do marxismo aqui em debate e  
presencialmente vinculadas ao evento homônimo que ocorre do dia 03 ao dia 06 de  
junho de 2026 na Faculdade de Direito e Ciências do Estado da UFMG reafirmam a  
crítica ao valor, às formas mercadoria, dinheiro e capital e, assim, retomam as bases  
do projeto marxista de crítica ao modo de produção capitalista. Agradecemos  
encarecidamente a todas as pessoas envolvidas na organização coletiva do evento e  
na elaboração do Dossiê e lamentamos que importantes presenças da crítica ao Direito  
nacional como Guilherme Leite Gonçalves, Flávio Roberto Batista e Julia Lenzi Silva  
não possam ter comparecido. Reafirmamos nosso compromisso de um debate aberto  
e direito, no qual compartilhamos do essencial na mesma medida em que estamos  
dispostos a explicitar nossas diferenças.  
Conjuntamente com a Verinotio, os organizadores do evento (e mais pessoas  
que não puderam participar, infelizmente) renegam a principal ilusão quanto ao  
presente: aquela segundo a qual as bases econômicas e institucionais da sociedade  
atual são sustentáveis. A crítica à economia política, ao Estado e ao Direito são pontos  
de partida de todos nós e, mesmo com todas as nossas limitações e divergências,  
procuramos deixar nossas singelas contribuições para que um projeto emancipador  
possa ressurgir atualizado, sem os vícios que marcaram a esquerda que hoje está  
moribunda e sobrevive com ajuda de aparelhos. Ainda sobre isso, deixemos claro:  
autores que não constam em nosso dossiê e que figuram nas antípodas de nossas  
opções de leitura de Marx também conformam esse importante campo e, em nossas  
discordâncias, são considerados por nós aliados.  
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Já respondendo rapidamente a um pressuposto das indagações levantadas  
acima: uma crítica radical ao capitalismo não leva à paralisia ou ao encastelamento.  
Antes, pelo contrário. O questionamento do modo de produção capitalista pode  
propiciar análises concretas realizadas com fundamentação teórica sólida e que não  
deixem de representar de modo mais apurado possível a realidade social de uma  
época, em suas diversas dimensões e diferentes níveis de concretude. Uma visão reta  
do real, porém, sabe que a sociedade não obedece necessariamente aos rumos que  
pretendemos dar a ela e, por isso, sempre é preciso uma revisão de rota e o  
reconhecimento, abundante em Marx e Engels, de que determinada posição concreta  
antes defendida não é mais atual. A prática por mesmo modesta que não possua  
consigo a apreensão do movimento do real é cega e o presente número da Verinotio  
se contenta em inicialmente conclamar a todos para que não abandonemos a  
pretensão de alcançar as determinações objetivas da realidade para, então, transformá-  
la, subvertê-la e liberar as potências que crescem em seu próprio seio.  
Também com Chasin, e como expresso em A miséria brasileira, intentamos  
explanar de modo claro que a perspectiva da esquerda é mais que atual, é imperativa.  
Ou seja, não podemos confluir com quaisquer fatalismos, derrotismos vulgares,  
ao mesmo tempo em que não nos é permitido clamar por uma utopia, qualquer que  
seja sua natureza. Se permanecemos em um tempo de crises, é preemente a  
compreensão das condições objetivas, das possibilidades e das determinações dessas  
crises. Para tal tarefa, o renascimento do marxismo e da crítica da economia política é  
uma necessidade.  
Talvez, o momento atual seja aquele do fim da utopia, não no sentido dado a  
esse fenômeno pela direita, mas por alguém como Marcuse, que enxergou na  
sociedade de seu tempo tanto as condições necessárias para tornar a superação do  
capitalismo uma possibilidade concreta quanto o desastre que se efetiva para que  
essas potências sociais não se tornem ato, em um modo de produção superior. É  
preciso negar a utopia, seja ela romântica, ancestral, ou mesmo daqueles que  
pretendem ressignificar um tempo, como a década de 1920, em que o comunismo,  
mesmo que de modo profundamente contraditório, parecia dar a tônica do futuro. Em  
se tratando de Miséria brasileira, ao voltarmo-nos à realidade nacional, também não  
nutrimos ilusões quanto à possibilidade de reavivar os espaços de intervenção  
descortinados por J. Chasin em seus textos de intervenção e de análise da política (e  
da ausência de programa econômico) nos anos de 1980-1990.  
Acreditamos que a presente publicação é vital para qualquer projeto  
emancipatório, mas, obviamente, a análise chasiniana ilumina o presente, embora não  
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substitua nosso esforço (coletivo) para compreender a real tessitura do capitalismo  
contemporâneo, e de suas especificidades brasileiras. A boa e a má notícia são que  
não avançamos substancialmente nas últimas décadas e que, portanto, grande parte  
desse trabalho que envolve a revitalização da crítica da economia política, ainda está  
por vir.  
III  
Ruminações sobre Marx, Engels, as leis imanentes do modo de  
produção capitalista e a esquerda  
Assumimos que a esquerda está morta e que somos legatários dessa derrota,  
mas não nos rebaixamos ao abandono da perspectiva da esquerda e não abdicamos  
de conclamar a necessidade de renascimento da esquerda (e do comunismo) no mundo  
atual. E, muito importante: não se trata de “otimismo da vontade” versus “pessimismo  
da razão”, que, em verdade, não deixa de trazer consigo certa antinomia inaceitável.  
Por isso, tomamos como proveitosa certa ruminação sobre as derrotas do passado, o  
estado atual do presente e a necessidade de retomar autores do século XIX, como  
Marx e Engels.  
Diante da aversão contemporânea à ciência, à teoria e à investigação sobre os  
elementos nucleares da sociedade capitalista, retomar autor de O capital muito pode  
ajudar. Hoje, chama muito a atenção o fato de que, ainda no século XIX, Marx analisou  
figuras empresariais e da organização do trabalho que nos são contemporâneas e, não  
raro, apresentam-se aos desavisados como típicas de um momento singular do  
capitalismo. Grandes conglomerados, empresas públicas de enorme escala e  
cooperativas geridas pelos trabalhadores são temas privilegiados do livro III de O  
capital. Assim, há indicativos importantes presentes na crítica da economia política e  
que precisam ser considerados antes de qualquer desespero quanto ao presente. O  
espaço dedicado à economia política no Anti-Düring de Engels também não se furta  
de uma análise dessas formas de organização da produção capitalista, bem como das  
bases fundamentais das crises econômicas inerentes ao modo capitalista de produção.  
E, desse modo, também nesse sentido, os dois revolucionários alemães realizam  
investigações que nos dizem respeito e que evocam aspectos decisivos de nosso  
tempo, o qual J. Chasin não deixou de chamar, do nosso ponto de vista, de modo  
acertado, de “tempo das crises”.  
Obviamente, retomar os autores do Manifesto comunista é insuficiente, mas  
pode ser vital. Em verdade, a empreitada dos revolucionários alemães procurou  
apreender as determinações mais gerais do modo de produção capitalista e, para isso,  
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tanto analisaram os elementos essenciais desse sistema produtivo, tal qual o processo  
de produção de mais-valor, quanto se articulou esse elemento nuclear com formas  
aparenciais (mas não menos verdadeiras) como o ganho empresarial, os juros, a renda,  
o preço de custo, e tantas outras figuras destacadas no cotidiano das formações sociais  
singulares. Remeter a Marx não significa negligenciar aquilo que se apresenta no  
cotidiano, mas levar a sério a tarefa de descortinar as figuras aparentes que se  
manifestam na imediatidade da sociedade.  
Com isso, a posição marxiana rejeita as lamentações piedosas e românticas,  
vinculadas ao sentimento de perda quanto àquilo que se dissolve na expansão do  
capital. Afinal, como disseram Marx e Engels no seu mais célebre texto, tudo que é  
sólido se desmancha no ar; o sagrado se torna profano. Para os revolucionários  
alemães, não há como desconsiderar ou se prender às formas aparenciais, sendo  
preciso uma crítica decidida ao pragmatismo caracterizado pela parte mais estranhada  
da vida cotidiana, em que há, para dizer com o velho marxista húngaro da Estética,  
uma unidade imediata entre teoria e prática. Assim, já nos primórdios da crítica da  
economia política, há um ataque decidido e resoluto à superficialidade de posições  
imediatistas, como aquelas da economia vulgar e de certos socialistas, como Weston.  
Como resultado, não se trata, assim como não se tratava, de ser “otimista” ou  
“pessimista”, mas de apreender a interconexão entre as categorias constitutivas do  
próprio real. E a anatomia das crises da produção capitalista nos marca. Assim, seu  
estudo já está presente nas próprias leis imanentes da produção capitalista, analisadas  
em O capital e cujo estudo ainda se faz necessário.  
Que fique claro: o tempo das crises difere muito de qualquer fim da história. E,  
mesmo para avaliar com o mínimo de correção o cotidiano do capitalismo  
contemporâneo, a apreensão das determinações do processo global de produção  
impõe-se. Por conseguinte, um tratamento minimamente fundamentado do tempo  
presente demanda a referência a Marx e à crítica da economia política. Se a mirada  
mais superficial e a apreensão das determinações de nosso tempo não pode negar a  
existência de crises (que são sentidas por todos os indivíduos no cotidiano), há de se  
investigar a origem, o desenvolvimento e a necessidade de pôr um fim às crises  
econômicas, o que, acreditamos seguindo Marx, só é possível com o fim do sistema  
capitalista.  
Tal qual na época de O capital, grandes conglomerados, o caráter público ou  
privado das empresas e a organização dos trabalhadores na produção ainda se  
apresentam como decisivos para os problemas atuais. Há diferenças entre a época  
marxiana e a nossa, porém, as configurações das relações sociais de produção de um  
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tempo não podem se resumir de modo algum a jargões que, não raro, substituem a  
análise da realidade com “precarização”, “precariado”, “neoliberalismo”, “uberização”  
etc., como defendemos anteriormente, na publicação do dossiê sobre regulacionismo,  
sob a responsabilidade de Ronaldo Vielmi Fortes e Elcemir Paço Cunha. Não que tais  
expressões sejam simplesmente vazias, mas elas dizem respeito a algo que, em  
verdade, ocultam: a unidade entre processo de produção de mais-valor, realização do  
mais-valor e distribuição do mais-valor. Aliás, grosso modo, essa unidade apresenta-  
se ligada à correlação entre processo imediato de produção, processo de circulação e  
às figuras do processo global de produção. E, assim, nada menos que o “todo artístico”  
mencionado por Marx ao elaborar O capital precisa ser devidamente compreendido  
para falar com propriedade de elementos cotidianos dos problemas que se apresentam  
às pessoas diuturnamente.  
Como resultado, remeter a obra magna de Marx não é preciosismo, mas o  
mínimo requisitado para a avaliação do movimento das categorias econômicas no  
modo de produção capitalista. Por mais que, por exemplo, a explanação do que seja  
mais-valor absoluto e relativo não constitua necessariamente uma preocupação  
daqueles que devem juros estratosféricos, pagam aluguéis abusivos e são forçados a  
comprar alimentos ultraprocessados de grandes cooperações, é um fato objetivo que  
renda urbana, os juros que afligem as pessoas e os lucros da indústria alimentícia são  
parcelas do mais-valor e que os baixos salários nacionais só são possíveis com uma  
conformação da relação-capital específica, no Brasil, marcada por uma via colonial de  
capitalismo.  
Por conseguinte, ainda que olhemos para as questões mais cotidianas, a  
discrepância entre a essência e a aparência justifica e demanda a atividade científica,  
presente na crítica da economia política. Marx, pois, não fornece uma visão alternativa  
sobre as categorias vigentes no modo de produção capitalista; ele descortina as  
próprias leis imanentes da produção em seus elementos nucleares e aparenciais. A  
posição marxiana não é moral, portanto; muito menos há qualquer defesa “tática” de  
narrativas moralistas e com tons teológicos, em que o bem enfrenta o mal; a moral,  
como já expresso em A Sagrada família, pode trazer certa consciência limitada sobre  
as contradições sociais de um tempo, mas, ao fim, apresenta-se como a impotência  
colocada em ação. Ademais, a conformação de narrativas alternativas não deixa de  
lembrar a tentativa neohegeliana, criticada duramente por Marx e Engels em A Sagrada  
Família, de superar as contradições da própria realidade no plano da imaginação.  
Trata-se de um ímpeto retomado de modo farsesco e profundamente manipulado,  
saindo-se os “filósofos” como ótimos marketeiros.  
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Marx oferece um antídoto contra o pragmatismo oportunista e o utopismo  
pueril, polos entre os quais nós, os marxistas, não deixamos de oscilar no tempo das  
crises. Que fique claro novamente: não dizemos isso em tom de superioridade, mas  
reconhecendo que fazemos parte do problema a ser devidamente colocado e  
resolvido. O mínimo a se demandar de alguém educado na crítica marxiana é a  
apreensão das determinações mais gerais das leis imanentes da produção capitalista  
e não é sempre fácil lembrar-se disso quando se está, para dizer com o velho húngaro  
da ontologia, agindo sob pena de ruína.  
A situação resta ainda pior com a constatação de que, em verdade, não basta  
apreender as determinações das leis imanentes da produção capitalista. Igualmente  
correto é que sem o entendimento dá natureza de tais leis, a pré-condição para a  
elaboração de qualquer estratégia política e de uma política econômica minimamente  
eficaz e fundada na realidade nos escapa e podemos vociferar de modo quase  
delirante.  
Há um aspecto da obra marxiana deveras difícil de compreender e de  
rememorar atualmente: as leis imanentes do sistema capitalista de produção tanto  
impõem-se quanto engendram as condições que as tornam anacrônicas. E nenhuma  
peripécia logicista é necessária para afirmá-lo. Também inexiste qualquer apelo  
utopista ao dizê-lo.  
Porém, é preciso assumir que, no próprio cotidiano, é  
extremamente difícil apreender tal verdade.  
O modo pelo qual foi compreendida no século XX a posição segundo a qual as  
condições para a superação do capitalismo emergem de seu próprio desenvolvimento  
possui inúmeros problemas, vinculados, sobretudo, à vigência do marxismo vulgar.  
Confluímos com todas as críticas possíveis ao stalinismo e já nos pronunciamos mais  
de uma vez sobre o anacronismo do resgate farsesco do “socialismo real”. No entanto,  
qualquer tentativa de colocar a superação do capitalismo como uma espécie de  
“acontecimento” visto à la Heidegger não merece crédito. Antes, ela acaba fazendo  
coro ao irracionalismo e a certo romantismo, os quais, ao fim, mostram-se incapazes  
de qualquer análise das categorias econômicas presentes na própria realidade da  
sociedade capitalista.  
Em outras palavras, ainda hoje, o apelo à prática científica e ao desenvolvimento  
de uma ciência digna de tal nome é atual. Sem a apreensão das categorias econômicas  
do capitalismo, tal modo de produção é tomado como uma segunda natureza e só  
restam como alternativas a gestão cínica do capital ou o utopismo e o romantismo  
moralistas.  
De uma posição objetivista, hiperracionalista (o stalinismo), vai-se ao  
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subjetivismo e ao irracionalismo. E, em verdade, a aversão à ciência, à razão e à  
apreensão reta do real por parte da autoproclamada esquerda figura como uma versão  
moralista e com fortes tonalidades teológicas da visão de mundo da extrema-direita  
(não por acaso, teologizante). Em um momento como esse, a reafirmação do básico é  
necessária: como disse Marx em sua introdução a sua crítica à filosofia do Direito de  
Hegel, o pressuposto de toda a crítica é a crítica da religião. E, assim, a aversão ao  
stalinismo por parte substancial daqueles à esquerda, não raro, os leva a posições  
muito mais compatíveis com a religião e a teologia que com o marxismo. E, como nos  
ensinam Marx e Engels, ao fim e ao cabo, a base real da transcendência religiosa são  
relações sociais que se apresentam como uma espécie de segunda natureza, para dizer  
com Engels, de modo metafísico e, para remeter a Marx, como uma objetividade  
fantasmagórica, com elementos sensíveis-suprassensíveis, que, por sua vez, impõem-  
se cotidianamente nas formas mais diuturnas com as quais nos deparamos no dia a  
dia, como a própria forma-mercadoria.  
Não se pode olvidar esses elementos porque, caso o façamos, a própria  
concretude engendrada pelo modo de produção capitalista apresenta-se como uma  
objetividade fantasmagórica, cuja explanação é deixada de lado. A formulação  
teológica da teoria toma o mundo do capital como uma realidade sensível-  
suprassensível; a crítica à economia política marxiana coloca tal abordagem em xeque.  
Com uma formulação “dialética” – novamente utilizando a dicção engelsiana , o  
movimento, o desenvolvimento e o fenecimento das relações sociais históricas que  
dão certa forma a cada um dos entes são analisados; e, assim, as leis imanentes da  
produção capitalista precisam ser vistas tanto em seu caráter impositivo quanto em  
seu elemento transicional e fadado a ter um termo.  
Uma esquerda que seja incapaz de apreender a objetividade das determinações  
do sistema capitalista de produção permanece prisioneira da própria ignorância e se  
vê amparada em um moralismo vergonhoso, em verdade, comparável às vociferações  
da extrema-direita, que, como veremos depois, possui vantagem nesse campo  
moralizante.  
Ao mesmo tempo, não há como não reconhecer que o caráter das leis imanentes  
da produção capitalista denota certa unidade na diversidade e somente pode ser  
analisado com referência ao mencionado processo de negação determinada de tais  
leis. E é justamente nesse âmbito que a importância das formas de transição, estudadas  
por Marx principalmente no livro III de O capital, aflora e demanda atenção redobrada.  
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Editorial  
IV  
Mais ruminações: o dever dos marxistas de tematizar as formas de  
transição e a superação do modo de produção capitalista dentro do  
modo de produção capitalista  
Não basta enunciar que o capitalismo possui formas transicionais. Assim como  
é insuficiente dizer que o próprio Marx já as abordou. Por isso, o movimento das  
categorias econômicas precisa ser desvendado, mesmo que brevemente.  
Verdadeiramente, a especificidade do modo de produção capitalista também diz  
respeito obviamente, com distintas mediações aos temas mencionados  
(conglomerados, empresas públicas, cooperativas, crises econômicas) e a seus  
desenvolvimentos, os quais Marx descreveu com uma expressão extremamente dúbia:  
“superação do modo de produção capitalista dentro do modo de produção capitalista”.  
Ou seja, aspectos basilares para a conformação da cotidianidade da produção  
capitalista estão envolvidos com elementos, para Marx, de transição e, para que  
vinculemos isso a questões atuais, há de se pontuar que a relação de tais assuntos  
com as crises inerentes ao modo de produção capitalista é ineliminável.  
Sobre o tema, primeiramente, um ponto “filológico”: a tão aclamada Aufhebung  
(superação), objeto de disputas filosóficas quase teológicas entre parte dos marxistas  
mais sofisticados, não se apresenta como necessariamente resolutiva na expressão e  
no uso marxianos. Mais que isso: em seus meandros concretos, existe a possibilidade  
do avanço e do agravamento de diversos problemas inerentes às leis imanentes da  
produção capitalista, e vinculados ao que Marx chamou de “formas de transição”.  
Ademais, tanto ao falar de “superação” quanto de “transição”, o autor alemão não nos  
coloca em uma nova “etapa”, mas explicita a vigência de formas novas que se  
apresentam enquanto a forma antiga ainda é dotada de validade e vigência no sistema  
capitalista de produção. Assim, seja qual for a tradução da expressão, ela não possui  
o peso a ela muitas vezes atribuído.  
Deveria ser óbvio dizer a alguém formado em uma tradição materialista que as  
denominações “suprassunção”, “suspensão”, “supressão”, “superação”, “abolição”,  
não fazem coisas. Antes, como destacado nos Grundrisse e reiterado inúmeras vezes  
por György Lukács, as categorias expressam formas de ser, das quais a apreensão reta  
conforma-se como urgente caso se queira transformar a realidade substancialmente.  
Aliás, a pretensão de fazer coisas com palavras, além de profundamente  
mistificadora e não por isso menos recorrente em certa autoproclamada esquerda –  
aproxima-se muito mais de Jonh Austin, da transformação dos conceitos de Richard  
Rorty, bem como de um uso manipulatório da linguagem, que da teorização  
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Vitor Bartoletti Sartori  
materialista de Karl Marx. E, também devido a isso, não configura simples preciosismo  
remeter a Marx no século XXI. Sua posição materialista é um alerta contra os  
relativismos, as infinitas interpretações supostamente possíveis e a ideologia segundo  
a qual o essencial é a disputa de narrativas conflitantes e, para dizer com Rorty,  
transformar os conceitos.  
Ao invés de buscar fazer coisas com palavras, devemos apreender as  
determinações do real a partir de abstrações razoáveis, por mais antiquado e démodé  
que isso pareça. Assim, por meio do espelhamento aproximado da especificidade dos  
nexos entre os entes, a determinação ontoprática do pensamento apresenta-se e, ao  
fim, o critério de veracidade do pensamento mostra-se indissociável da práxis que  
opera em meio à objetividade do próprio real, cujas leis imanentes precisam ser  
descortinadas.  
Isto posto, o tratamento original da superação do modo de produção capitalista  
dentro do modo de produção capitalista encontra-se no livro III de O capital.  
Ao abordar as determinações mais gerais do capital portador de juros, Marx  
constatou uma oposição: na sociedade capitalista, os juros são figuras econômicas em  
que, de um lado, apresenta-se o capitalista monetário, que empresta dinheiro (que,  
desse modo, passa a figurar como dinheiro-mercadoria); doutro lado, encontra-se o  
capitalista produtivo (seja como capital comercial, seja como capital industrial). Ao  
capitalista que atua na valorização do valor (seja o produzindo, seja o realizando) Marx  
chamou de “capitalista funcionante” e, com isso, o autor identificou uma oposição que  
se desenvolve nas determinações fundamentais do capital portador de juros: aquela  
entre propriedade privada e função concreta na produção. Objetivamente, portanto, e  
nas próprias leis imanentes da produção capitalista, já em seus elementos  
fundamentais, há uma antítese entre a apropriação de parte do mais-valor por meio  
da propriedade privada e a produção do valor. No capital portador de juros, no  
entanto, essa oposição encontra-se no confronto intracapitalista, que, nesse sentido,  
somente indiretamente traz uma forma de exploração, que Marx chama de secundária,  
para os numerosos indivíduos da classe trabalhadora.  
Na própria prática do mundo do capital, o conflito entre camadas da burguesia  
apresenta uma oposição objetiva e para as representações que essas camadas  
possuem de si mesmas. Não raro, o capitalista funcionante vê-se como um trabalhador  
frente ao capitalista monetário e, assim, a oposição entre formas de capital (monetário,  
comercial e industrial), ainda hoje, parece ser o elemento nuclear da produção ao passo  
que nunca pode se conformar como tal. Já no capital portador de juros, assim, resta  
que parcelas da burguesia passam a apropriar-se da riqueza social a partir da simples  
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titularidade jurídica da propriedade, sendo suas funções na produção claramente  
prescindíveis do ponto de vista da reprodução social. Também em meio a essas  
propriedades do capital, assim como hoje, a exploração oculta-se, aparentando residir,  
não tanto na extração do mais-valor, mas na divisão entre das parcelas desse entre  
estratos de capitalistas. Os juros, tal qual para o socialismo vulgar criticado por Marx,  
parece ser a exploração por excelência, ao passo que o salário e a relação-capital são  
naturalizados.  
Por seu turno, em figuras empresariais mais desenvolvidas, como as sociedades  
por ação, antítese entre propriedade e função agiganta-se, como estipula Marx no livro  
III. De acordo com o autor alemão, trata-se de um sintoma da crescente socialização  
da sociedade, que permite, objetivamente, que aquilo que se manifesta com uma  
espécie de segunda natureza possa ter as próprias bases problematizadas. Para  
nossos fins, há que se destacar um fenômeno importante: a oposição entre capitalista  
funcionante e capitalista monetário expressa que, já dentro da produção capitalista,  
não se mostra necessária qualquer acumulação originária, prévia. Para dizer com as  
Teorias do mais-valor: com o crédito, parte dos indivíduos capazes pode colocar-se  
nos negócios desde que a taxa de juros e a taxa de lucro possuam discrepâncias  
favoráveis à autovalorização do valor. A acumulação prévia de capital deixa de ser um  
requisito para que os empresários possam empreender e o próprio capital  
sobressalente de outros capitalistas passa a circular como dinheiro-mercadoria,  
trazendo, ainda de modo opositivo, a socialização da propriedade.  
O sistema de crédito, muitas vezes visto como elemento caracterizador do  
capitalismo em época de “financeirização”, como supostamente aconteceria hoje, tanto  
expressa a configuração de parcelas dos burgueses como uma classe apropriadora  
(para que se use a dicção marxiana de Guerra civil na França) e, portanto, mais  
diretamente parasitária e vampiresca, quanto comprova algo fundamental: a produção  
baseada no desenvolvimento gritante das forças produtivas não demanda que os  
indivíduos envolvidos na produção possuam capital previamente. E, assim, as bases  
para o tratamento de outro elemento marcante do capitalismo contemporâneo é  
investigado.  
Ao analisar tal situação, Marx diz que nos deparamos com a crescente  
socialização do trabalho e da propriedade e remete a uma forma transicional: ele diz  
que o sistema de crédito é uma forma de transição e pode ser uma grande alavanca  
na superação do modo de produção capitalista pela produção associada (sim! Marx  
utiliza exatamente tal expressão em O capital...). Com esse sistema, comprova-se certo  
anacronismo da burguesia, que não é mais necessária no sentido de que a produção  
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não demanda que o investimento seja realizado diretamente pelos mesmos indivíduos  
que atuam na produção.  
Mais que isso, em meio a uma forma de sociabilidade opositiva, o investimento  
adquire uma forma social, ainda que profundamente antagônica. E, nesse sentido,  
aquilo já estipulado desde A ideologia alemã ganha concretude: o desenvolvimento  
das forças produtivas entra em contradição com as relações sociais de produção e,  
nesse ínterim, possibilidades concretas começam a se tornar disponíveis. E elas  
apresentam-se de modo ainda mais claro nas sociedades por ação, nas quais mais  
elementos objetivos demonstram que a passagem à produção dos trabalhadores  
associados não é uma simples utopia.  
Tal processo é proeminente nessas empresas por ação, as quais dependem da  
oposição entre capitalista funcionante e aqueles que se apropriam da riqueza futura a  
partir de direitos e de títulos de propriedade (das ações, no caso). Ainda mais: nelas,  
tipicamente, o trabalho de supervisão não é realizado pelo próprio capitalista, mas por  
trabalhadores e, assim, a oposição entre propriedade e função adquire uma nova  
tonalidade: a produção, antes dependente da supervisão e da administração do  
capitalista é operacionalizada pelos próprios trabalhadores. As funções capitalistas na  
produção deixam de ser realizadas pela burguesia e a propriedade aparece ainda mais  
estranhada diante da atividade produtiva. Não há necessidade de uma sociologia do  
trabalho como a fonte contemporânea para apresentar tais aspectos ao leitor, sendo  
vital vincular a crítica da economia política, o desenvolvimento das forças produtivas  
e as modificações na organização fabril, do trabalho e na administração e supervisão  
da produção.  
Nesse sentido, Marx estipula que as sociedades por ação são uma forma  
transicional, em que se tem a superação do modo de produção capitalista dentro do  
próprio modo de produção capitalista: elas comprovam que a produção não precisa  
da burguesia e que os trabalhadores podem realizar as funções que antes eram  
inerentes aos proprietários dos meios de produção. Nesse sentido, diz nosso autor  
que, negativamente, supera-se o capitalismo, ainda dentro da forma antiga da  
sociedade. A socialização do trabalho adquire o estatuto de um trabalhador coletivo,  
que engendra a própria produção por si mesmo, ainda que sob a forma capitalista e  
mediada pelo surrupiar do mais-trabalho pela classe apropriadora, cujo domínio  
adquire tons ainda mais anacrônicos.  
Nesse contexto, a propriedade privada sobrevive e preside o processo de  
distribuição do mais-valor (também utilizando-se de formas jurídicas), mas a forma  
social do trabalho já é visível a olho nu. Ao mesmo tempo em que a apropriação do  
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valor adquire intermediações de elementos financeiros crescentes afinal, a  
especulação, a bancocracia e a fraude na bolsa (só para mencionar explicitamente os  
exemplos de Marx) agigantam-se nesse processo , comprova-se que a produção dos  
trabalhadores associados é uma possibilidade concreta, e não qualquer utopia de um  
futuro especulativamente concebido.  
Um outro passo nesse processo é tomado com o desenvolvimento das  
empresas públicas. Nelas, nos diz Engels no Anti-Düring, está expressa a própria  
incapacidade da burguesia de lidar com as crises econômicas. Ademais, no lugar dessa  
classe social, apresenta-se uma espécie de capitalista global ideal (o Estado), que toma  
a dianteira de campos específicos da produção. Também nesse sentido, a correlação  
entre capitalistas e proletários se modifica: em oposição ao trabalhador coletivo,  
coloca-se o capitalista global, novamente, de modo dúplice e ambíguo. As empresas  
públicas figuram de modo bastante dúbio. De um lado, comprova-se, não só que a  
produção associada é uma possibilidade concreta, mas que a propriedade dos meios  
de produção pode não ser de titularidade de indivíduos capitalistas. Ao olhar por outro  
viés, porém, a garantia da reprodução do capital passa a se colocar com uma espécie  
de planejamento consciente e com tendências monopolistas, havendo nessa forma de  
organização empresarial investimentos na lucratividade do capital, a possibilidade de  
uma repressão ainda mais organizada (e em casos específicos, mais despótica) no  
ambiente de trabalho e a transformação dos valores inerentes ao exercício das funções  
capitalistas em algo emaranhado em uma forma política e institucionalizada na  
comunidade estatal. O Estado, portanto, não se apresenta como solução, mas como  
parte do problema a ser resolvido.  
A esfera pública, assim, manifesta-se tanto diante de uma situação que  
comprova que o domínio burguês é anacrônico e que os trabalhadores podem  
organizar a produção quanto na medida em que a publicidade se liga ainda mais  
diretamente a imperativos econômicos e à reprodução da relação-capital e à  
autovalorização do valor.  
As empresas públicas comprovam de modo ainda mais cabal que a produção  
de indivíduos livremente associados não é uma utopia. Contudo, ela radicaliza alguns  
elementos já presentes nas sociedades por ação: nas empresas por ação, a oposição  
entre trabalho e propriedade havia manifestado que a produção é possível sem a  
burguesia, mas deixou os trabalhadores a realizar atividades e funções burguesas. Com  
isso, ao mesmo tempo, tornou a produção associada uma potência concreta, mas  
também propiciou certo ocultamento da oposição classista central à produção  
capitalista, aquela entre burguesia e proletariado. Mais que isso, a realização de  
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funções burguesas que dependem da oposição entre trabalho intelectual e manual,  
criticada avidamente por Marx e Engels na Ideologia alemã pode depender de formas  
de representação e de conhecimento que suponham a relação-capital como eterna.  
Nesse sentido, aquilo que Marx analisou no livro III de O capital, e que Jorge Grespan  
bem destacou, mostra-se decisivo: um específico modo de representação, que toma a  
persona do capital como base da personalidade dos indivíduos concretos, em  
particular, em suas vidas cotidianas.  
Conhecimentos sobre “administração de empresas”, por exemplo, passam a ser  
necessários e isso representa elementos dúbios. Essa condição comprova que os  
trabalhadores estão envoltos de formas transicionais também na medida em que a  
correlação entre trabalho espiritual e material se torna mais orgânica, principalmente  
devido à aplicação da ciência na produção. Nada menos que a superação da divisão  
do trabalho vem à tona como algo possível! Porém, a hierarquia entre os trabalhadores  
e a formação daquilo que Lenin chamou de uma aristocracia operária são  
possibilidades concretas, que fortalecem o modo de produção (e, diria Grespan, de  
representação) capitalista. Simultaneamente, os indivíduos produtores comprovam a  
desnecessidade da classe burguesa e atuam como personificações de relações  
burguesas de produção. Todos esses elementos estão presentes nas empresas  
públicas, mas há um reforço importante: o objetivo dessas empresas aparenta estar  
ligado à comunidade e à reprodução do todo social sem que as mediações da classe  
burguesa se interponham no processo produtivo.  
Também aqui, isso tem parcela de verdade, já que a produção capitalista pode  
ser mantida pelo Estado, inclusive à revelia da burguesia, ou o que é mais comum e  
preciso de parcelas da classe capitalista. As mediações da propriedade privada  
diminuem, mas a forma social da propriedade ainda é trazida em meio a relações  
opositivas, e, com isso, configura-se algo essencial: as mesmas figuras que  
demonstram o anacronismo da produção capitalista dão sustentação objetivamente e  
ela, inclusive, no que diz respeito às formas ideais e de representação disponíveis aos  
indivíduos de uma dada formação social. A ideologia daí decorrente, na melhor as  
hipóteses, acaba por ressuscitar a oposição entre público e privado, e entre sociedade  
e Estado, a qual já fora demolida por Marx em Sobre a questão judaica. Assim, tal qual  
sob o stalinismo, diria Lukács, o citoyenismo parece se opor ao privatismo na medida  
mesma em que ambos se sustentam na vigência da lei do valor e na persistência da  
reprodução do capital, agora marcadas por certo elemento “público”. Também nesse  
sentido, mais ainda no capitalismo maduro que noutros momentos, a ideologia  
dominante é aquela da classe dominante, como estipulada na Ideologia alemã e,  
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mesmo que não explicitamente, desenvolvido em O capital.  
Contrariamente a tal ideologia que perpassa também os trabalhadores  
inevitavelmente , Marx fala de possibilidade do modo de produção dos trabalhadores  
associados. Para que tal potência se torne ato, no entanto, as oposições ao modo de  
representação capitalista e à produção capitalista precisam ser decididas e, também  
por isso, o “problema do fator subjetivo”, como levantou primeiramente Lenin, não  
pode ser descuidado. O essencial sobre isso configura-se ao passo que as condições  
que engendram o modo de produção associado como o futuro da história humana e  
que levam ao desenvolvimento de uma ideologia revolucionária, que pensa a transição,  
são as mesmas que propiciam formas de consciência esfumaçadas assim como  
decididamente empresariais, inclusive, entre os trabalhadores. Por isso, para o autor  
de O capital, a superação do capitalismo (para além do capitalismo) depende de  
transformações na produção de modo radical e do desenvolvimento de uma  
consciência comunista de massas: como reforçado de diferentes maneiras pelos  
autores publicados no presente número da Verinotio, trata-se, dentre outras coisas, de  
compreender e de suprimir o valor.  
Há ainda outra forma de superação do modo de produção capitalista dentro do  
modo de produção capitalista, em que tanto as possibilidades concretas quanto a  
retroalimentação do sistema produtivo pelas formas que manifestam seu anacronismo  
são mais radicais. No livro III de O capital, assim como em outros textos (como a Crítica  
ao programa de Gotha), Marx aborda as cooperativas. Elas também seriam formas de  
transição ao modo de produção associado. Nelas, os trabalhadores não só  
organizariam a própria produção e, assim, superariam positivamente o capitalismo,  
ainda que dentro do capitalismo , como também figurariam como proprietários dos  
meios de produção.  
Todos os requisitos da produção estariam preenchidos pela classe  
trabalhadora, não restando quaisquer elementos (nem mesmo a apropriação da  
riqueza social) para a classe dos capitalistas. Decididamente, portanto, a dominação  
burguesa se torna anacrônica. E, também por isso, de acordo com Marx, as  
cooperativas são formas de transição de enorme relevo. Porém, elas inserem-se, para  
dizer com o autor alemão, ainda na antiga forma, vinculada à vigência do modo de  
produção capitalista e, por essa razão, o que levantamos acima é ainda mais  
radicalizado: a produção associada é uma realidade e a gestão, administração, o  
investimento, o controle e a organização da produção são destinados aos  
trabalhadores associados. Entretanto, a forma capitalista ainda se impõe e, por isso,  
diz Marx no livro III de O capital, os trabalhadores são forçados a recrutar seu próprio  
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trabalho para engendrar a valorização do valor. Pior que isso: efetivamente, eles se  
tornam seus próprios capitalistas. E a consequência disso também aqui é dúplice:  
tanto resta provado que as funções burguesas não precisam da burguesia e que,  
portanto, o modo de produção associado emerge das entranhas da produção  
capitalista, quanto com a superação do modo de produção capitalista dentro do  
modo de produção capitalista um pesadelo pode ser efetivo: os trabalhadores podem  
trabalhar para si mesmos e se associar de modo não-livre, ou melhor, com suas  
liberdades sendo predicadas pelo capital e com suas personalidades subsumidas ao  
mercado, atuando como seus próprios capitalistas. Nessas condições, suas  
representações podem se tornar avessas à crítica ao capital, elas trazem à tona  
trabalhadores que figuram, de modo radical, como personificações de relações sociais  
estranhadas e que se tornam uma segunda natureza.  
As cooperativas são uma forma de transição à produção associada. Contudo,  
também podem configurar-se como algo assustador: uma via obreirista para a defesa  
da valorização, gestão, administração e preservação do capital. Se os trabalhadores  
exercem funções burguesas em todos os âmbitos, eles podem transformar-se em seus  
próprios capitalistas e podem incorporar o sujeito automático do capital de modo  
ainda mais intenso que em outras formas de organização empresarial e do trabalho.  
Em verdade, todas as formas transicionais tratadas por Marx trazem consigo  
enormes potências, ao mesmo tempo em que engendram relações sociais de produção  
de que o capitalismo se retroalimenta de modo extremamente problemático.  
Ademais, esse processo aparece tanto na objetividade da produção quanto nas  
formas de representação dos trabalhadores, os quais, caso adotem uma persona  
burguesa, não são simplesmente “traidores” de classe, mas o resultado de um  
processo em que a superação do modo de produção capitalista dentro do modo de  
produção capitalista dá ensejo a ainda mais capitalismo. Pior que isso: a sobrevivência  
desse modo de produção passa a depender substancialmente daquilo que comprova  
seu anacronismo e que pode dar uma faceta citoyenista à extração e realização de  
mais-valor. E, dessa maneira, o enigma da consciência de classe mostra-se  
extremamente complexo e envolve tanto uma crítica ao moralismo quanto um  
aprofundamento na crítica da economia política.  
Certamente, o caráter social da produção coloca na ordem do dia a produção  
associada. Nada obstante, a oposição entre propriedade e função concreta na  
produção está na raiz do agigantamento da apropriação a partir da simples  
propriedade, bem como da crescente venda e revenda dos títulos jurídicos que dão  
direito a parcelas do mais-valor futuro. Com isso, agiganta-se o elemento especulativo,  
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a relevância das bolsas de valores, as fraudes, a bancocracia e o capitalismo toma para  
si uma faceta que nos parece muito familiar. Nesse cenário, organizações “de  
esquerda” realizam tarefas de gestão capitalista, os escândalos financeiros são banais  
e a perspectiva de crítica ao capital parece longínqua.  
Também por essa razão, a problematização da superação do modo de produção  
capitalista dentro do modo de produção capitalista apresenta-se como um enigma a  
ser decifrado. Nesse sentido, definitivamente, o estudo da obra marxiana não figura  
como mera erudição, preciosismo ou teimosia. E falar da historicidade das formas e  
das figuras econômicas sem que se desvende essas formas transicionais (e de muitas  
outras) não deixa de ser escolástico, é um equívoco em que não podem continuar  
incidindo.  
V
Ruminações sobre formas de transição: a moral e os programas  
econômicos quando se está tão perto e tão longe da supressão do  
capitalismo  
Não é porque Marx diz que o capitalismo se torna senil e sobrevive a si que há  
uma teoria do colapso que muitos procuraram, sem efetivamente encontrar no  
autor. Mesmo que ela existisse (e não é o caso), a realidade nos mostrou que a última  
coisa que decorre de uma crise é o fim do capitalismo; essa é uma possibilidade, mas  
qualquer automatismo ou visão otimista sobre isso como aqueles que marcaram  
parte substancial do marxismo do século XX e, segundo Holloway (de quem  
discordamos), o próprio livro III de O capital não fazem sentido algum. Tanto as  
formas de transição que mencionamos quanto outras oferecem caminhos à produção  
associada, mas que também podem retroalimentar o próprio sistema capitalista de  
produção.  
As potências liberadas pelo desenvolvimento da produção capitalista  
permanecem no nível da possibilidade sem uma transformação substantiva e  
consciente no modo de produção. E, como assinalamos acima, tanto tal modificação  
está na ordem do dia quanto tendências subjetivas e objetivas contra ela emergem  
fortemente desse mesmo processo. Ou seja, são traçadas possibilidades para o  
presente, e nada mais que isso.  
Nesse sentido específico, está-se muito perto da supressão do capitalismo, mas  
também demasiadamente longe. A ultrapassagem da pré-história do gênero humano  
necessita de uma atividade consciente e coletiva amparada na posição daquilo que  
foi chamado de classe produtora em A guerra civil na França e as lutas que se  
colocam nos momentos de crise do capitalismo não são poucas. Em verdade, nesses  
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momentos, apresenta-se como muito mais plausível à representação cotidiana a volta  
da “normalidade”, e não a superação de formas sociais que demonstram claros sinais  
de senilidade. Por conseguinte, a batalha daqueles comprometidos com a instauração  
do modo de produção baseado nos produtores livremente associados não se dirige  
somente contra a economia e as instituições capitalistas, mas também contra as  
representações engendradas por essas. E, em uma época de crises, como a nossa, o  
descortinamento das determinações econômicas é o mínimo exigido para uma atuação  
consciente e organizada.  
Em meio ao desenvolvimento de formas transicionais, para dizer com o famoso  
prefácio de 1859, a humanidade se colocar problemas que pode resolver. Mas isso  
não significa que consiga fazê-lo sem esforço organizativo, teórico e sem o confronto  
com as representações cotidianas vinculadas às formas econômicas do capital. Pior  
que isso: há tendências que militam no sentido do pior dos mundos, aquele em que  
camadas da classe trabalhadora, assim, como de seus dirigentes, efusivamente passam  
a incorporar os imperativos do capital como seus. Assim, o espectro da gestão “à  
esquerda” do capital sempre está à espreita e intenta mostrar-se como uma solução  
para as crises.  
Ao abordar as crises, Marx procedia vislumbrando possibilidades presentes na  
própria realidade, com a crença de que, na ausência da compreensão rigorosa das  
condições sociais de um determinado tempo, a ação política é cega. Também por essa  
razão, a análise imanente dos textos marxianos nunca é inocente: desvelar as leis  
imanentes da produção capitalista é uma condição necessária à atividade política  
voltada à subversão das condições concretas de vida. A tática política somente possui  
algum sentido caso amparada em uma apreensão crítica das categorias econômicas  
do presente e qualquer programa político demanda a clareza de um programa  
econômico, calcado em uma avaliação rigorosa das formas de transição. Nesse campo,  
a escolha não é entre estudar ou não teorias do século XIX. E não se trata de ligar ou  
não ligar para o que Marx falou ou deixou de falar. Deve-se esforçar-se para apreender  
as leis tendenciais que regem as relações econômicas, ou permanecer refém de  
potências estranhadas engendradas por essas mesmas leis. E, caso se escolha a  
primeira opção, Marx ainda é inafastável.  
Ao mirar o dia a dia, percebe-se: cotidianamente, a extrema-direita vocifera  
contra o socialismo ao passo que a esquerda abandona a aspiração de derrubar o  
sistema capitalista. Assim, o pensamento marxista em seu sentido mais forte está  
morto, por mais atual que possa ser. Enquanto parte substantiva da autoproclamada  
esquerda declara que há novos paradigmas epistemológicos a serem adotados,  
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aqueles incumbidos da defesa apologética da ordem são crus: deixam de lado tanto  
as ilusões políticas de outrora quanto qualquer pretensão civilizatória e humanista.  
Assumem a barbárie cotidiana sem pudores e, dessa maneira, em verdade,  
compreendem uma verdade: trata-se de capitalismo e o sistema capitalista de  
produção é brutal, baseia-se na exploração da força de trabalho; ademais, as crises  
são parte constitutiva das relações econômicas do presente.  
O resultado é paradoxal: as conclusões antes vinculadas ao repertório da  
esquerda passam para o lado da extrema-direita enquanto a autoproclamada esquerda  
procura gerir o capital de modo humano, social, fingindo que as crises são uma mera  
contingência que pode ser gerida por técnicos competentes. A superação do modo de  
produção capitalista dentro do próprio modo de produção capitalista, assim, parece  
poder perpetuar-se indefinidamente. Buscando realizar as tarefas que a burguesia não  
consegue ou se propõe, e enxergando como um devaneio qualquer pretensão de  
superação da sociedade capitalista, a pseudo-esquerda declara que o marxismo é uma  
relíquia do passado, ao passo que a extrema-direita enxerga marxismo e socialismo  
em todos os campos possíveis. De um lado, uma ideologia adstringida e que, tornada  
uma fraseologia de novos gestores do capital que sobrevive a si mesmo, assemelha-  
se à centro-direita de outrora; de outro, um cinismo sem ilusões, reativo e sem  
perspectivas para o futuro.  
Nós, marxistas, somos insignificantes hoje. Porém, somos herdeiros da única  
pretensão capaz de possuir alguma relevância na atualidade: apreender as  
determinações da própria realidade do sistema capitalista para, assim, derrubá-lo.  
Retomar tal projeto é urgente e somente tem sua viabilidade desimpedida caso  
consigamos admitir nossas derrotas estrondosas e retomar o renascimento do  
marxismo. Sem isso, seremos incapazes de enxergar minimamente as determinações  
do real para, então, transformá-lo a partir da análise de diversas formas de transição  
que se colocam no seio do próprio real.  
Ao falar das revoluções de 1848, Marx admitiu em certo ponto: a revolução  
estava morta. Os socialistas perderam. Porém, a derrota poderia ser produtiva, pois  
ela também propiciaria a perda das ilusões do passado. Como já mencionamos em  
outro momento, uma admissão similar é necessária. Parafraseando, o autor de Lutas  
de classe na França: o marxismo e a esquerda estão mortos. Sim, somos insignificantes  
no presente. Contudo, a posição marxista e a esquerda são mais atuais que nunca e,  
com uma retomada coletiva, autocrítica, precisamos dar vivas ao marxismo vindouro.  
O tempo das crises comprova que as ilusões do passado não nos levarão a qualquer  
lugar e não nos servem; também resta evidente que direita perde suas ilusões e  
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transforma-se em extrema-direita.  
Assim, o socialismo coloca-se de modo caricato e apologético nas bocas  
grotescas da extrema-direita. Ela perde as suas ilusões políticas e, assim como na  
época do 18 Brumário de Luiz Bonaparte, enxerga socialismo nos mais básicos direitos  
burgueses.  
Pelo que vemos, no entanto, isso tem uma razão de ser e não conforma somente  
propaganda e marketing, pois o modo de produção associado já figura como uma  
possibilidade objetiva há muito tempo. Em suas determinações mais basilares, as  
funções burguesas já não precisam mais dos capitalistas e, por isso, ainda que  
permeada pela forma antiga, uma nova forma de produção pode ser gestada e  
desenvolvida. Instintivamente, por assim dizer, e de modo confuso, as vociferações dos  
apologetas mais vulgares do capital apreendem tal fato. Por conseguinte, seus gritos  
escandalosos contra o socialismo, longinquamente, atingem um adversário real. Nunca  
estivemos tão perto da superação do capitalismo; a efetividade da produção associada  
não é uma utopia também.  
Porém, olhar para tal cenário somente por esse prisma é essencialmente  
equivocado, pois, na verdade, a esfinge a ser decifrada a superação do modo de  
produção capitalista dentro do modo de produção capitalista não foi encarada com  
clareza por nós, pela esquerda, que ainda não reconheceu devidamente a derrota  
representada pelas últimas décadas, em que o capitalismo sobreviveu a si mesmo. E,  
daí, salvo raras exceções como aquela de Elcemir Paço Cunha, oscilarmos entre  
teorizações colocadas em um nível altíssimo de abstração e posicionamentos que  
beiram o jornalismo cuja qualidade nem sempre se encontra à altura do melhor de  
nossas teorias. Nesse sentido, não só a autoproclamada esquerda está em crise, nós,  
marxistas, expressamos dificuldades enormes em nossas formulações, se comparados  
com os clássicos.  
Em verdade, nossa época explicita os aspectos mais irracionais da persistência  
de formas transicionais que retroalimentam o próprio capitalismo e transformam a  
tentativa de conviver com o capital um pesadelo sufocante. Uma esquerda que não  
admita tal fato corre o risco de seguir acriticamente a reboque do tempo das crises.  
Aliás, no Brasil, não é raro que tarefas burguesas sejam tragicomicamente incorporadas  
por intelectuais históricos e naquilo que houve de melhor das organizações da  
esquerda: grandes sindicatos tornem-se gestores de fundos de pensão e de  
previdência complementar de tal modo que João Bernardo não tardou em denunciar  
uma espécie de capitalismo sindical. O absurdo de tal situação também foi desvendado  
por Chico de Oliveira, antes esperançoso sobre esses mesmos sindicatos, as  
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cooperativas e a possibilidade de uma espécie de anti-valor; ademais, cooperativas de  
produção rural vinculadas ao maior movimento social da América latina, antes  
enxergadas por grandes autores como Paul Singer como essenciais para uma espécie  
de economia solidária, lançam ações na bolsa de valores e, assim, os trabalhadores  
não só são seus próprios capitalistas, mas também podem se engajar na gestão de  
riscos financeiros na bolsa. Ativamente, as maiores e melhores organizações da  
esquerda brasileira transformaram-se em gestoras do capital e nossa miséria  
ideológica não pode ser dissociada de tal fato, que manifesta um capitalismo que  
persiste em meio a formas de transição as quais, por seu turno, também são geridas  
por pessoas à esquerda.  
E as razões objetivas para tal posicionamento não dizem respeito a  
conspirações ou a falhas morais ou de caráter, mas a possibilidades presentes nas  
próprios leis imanentes da produção capitalista. Também por essa razão, a superação  
do modo de produção capitalista dentro do modo de produção capitalista precisa ser  
decifrada. Caso não apreendamos as determinações contemporâneas de tal enigma,  
restamos como personificações de relações estranhadas e impostas como uma de  
segunda natureza.  
Por aqui, mas também em nível mundial, não é incomum que o engajamento à  
esquerda acabe por se confundir com a gestão de uma economia senil e, assim, o  
prego final do caixão está colocado: a esquerda, como apontou Chasin muito antes  
dos filósofos contemporâneos da moda, está morta. O morto-vivo, porém, retorna a  
todo o momento e principalmente nas eleições, em que, como é usual, o pragmatismo  
se impõe; os mortos não estão enterrados e intentam dar luz ao convencimento de  
que o pesadelo manifesto em uma gestão supostamente à esquerda do capital é a  
fonte de grandes esperanças.  
Sem rasgar qualquer horizonte como temeu o autor de O futuro ausente e da  
Miséria Brasileira, e como nos lembra Paulo Arantes por vias diversas, com  
perspectivas absolutamente rebaixadas, a autoproclamada esquerda vem tentando  
demonstrar sem qualquer base factual que a gestão à esquerda do capital pode ser  
um sonho.  
Ela mente descaradamente, pois já assumiu há muito tempo tarefas de gestão,  
administração e operacionalização do capital. Mas ela pretende nos iludir, pois busca  
salvaguardar, quase que romanticamente, o caráter civilizado das relações capitalistas  
de outras épocas e locais. Trata-se de uma das utopias mais desidratadas com as quais  
já nos deparamos. A extrema-direita, por outro lado, assume a barbárie cotidiana como  
uma base intransponível e oferece às massas aquilo de mais mesquinho e brutal, mas  
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que admite que o projeto civilizador do capitalismo falhou e, desse modo, vende uma  
verdade, ainda que baseada na apreensão superficial e apologética das relações reais  
de nosso tempo.  
O trabalhador que adota representações burguesas, a ideologia do homem que  
é seu próprio capitalista, a subordinação brutal da esfera pública à reprodução do  
capital são fenômenos indissolúveis das próprias leis imanentes da produção  
capitalista. E nossa situação é aquela em que aqueles à esquerda não admitem tais  
verdades (já enunciadas como uma possibilidade no livro III de O capital) enquanto a  
extrema-direita, em conjunto com diversas outras representações sobre o gênero, as  
etnias, as origens geográficas etc., toma-as como solo firme para suas colocações mais  
vis. Em outras palavras, a brutalidade da extrema-direita encontra-se na própria  
realidade, não se tratando somente de uma falha moral. O ganho de força dessa  
ideologia, infelizmente, possui um fundamento sólido no capitalismo contemporâneo.  
E, efetivamente, o combate a tal posição não pode se colocar no terreno moralista do  
inimigo, como vem acontecendo.  
A defesa de novos paradigmas epistemológicos sejam eles quais forem –  
procura superar no campo da imaginação uma situação real, cuja compreensão  
depende do estudo detido das formas e das figuras econômicas do presente, não raro,  
engendradas como formas transicionais. No tempo presente, os protestos infantis  
contra o “pobre de direita”, as falsas moralidade, religião e defesa da família  
apresentam-se como revoltas impotentes, que substituem a vinculação entre crítica à  
economia política, tratamento de formas de transição, problematização dos rumos  
dessas formas, a formulação de táticas e programas econômicos e políticos por um  
moralismo pueril. Sob a ilusão de que nossa época é única e representa aquilo de pior  
da humanidade, e sem qualquer base na análise reta, cuidadosa e rigorosa das relações  
sociais do presente, a pseudo-esquerda adquire tonalidades muito mais teológicas e,  
assim, defende que se trata da luta do bem contra o mal. Por isso, seria preciso dizer  
com todas as letras: trata-se de fascismo!  
O oposto de fascismo, claro, seria a democracia. E mesmo instituições putrefatas  
como as brasileiras precisariam ser defendidas, se necessário, acriticamente. De  
repente, no Brasil, Alexandre de Moraes se torna um baluarte da democracia e herói  
anti-fascista.  
Há peculiaridades do presente, certamente. E aqui não podemos remeter às  
periodizações do capitalismo, presentes em grandes clássicos do marxismo, como  
Lenin, Bukharin, Hilferding, Rosa Luxemburgo para o imperialismo; Sweezy e Baran  
para o desenvolvimento de um capitalismo monopolista; Mandel na avaliação sobre o  
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capitalismo tardio (só para que fiquemos nos autores que tentaram tratar do “todo  
artístico” formado por processo de produção, de circulação e das figuras do processo  
global de produção). Também não é plausível discutir os acertos e os erros de todos  
esses autores ou as aporias nas quais suas teorizações se envolveram. Porém, vale  
ressaltar que as teorias que resgatem a crítica da economia política com tamanha  
abrangência e fôlego são escassas em nossa época, ao mesmo tempo em que as crises  
são abundantes. E, em meio a essas crises, de um lado, a esquerda aparece como um  
cadáver insepulto, que adquire um caráter conservador ao tratar das instituições e das  
formas econômicas burguesas; de outro lado, a direita cresce, amparada em uma  
análise superficial e crua.  
Lamentavelmente, nesse cenário, nossa política tem sido reavivar ilusões, sem  
poder desenvolver qualquer teorização mais ampla e profunda sobre o capitalismo  
contemporâneo. E é nesse cenário que a lógica binária se afirma: nós contra o fascismo!  
A crítica ao “fascismo” se tornou uma problematização moral quase que  
teológica. Tal tonalidade esconde nossa derrota e explicita nossa incapacidade de  
assumir nossa insignificância no presente. Pior: nós nos tornamos performáticos:  
quanto mais enchermos a boca para atacar os FASCISTAS, mais próximos parecemos  
estar da verdade e do bem. Análises “monótonas” e “antiquadas” como as de Lukács,  
de Chasin, de Jeffrey Herf são prontamente relegadas ao “academicismo”. Porém,  
mesmo análises rasas e equivocadas além de datadas e vinculadas à III Internacional  
como as de Dimitrov estão anos luz à frente do que nós temos propagado como  
uma análise sobre nosso inimigo. E isso certamente possui raízes objetivas, ligadas às  
derrotas das últimas décadas e ao fato de que não nos tenhamos reorganizado e  
ruminado suficientemente esses revezes, também, ao tematizar a superação do modo  
de produção capitalista dentro do próprio modo de produção capitalista. Não poucas  
vezes, procuramos nos apegar em uma ilusória ética da convicção com base em nossa  
superioridade moral (que não é simplesmente verbal, que fique claro) diante da direita,  
mas, o tempo em que isso pareceu fazer algum sentido está terminando e ampara uma  
posição minimamente à esquerda é urgente.  
VI  
Ruminações sobre o tempo presente e a “crise de paradigmas”  
no Brasil  
Nossas capacidades não vão além das ruminações, como já notado. Isso não é  
muito e explicita que somos parte do problema, e não nos colocamos como resolutivos.  
Porém, o tempo das crises não revela um “novo paradigma”, mas mais capitalismo: de  
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um lado, portanto, deparamo-nos com nada de novo; de outro, porém, a diferença  
específica e a conformação das formas de transição que caracterizam o capitalismo  
atual precisam ser descortinadas com o auxílio da crítica das categorias econômicas  
expressas pela sociedade civil-burguesa. Contamos com fatos novos e uma forma  
distinta pela qual o modo de produção se reproduz e há grande chance de ainda não  
termos sido capazes de apreender as reais determinações do momento em que  
vivemos, tanto em termos econômicos como políticos e ideológicos. Algo é certo,  
porém: não se trata de algo sem precedentes, mas de uma forma de capitalismo que  
precisa ser comparada com as anteriores e em que continuam a viger as leis imanentes  
do sistema produtivo do capital.  
Tal comparação necessita de uma crítica à economia política atualizada. A  
apreensão daquilo trazido em O capital e a que nos referimos ao abordar a superação  
do modo de produção capitalista dentro do modo de produção capitalista é uma  
condição necessária, mas não suficiente para tal empreitada. Também são bem-vindos  
os estudos dos clássicos do marxismo, como os já mencionados Lenin, Rosa, Baran,  
Sweezy, Mandel, entre outros. Descartar estudos sérios, de autores como Bellamy  
Foster e Magdoff, Jonh Smith, Itan Suwandi, Robert Benner, István Mészáros, Robert  
Kurz e outros (no exterior) e Reinaldo e Marcelo Carcanholo, Rui Mauro Marini, o grupo  
vinculado a Paulo Nakatani e muitos outros também está fora de questão. Não estamos  
em um deserto na crítica da economia política. Porém, como argumentamos em outro  
editorial e em nosso O tempo das crises, a crise da esquerda e a necessidade de rasgar  
horizontes, tanto não há como simplesmente tentar reviver autores de outros tempos  
quanto não há comparação entre a envergadura das pesquisas contemporâneas e  
aquela dos clássicos. Esses últimos traziam teorizações em que a unidade entre  
processo imediato de produção, processo de circulação e as figuras do processo global  
de produção era muito mais orgânica, pronunciada e equilibrada. Ou seja, sem retirar  
a importância das pesquisas mais próximas de nossa época, e com auxílio dos autores  
mencionados, é preciso atualizar a crítica da economia política. Isso é fundamental  
para a finalidade de propiciar a elaboração de uma estratégia socialista fundada em  
programas econômicos e estratégias políticas formulados com o maior cuidado para  
cada formação capitalista social singular.  
Um país engendrado a partir do capitalismo de via colonial, como o Brasil,  
certamente possui peculiaridades vinculadas à sua inserção no mercado mundial como  
uma economia subordinada tanto ao capital dos países de via clássica quanto àqueles  
de via prussiana. Ao passo que nas economias centrais o primevo desenvolvimento  
burguês foi acompanhado pela grande indústria e pala democracia política, nos países  
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de via prussiana a agressão imperialista foi uma condição para avanço da grande  
indústria e da unificação nacional autocrática. Tem-se, assim, como demonstrou-se na  
Destruição da razão, com base na teorização de Lenin, a oposição entre um capitalismo  
clássico e um capitalismo tardio. O Brasil, por outro lado, defende Chasin em textos  
como O integralismo de Plínio Salgado (provavelmente nossa próxima publicação na  
coleção das obras completas de J. Chasin) e A miséria brasileira, procura o incremento  
de sua economia e de sua indústria de modo hipertardio, quando o imperialismo já  
está consolidado. Como consequência, a expansão militar e econômica agressiva, como  
aquela da Alemanha, da Itália e do Japão ficaram fora de questão.  
Tanto esses três países quanto países de via clássica, como Inglaterra, França e  
Estados Unidos, possuem capitais que subordinam a burguesia “nacional” de países  
como o nosso. Em outras palavras, por aqui, a formação nacional ocorreu enquanto as  
tarefas democráticas não podem ser realizadas pela burguesia brasileira. Em verdade,  
mesmo as tarefas econômicas ligadas ao que Marx chamou de incremento, em  
proporção geométrica, das forças produtivas, são uma ficção em uma produção voltada  
para o mercado externo e, ao contrário do que aconteceu posteriormente em países  
como Coreia do Sul e Índia, calcado ainda em produtos como minérios, petróleo e  
gêneros agrícolas.  
Como acentua Chasin, a peculiaridade da via de entificação do capitalismo  
brasileiro faz dele algo incompleto e incompletável. Nesse sentido, mesmo  
manifestações políticas do passado que sejam dotadas de uma analogia clara com o  
fascismo, como o integralismo, possuem um sentido distinto: se os fascismos  
completaram o desenvolvimento capitalista nos países de via prussiana, o integralismo  
buscava um retorno ao ambiente agrário (principalmente no caso de Plínio Salgado) e  
não questionava o caráter substancialmente atrasado da produção nacional. Ou seja,  
tratava-se de uma ideologia amparada no caráter atrasado e incompletável do  
capitalismo brasileiro.  
Levantamos tal questão porque falar em fascismo implica em uma espécie de  
modernismo reacionário, como bem demonstrou Jeffrey Heff. Em sentido diverso, em  
terras tupiniquins, o que Caio Prado Jr. chamou de sentido da colonização não foi  
questionado, assim como não o é, a rigor, até hoje. Afinal, ainda agora, a mineração e  
o agronegócio são o coração da economia nacional, voltada à exportação. Acentuamos  
tais fatos para que reste cristalino: no Brasil, os problemas sociais decorrem de uma  
via específica de capitalismo e pode-se virar e revirar as categorias das epistemologias  
tradicional, decolonial, ancestral, clássica etc. que essa determinação objetiva não se  
modificará. A apreensão da especificidade do capitalismo nacional, bem como da  
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caracterização presente das formas e das figuras econômicas vigentes em nossa  
formação social é que decide se as formulações políticas são mais ou menos razoáveis.  
Sem isso, restam narrativas fictícias, estetizadas e extremamente moralizantes sobre  
os elementos decisivos de nosso tempo. Não há crise de paradigmas, mas dificuldades  
imensas para a apreensão das potências de um tempo de crises e da derrota  
retumbante da esquerda.  
Nesse sentido, infelizmente, tanto O futuro ausente quanto A miséria brasileira  
são de uma atualidade marcante. Tais obras buscam identificar as derrotas da esquerda  
e as limitações das posições políticas desenvolvidas por aqui. E não temos novidades  
no front: persistem a mesmas cantilenas, cada vez mais, na forma de pastiches. E isso  
significa que os textos de J. Chasin são atuais, ao mesmo tempo em que indicam que  
quase 30 anos depois os herdeiros do pensamento nacional marxista, nós inclusos,  
fracassamos de modo grosseiro em fornecer alternativas a um futuro ausente.  
Porém, há aditamentos necessários aos juízos chasinianos. Em verdade, somos  
uma caricatura daquilo que já era adstringido quando da escrita dos mencionados  
textos do autor paulistano. No presente cenário, ainda são recuperados os  
vocabulários do “populismo”, “dependência”, autoritarismo” e “marginalidade”. No  
entanto, sabe-se que tais conceitos apresentam-se muito mais como marketing político  
que como algo a efetivamente ser intentado e mobilizado politicamente. Trata-se muito  
mais de performatividade do que de uma tentativa séria de explanar o  
desenvolvimento do real. Mais do que nunca, os gestores do capital atrófico,  
principalmente aqueles à esquerda, são prisioneiros de leis econômicas que não  
compreendem e não pretendem compreender.  
Em verdade, mesmo o ex-professor e ex-ministro da fazenda Fernando Haddad,  
em teoria, um dos quadros mais capazes do petismo, - e, supostamente marcado por  
certa influência marxista e habermasiana -, não pestanejou ao deixar penetrar em sua  
gestão o famigerado tripé macroeconômico. E, na prática, isso significou a completa  
ausência de programa econômico por parte de um partido que somente nominalmente  
coloca-se como “dos trabalhadores”. Efetivamente, o PT vem governando há muito  
tempo por meio da desmobilização de sua antiga base social, a qual, agora,  
compreensivelmente, desilude-se com o que se apresentou como a alternativa  
democrática no momento posterior a institucionalização da autocracia burguesa em  
1985.  
O papel de gestor do capital é assumido orgulhosamente por aqueles que  
outrora pareciam poder se opor à conformação da via colonial de entificação do  
capitalismo nas greves de 1978-79. Assim, crescentemente, os inimigos de ontem  
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tornam-se aliados, como é o caso da emedebista Simone Tebet, do camarada Geraldo  
Alkmin e de qualquer um que possa assumir um papel nas negociatas políticas.  
Governar passa a significar negociar e o planalto se torna um balcão de negócios, em  
que as concessões políticas e econômicas não expressam uma tática voltada a qualquer  
horizonte, mas a simples sobrevivência em um ambiente hostil, em que a extrema-  
direita cresce e dá a tônica do debate público.  
Talvez a situação não seja propícia às ilusões políticas, inerentes a um processo  
ainda marcado por dubiedades. Também não se tem somente a superstição inerente  
ao raciocínio teológico, em que se espera que, por um milagre, os fantasmas do  
passado possam voltar à vida. Que fique claro: mesmo que nós votemos em Lula em  
massa nas eleições de 2026 o que é nosso dever, não há dúvidas ninguém espera  
qualquer radicalização, guinada à esquerda ou mudança de rumos. Se a época de  
Chasin ainda tolerava ilusões bem-intencionadas, o nosso tempo traz o avesso e os  
prolatados jargões à esquerda, os quais figuram como parte de uma performance, que  
adquire tons de marketing.  
Em verdade, diante de um futuro ausente, tornamo-nos conservadores, pois  
sabemos que o ímpeto de mudança não está conosco no momento. Acabamos optando  
por um cenário de negociatas, de não acabamento do capitalismo nacional, de alianças  
espúrias, em suma, de um rebaixamento de quaisquer expectativas quanto ao futuro.  
Nesse cenário, tematizar as formas de transição parece ser praticamente impossível,  
até mesmo porque a relação dos gestores do capital com elas é o que propicia as  
representações vinculadas à persistência do domínio do capital e, portanto, de um  
futuro ausente.  
Ademais, os ensaios de retomar um jargão envelhecido sobre soberania  
nacional, que foram realizados pelo petismo diante das tarifas econômicas e das  
ameaças por parte da administração Donald Trump em 2025, já estão esquecidos. E,  
como disse Lula elevado a posto de grande estadista no ano de 2026 devido ao  
fato de o presidente americano o ter respeitado (sabe-se lá em razão de quais  
negociações, provavelmente ligadas aos famigerados “metais críticos”....) –, sua  
reunião com o bilionário foi “amor à primeira vista”. Efetivamente, essa é a relação  
cordial que nós, que não raro denominamos Trump de fascista, podemos esperar caso  
a derrota de Lula nas urnas não aconteça. Como as candidaturas de esquerda são  
somente simbólicas por mais interessantes que alguns aspectos delas possam soar  
em abstrato o horizonte último que está colocado a nós é o adiamento da  
aposentadoria do octogenário presidente.  
De todo o modo, em um sentido mais geral, a derrota é certa.  
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Independentemente dos resultados das eleições, a conformação colonial do  
capitalismo brasileiro sequer é questionada. Ademais, não há no horizonte qualquer  
programa econômico minimamente à esquerda nas urnas e fora das urnas.  
Continuamos nos opondo ao avanço da extrema-direita com jargões envelhecidos, que  
são incapazes de apreender as determinações do capitalismo contemporâneo e que  
obviamente são inférteis para pensar nas formas de transição presentes na própria  
realidade do sistema capitalista de produção e da formação social brasileira. A  
impressão é que a pergunta sobre o que fazer transformou-se na questão sobre o que  
ceder para que o pior não aconteça (e não há dúvidas que um governo de Flávio  
Bolsonaro seria desastroso e que evitar tal desfecho é urgente). De certo modo, o  
cenário é aquele mais propício para se perder as ilusões e para que assumamos que  
somente chegamos ao ponto de considerar como uma reivindicação de esquerda a  
defesa das instituições burguesas e de todas as suas falhas quando a derrota foi  
retumbante.  
Tal condição não é somente aquela em que esquerda está morta e seu cadáver  
insepulto continua pairando pelos cantos. Os próprios defensores de um quarto  
governo Lula (nós inclusos) sabemos que não há chance alguma de um governo  
minimamente à esquerda. O hiato entre aquilo que é necessário para o renascimento  
da esquerda e para o questionamento do capitalismo de um lado e, de outro, para o  
cotidiano das eleições é assustador e aterrorizador. E, claro, isso não decorre de  
qualquer “crise de paradigmas”, mas das derrotas das últimas décadas e do fato de  
que sequer os revezes da esquerda foram assumidos por nós da maneira devida.  
Assim, devemos ruminar sobre o assunto.  
Porém, nesse momento de crise profunda da esquerda também há espaço para  
alternativas sobre as nossas ilusões: é plausível e se trata da alternativa mais  
provável que nós continuemos fingindo que nossa derrota não é certa. Entretanto,  
também nos deparamos com a possibilidade de assumir a nossa insignificância no  
presente para que possamos enterrar os mortos de vez, com ou sem glórias. Como  
disseram Marx e Engels no Manifesto, então, seríamos obrigados finalmente a encarar  
sem ilusões a nossa posição social e as nossas relações com o capitalismo de nosso  
tempo. E isso não é pouco.  
Nesse sentido específico, nunca estivemos tão perto de um passo decisivo para  
o renascimento da esquerda e do marxismo. Perder as ilusões diante de um cenário  
como o presente é o primeiro passo para a apreensão objetiva de nossas condições  
de vida e para elaboração programática de pautas econômicas e políticas. O caminho  
é muito árduo, mas deve ser trilhado com o auxílio daquilo que há de melhor em  
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termos de ciência, reconhecendo as especificidades do capitalismo brasileiro, a  
necessidade da adoção da perspectiva do trabalho contra o capital, de modo a se  
preparar para o estabelecimento de um programa econômico ao qual, nós, no presente  
momento, fomos incapazes de pensar.  
VII  
O medo, a esperança e as eleições no Brasil: os pastiche do  
politicismo e o non sense da democracia dos juristas  
É sintomático que oscilemos entre o medo de uma vitória daquilo mais aviltante  
nas tradições nacionais e a esperança de um quarto e a fraquíssimo governo Lula. A  
extrema direita do Brasil resgata explicitamente a herança da ditadura militar e, tal  
qual nos 21 anos do domínio dos generais, busca a subordinação direta à política  
externa americana. Ao contrário daquele momento, no entanto, não há projeto algum  
quanto à indústria e a integração nacional. O problema é que hoje não é mais  
necessário para a extrema direita um programa de integração econômica e política  
propriamente dito. Seus objetivos estão em destruir quaisquer resquícios de  
conquistas sociais de outrora e todas as instituições com mínima porosidade para  
pressões efetivamente populares. Que há um projeto de poder, não há dúvidas. Mas  
os nortes da economia e das instituições políticas estão subordinados à tática  
momentânea para o domínio espoliativo direto.  
Como mencionado, os representantes do capital atrófico perderam as ilusões  
quanto ao caráter civilizatório do capitalismo, tanto em termos políticos, quanto no  
campo econômico. Sabem que, afinal, nosso capitalismo é incompletável, a burguesia  
tupiniquim está associada ao capital internacional, a democracia e os direitos sociais  
foram conquistados apesar das instituições supostamente democráticas, e não por  
causa delas.  
Em verdade, eles parecem até mesmo estar cientes de que a história nacional é  
uma constante oscilação entre bonapartismo e autocracia institucionalizada. Como  
resultado, possuem uma visão muito mais realista do que a autoproclamada esquerda.  
Ao mesmo tempo, porém, para dizer com a dicção do 18 Brumário, não  
fornecem qualquer poesia ou qualquer futuro. Em suma, pensam nos termos de um  
futuro ausente, em que a sobrevivência individual é a chave, mesmo que possa se dar  
de modo extremamente brutal. Não se trata propriamente do prolatado “capitalismo  
de cassino” ou de um simples domínio direito de grupos econômicos – sejam eles  
legais ou ilegais , mas da assunção de que a época de think tanks acabou e que é  
muito mais adequado à gestão do capital atrófico uma espécie de não-gestão, ou seja,  
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a predação e o disparate de um Paulo Guedes (ou qualquer símile), um homúnculo, se  
comparado a um Delfin Netto.  
Talvez Frederic Jameson tenha alguma razão quando especulou que as posições  
à direita de seu tempo (que chamou de neoliberais) trouxessem uma concordância  
quanto aos marxistas sobre a impotência do Estado em sanar os males sociais. Paulo  
Arantes também foi perspicaz quando analisou a década de 1990 do Brasil ao dizer  
que a nata do tucanato paulista que Chasin sempre associou a uma espécie de  
marxismo adstringido constitui na realidade uma espécie de oxímoro, um marxismo  
de classe dominante.  
No entanto, hoje, o problema não é, como quer Safatle, que a esquerda teme  
dizer seu nome; pode até ser que nós gritemos muito alto, performática e  
enfaticamente o que queremos, mas não basta querer. E há de se admitir que há certo  
voluntarismo e politicismo em tal posicionamento do filósofo da USP. É certo que,  
quando a direita perdeu suas ilusões, é preciso que deixemos para o passado as  
nossas, e admitamos que sem um programa econômico não vamos a lugar algum. E,  
claro, não há que tentar suspender as ilusões à Furet, que se tornou simplesmente um  
apologeta dos ventos contrarrevolucionários de nossa época. Porém, é preciso admitir  
que, em verdade, a questão não diz respeito à política e nas instituições do chamado  
Estado de Direito.  
Mais urgente é que tenhamos a percepção de que a extrema direita já percebeu  
tal fato e, por conseguinte, adota como premissa aquilo que deveria ser sabido pelos  
marxistas. Hoje, esses últimos, dentre os quais nós nos encontramos, são irrelevantes  
do ponto de vista político, pois, para que parafraseemos a Crítica à filosofia do Direito  
de Hegel - introdução, nossa teoria não se apodera das massas e muito menos se torna  
uma força material. E isso ocorre até mesmo porque, substancialmente, desistimos de  
desenvolver uma teoria no sentido forte; passamos a ser reativos até mesmo porque  
o sujeito histórico que embasou a crítica marxista no século XX, o moderno  
proletariado, convive por muito tempo com a situação da superação do modo de  
produção capitalista dentro do modo de produção capitalista. Suas representações são  
frutos dessa situação, sobre a qual raramente paramos para ruminar e que adquire a  
faceta do pesadelo que aludimos acima. Em parte substantiva, nossa teoria não se  
apodera das massas porque não compreendemos os elementos básicos da situação  
que engendra as formas de ser do trabalho e do capital. Ademais, as condições das  
classes produtoras contemporâneas envolvem muitas formas transicionais complexas,  
cuja apreensão não é simples.  
De outro lado, os dogmas da escola de Chicago possuem efetividade prática  
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porque dizem respeito às formas aparenciais e àquilo cuja eficácia é mais imediata  
(mesmo que brutal). E, sem uma teoria propriamente ligada à perspectiva do trabalho  
contra o capital, os Chicago boys mais ou menos enrustidos aparecem tanto nas  
gestões à esquerda (que são temperadas com uma pitada de vergonha pelo papel  
assumido na gestão do capital) quanto na direita, para quem, no Brasil, o problema  
sempre parece ser que não se é suficientemente liberal na economia e não se  
mercantilizou a vida suficientemente. Olhar para a gestão petistas dos últimos quatro  
anos foi difícil, embora sempre tenhamos o feito com a convicção que um segundo  
governo Bolsonaro teria resultado em danos intoleráveis sobre o mínimo que resta de  
civilização no Brasil.  
Assim, oscilar entre o medo e a esperança ainda mais quando essa última é  
tão rebaixada possui um significado profundo. A questão é retomada por Lukács ao  
debater com Espinosa e, nos diz o velho húngaro: ambas as disposições afetivas dizem  
respeito a uma ausência de conhecimento sobre as reais condições sobre as quais elas  
se assentam.  
O medo se aloca diante da incerteza de um desconhecido e a esperança na  
crença de que, ao fim, os rumos serão favoráveis, por mais que tenhamos em nossa  
cabeça certa ignorância. Nossa posição como esquerda é aquela em que, sem a  
compreensão do todo do processo de produção, de circulação e das figuras da  
produção global, restamos sem o entendimento das condições materiais nas quais se  
assenta nossa práxis.  
O resultado é conhecido: ausência de programas econômicos, programas  
políticos inexistentes, as formas de transição desenvolvidas na própria sociedade  
capitalista sequer são tematizadas. Diante disso, resta oscilar entre, de um lado, o  
moralismo e o otimismo pueris, que se colocam contra a efetividade dos fatos, e, de  
outro, o cinismo de um oportunismo sem oportunidades minimamente à esquerda.  
Para que sejamos claros: de certo modo, os últimos anos foram mais do mesmo. Porém,  
não se trata mais de um reformismo fraco, como quis André Singer sobre os dois  
primeiros governos Lula, pois não se procura quaisquer reformas, mas a simples  
contensão de danos diante dos ataques aos direitos que foram conquistados quando  
a esquerda ainda possuía força e o movimento dos trabalhadores ainda era  
efetivamente expressivo. O ânimo da (pseudo) esquerda que gere o capital é aquele  
de alguém que mira o abismo e diz que ele não existe.  
No melhor dos casos, o conservadorismo paira no ar. Diante do ataque aos  
direitos sociais e mesmo aos direitos civis mais básicos a posição adotada tem  
sido procurar fazer valer contra o domínio burguês a ideologia burguesa de outrora.  
Verinotio  
nova fase  
ISSN 1981 - 061X v. 31, n. 1, pp. IX-XLIII jan.-jun., 2026 | XLI  
Vitor Bartoletti Sartori  
A particularidade, porém, é que, mesmo essa visão de mundo já está rebaixada pelas  
perspectivas adotadas pela autoproclamada esquerda. E tal fato é patente quando o  
conceito de democracia defendido na esfera pública por aqueles que possuem o  
mínimo de escrúpulos é um tipo de democracia dos juristas. Democracia torna-se  
“Estado de Direito” e confunde-se com a defesa das instituições institucionalizadas  
outrora de modo autocrático.  
Também é sintomático que os “atos antidemocráticos” tenham sido as razões  
da prisão dos envolvidos na tentativa (felizmente confusa e quase que cômica) de  
golpe de Estado em 2023. A influência das milícias, o envolvimento com agentes  
internacionais ou tantas outras fundamentações para o crime de lesa-pátria dão lugar  
a argumentações cuidadosamente reduzidas ao terreno do Direito e processadas pelo  
STF por um juiz outrora famoso por reprimir as manifestações da esquerda no Estado  
de São Paulo quando secretário de segurança pública do então tucano e inimigo  
número um dos professores – Geraldo Alkmin. Sob a alegação de que as “instituições  
estão funcionando”, que constitui uma absoluta contradição em termos, a categoria da  
democracia adquire uma tonalidade ainda mais limitada. Como mencionamos, o  
pastiche do politicismo, que consiste hoje em proclamar as teorizações de outrora de  
modo voluntarista, vem perdendo terreno e as únicas esperanças que parecem se  
sustentar são negativas: a crença de que é possível evitar que o que há de pior na  
história nacional volte ao poder executivo.  
Dizemos isso porque a tonalidade quase que estamental do judiciário se  
mantém e, inclusive, é defendida com afinco quase cômico pelo que resta dos  
democratas de plantão. O legislativo, nos níveis municipal, estadual e federal, está  
abarrotado por políticos diretamente ligados às milícias, empresas (principalmente  
ligadas ao agronegócio e à mineração, mas também a bancos mais ou menos  
predatórios) e igrejas as quais propagam a ideologia da extrema-direita de modo  
desavergonhado.  
A estrutura do Estado brasileiro é tal que parece inverossímil que alguém possa  
negar aquilo defendido no Manifesto em meados do século XIX, que o Estado, ao fim,  
é uma espécie de comitê executivo, que trata dos assuntos comuns da burguesia.  
A esperança nas eleições do executivo encontra-se com expectativas  
profundamente rebaixadas e, nesse cenário, aquilo que decidirá as eleições não serão  
as manifestações populares, a promessa (ilusória) de guinada à esquerda ou qualquer  
outro artifício de mobilização das massas. Antes, é muito mais provável que  
vazamentos de investigações (como aquelas do banco Master) sejam o decisivo.  
Quando as esperanças possuem tal base, para dizer com Marx da Sagrada família, não  
Verinotio  
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Editorial  
há mais propriamente ilusões, mas superstições políticas. E somente a superstição  
pode defender que o tempo das crises e sua manifestação nacional no Brasil pode ter  
um termo dentro do capitalismo.  
Um conceito apologético, enfraquecido e putrefato de democracia paira no ar e  
não é de se estranhar que haja terreno para a recepção da crítica às instituições  
autoproclamadas democráticas. O Estado de Direito, conformado como uma  
democracia dos juristas, é um contrassenso até mesmo para alguém como Tocqueville.  
Como nosso dossiê do presente número demonstra, isso é absolutamente incompatível  
com o pensamento marxista também. Com tal conceito vigente, talvez o percurso para  
percebermos algo basilar para um marxista esteja completo: o poder político é, ao fim,  
como disse Marx já em Sobre a questão judaica, a forma política dos poderes sociais  
estranhados dos próprios homens. Mais diretamente, para dizer com Guerra civil na  
França, o Estado é uma excrecência parasitária. Assim, a vinculação entre crítica da  
especulação, das categorias econômicas, do Direito e do Estado emergir. Isso é  
somente uma possibilidade, porém. Tendencialmente, se não perdermos as ilusões e  
assumirmos nossas estrondosas derrotas de modo explícito, pode ser tarde, pois a  
extrema direita já se encontra desiludida, relegou para o passado a civilização e avança  
a passos largos.  
Verinotio  
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